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Volta às aulas: MBA ou mestrado?

No começo de ano, muitos profissionais revêem objetivos. Decidir o que estudar pode definir se você vai atingí-los ou não. Veja como escolher melhor

Luiza Dalmazo

21/02/2008 às 20h53

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Apesar de parecer uma decisão complicada, definir o que fazer entre os Master of Business Administration (MBA) ou os mestrados pode ser fácil se suas prioridades de carreira estiverem definidas e se a definição de o que oferece cada um deles estiver clara. Isso pode inclusive fazer com que você fuja de modismos e consiga cursar o que realmente vai beneficiar seu desenvolvimento profissional. No Brasil, por exemplo, muitas pessoas acreditam que os MBAs trazem um peso maior ao currículo do que os cursos de educação continuada ou de especialização.

Entretanto, como nível de formação, todos estes tipos de cursos estão no mesmo nível. De acordo com o professor Gutenberg Silveira, diretor acadêmico do centro de pós-graduação da FIAP, na maioria dos casos as instituições de ensino recebem do Ministério da Educação (MEC) a autorização para funcionar com a caracterização de cursos de especialização, mas preferem ser chamados de MBA porque oferecem melhor impressão aos interessados. “Quem se forma, porém, não recebe outro título que não o de especialista”, revela.

Uma dica para entender as diferenças entre os cursos é observar a denominação que tem: lato sensu ou stricto sensu. Ambos os termos vem do latim. O primeiro significa “amplo” e quer dizer que quem passa pelo curso ganha uma visão horizontal de algum assunto. Eles vão além da graduação, mas fazem uma abordagem abrangente dentro de uma área mais específica.

Ao contrário, o strictu sensu, representa um grau mais avançado na formação, já que garante visão vertical ao aluno e conhecimento profundo de um tema mais específico. Pertencem a essa categoria os mestrados, doutorados e também os pós-doutorados e cursos de livre docência. “A procura maior ainda é pelos MBAs, mas observo que as empresas precisam cada vez mais de pessoas com preparação que vai além do que a especialização propicia”, afirma Silveira, que também atua em uma empresa fornecedora de sistemas de TI.

O que leva o MBA a ser mais popular em procura – e até em reconhecimento em alguns casos – é o conceito popular de que o mestrado é um curso que além de possibilitar uma formação mais profunda, prepara professores para lecionar em nível superior, seja em faculdades ou nas universidades, assim como pesquisadores. É fato que mestrado é uma condição vital para quem quer se tornar professor e não é para quem segue a carreira em empresas. Mas isso não significa que não aprimore e contribua com o desenvolvimento e formação dos profissionais do setor privado.

Por esta falta de percepção, existem profissionais que fazem dois e até três cursos de MBA – em vez de partir para o mestrado – e assim não se aprofundam ou garantem peso ao currículo. “A percepção de que mestrado é para quem quer seguir a área acadêmica é forte, mas se observarmos as teses apresentadas na USP, percebemos que muitas tratam de casos de empresas reais”, afirma. Assim, o executivo acredita que – assim como já é realidade em países da Ásia, como a Coréia – a quantidade de profissionais com titulação de mestre e doutor vai aumentar nas empresas e, na opinião de Gutenberg, isso vale para tanto para as empresas usuárias de tecnologias quanto para as fornecedoras.

Se depender do diretor de recursos humanos para o Google na América Latina, Deli Matsuo, isso deve acontecer em breve. “No Brasil há uma grande demanda por profissionais com formação em mestrado, muito mais do que MBAs, que são apenas uma pós-graduação”, afirma. O executivo acredita que apenas nos Estados Unidos os MBAs tem peso de mestrado, porque exigem dedicação integral do aluno e não de apenas um período, como no Brasil. “Por isso acho que é melhor fazer mestrado em alguma área técnica no Brasil, até porque existem cursos muito bons por aqui”, avalia. Além disso, Matsuo revela que o tema do mestrado em si não é o mais importante. O que vale é o que o aluno aprende o método e atesta a sua dedicação.

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Idéia contrária
O gerente da divisão de TI da Michael Page, empresa de busca e contratação de profissionais, Ricardo Basaglia, no entanto, discorda. Ele defende que quando o executivo fizer o mestrado, precisa avaliar e entender a aplicabilidade do tema no mercado de trabalho. O profissional sugere também que os cursos de mestrado são bons para quem tem o objetivo de atuar na área de tecnologia e também nas empresas que tem a TI com negócio fim. Mais do que isso, diferentemente do que prega o diretor de RH do Google, Basaglia acredita que a demanda maior são por profissionais que tenham cursado MBAs. “Essas pós-graduações são mais importantes porque sabem explorar a gestão dos serviços de terceirização e também fazem a gestão do que está sendo entregue pelo fornecedor”, defende.

Mas há também que defenda os MBAs em qualquer caso. O diretor de programas corporativos e internacionais da Business School São Paulo (BSP), Armando Dalcoleto, diz que os mestrados abordam os aspectos técnicos da gestão e que os MBAs trazem muito mais benefícios à vida do estudante, pois promovem uma boa rede de relacionamentos, envolvendo professores e colegas. “Tanto para quem quer atuar em empresas usuárias de TI ou fornecedoras, o MBA é importante”, defende.

Para que deseja ser o CIO e tem origem técnica, o curso de pós-graduação pode ajudar o profissional a se integrar no ciclo da empresa, pois é estratégico. Os que pretendem trabalhar nas companhias fornecedoras, é legal para que desenvolvam as habilidades comerciais. “Essa dicotomia entre os dois cursos só existe no Brasil”, argumenta.

Antes de pensar em fazer MBA ou mesmo o mestrado, os especialistas alertam, entretanto, que é preciso avaliar o momento. Basaglia, da Michael Page, diz que muitos partem para o curso sem ter inglês fluente. Mas argumenta que uma companhia que quer contratar um profissional que cursou um MBA, quer também que esse alguém fale inglês bem. “É disso de que eles precisam”, avalia. O professor doutor do departamento de engenharia de computação e sistemas digitais da USP, Jorge Luis Becerra, completa que existe o tempo certa para ingressar nesses cursos.

Em vez de sair da faculdade e logo mergulhar de cabeça em cursos de MBA e mestrado, a dica do profissional é vivenciar o ambiente de trabalho antes. “A experiência corporativa de no mínimo dois anos é altamente recomendada, para que as informações abordadas pelos professores façam sentido para o aluno que reconhece em seu ambiente de trabalho aquelas situações”, afirma.

Agora, com seus objetivos revistos – como é tradicional no começo do ano – reveja se suas estratégias de estudo são adequadas. Isso pode até mesmo fazer com que você economize tempo (em vez de fazer vários cursos, um de aprofundamento pode ser mais interessante) e também dinheiro, já que alguns deles envolvem investimentos pesados, principalmente se forem feitos fora do País.

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Cursos não resolvem o problema da mão-de-obra

Antes de matricular-se em escolas para aprender sobre qualquer tema que entra na moda, avalie o que realmente vale a pena aprender.

O País vive a ausência de profissionais especializados em tecnologia da informação – o próprio Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) avalia que o setor terá um déficit de 3 milhões de profissionais na área em médio prazo. Mas mesmo a explosão de ofertas de cursos na área não vai resolver o problema. Segundo o professor doutor do departamento de computação e sistemas digitais da Universidade de São Paulo (USP), Jorge Luis Risco Becerra, essa resolução frustrada acontece porque a grande parte dos cursos de curto prazo funcionam apenas como um “banho de tecnologia”, que resolvem o problema da demanda de profissionais apenas momentaneamente.

“Quando muda a linguagem de programação, por exemplo, volta a surgir a falta de mão-de-obra, porque as pessoas não aprendem a essência das programações”, explica. Isso seria facilmente resolvido se os cursos mais aprofundados e de prazo mais longo explicassem às pessoas de onde e como surgem as tecnologias. Portanto, antes de definir que curso estudar, avalie o que você realmente pretende aprender e quais metas quer atingir.

Hierarquia dos cursos
Muitos profissionais de TI e até de outras áreas tem a errônea percepção de que os MBAs equivalem mais do que as pós-graduações ou cursos de especialização. Conheça a escala correta para saber como aprofundar a formação (em escala ascendente).

1. Graduação
2. Latu sensu: pós-graduação, cursos de especialização, MBAs
3. Strictu sensu: mestrado
4. Doutorado
5. Pós-doutorado
6. Cursos de livre docência

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