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Você está ultrapassado?

Profissional de TI enfrenta um grande desafio: manter-se relevante à medida que tecnologias Web 2.0 se infiltram nas corporações

Computerworld, EUA

07/02/2008 às 18h41

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Vince Kellen tem uma carreira de TI bem-sucedida. Atualmente, é CIO da Universidade DePaul e também palestrante internacional sobre CRM (customer relationship management) e internet. Tem quatro livros publicados sobre tecnologia de banco de dados e planeja concluir um PhD em ciência da computação na DePaul. Mas Kellen tem muito orgulho de outra realização recente: ele atingiu o nível de habilidade 2325 no jogo de tênis para Wii.

Não é só uma questão de se exibir para seus dois filhos, ambos com menos de 12 anos, um deles capaz de derrotá-lo facilmente no beisebol ou box para Wii. Kellen também gosta de observar como o software se adapta à medida que o nível de habilidade do jogador melhora, em especial quanto se trata do handheld remoto, que é programado para ser sensível a gestos físicos. “Ele galgou um novo patamar de interatividade”, diz Kellen em relação ao sistema Nintendo. “O jogador se torna extremante hábil em manipular a interface.”

Esta capacidade pode não ser aplicável ao ambiente de desenvolvimento corporativo de hoje, mas algum dia talvez seja. E a curiosidade de Kellen sobre o sistema de videogame favorito dos seus filhos é um bom exemplo da mentalidade que os gerentes de TI precisam desenvolver para enfrentar o que alguns consideram o maior desafio da profissão neste momento: manter-se relevante à medida que tecnologias Web 2.0 baseadas na comunidade e voltadas para o consumidor se infiltram nos alicerces do mundo corporativo e ameaçam tornar obsoleto o gerenciamento de TI estilo “controle e comando”.

De acordo com um coro crescente de líderes, consultores e blogueiros, TI precisa assumir um novo papel. Deve continuar com suas tradicionais responsabilidades, tais como governança, segurança e controle de custos e retorno do investimento. Mas também deve afrouxar o controle sobre segmentos da empresa que estão determinados a melhorar a produtividade através da utilização de aplicações de internet rica que podem ser baixadas, redes sociais, ferramentas de colaboração e outras tecnologias Web 2.0.

Anthony Bradley, analista do Gartner, prevê uma “mudança significativa de poder” que TI ignora em seu próprio prejuízo. Com aplicações de internet gratuitas, plataformas web e software social, “é o lado consumidor que está fomentando mais avanços tecnológicos, não TI empresarial”, diz ele.

Há ainda a questão de como as inovações -- redes sociais, RSS, microblogs, wikis e mashups -- irão traduzir-se em lucros corporativos. Pouca gente, porém, tem dúvida de que elas precisam ser exploradas, e não só por TI. “Os usuários abriram os portões de TI”, afirma Josh Holbrook, gerente de programa do Yankee Group Research.

“TI vai aceitar blogs patrocinados pelas corporações, wikis e redes sociais, mas resta saber se vão decolar na hora certa ou se a tecnologia estará antiquada na hora em que for implementada.”

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É por isso que os líderes de TI estão discutindo como equilibrar controle com inovação inspirada no usuário. “As empresas que conseguirem fazer isso terão funcionários mais felizes e também mais produtos, e o departamento de TI ficará livre para enfocar produtos visionários, que ajudem a impulsionar a receita e a inovação”, escreveu o diretor sênior de TI da Universidade Estadual da Pensilvânia, Jeff Kuhns, em seu blog.

Evitando a extinção
A tarefa de manter a percepção de relevância — e, possivelmente, evitar a extinção — pode exigir que os gerentes de TI examinem de perto seus estilos de gerenciamento atuais e façam alguns ajustes, sobretudo se já trabalham em TI há algum tempo.

“O principal problema para os CIOs é que eles estão totalmente alheios aos desenvolvimentos da tecnologia de consumo ou fingem que eles não existem”, diz Kellen, acrescentando que faz questão de trabalhar e interagir com os eletroeletrônicos.

Ele cita o iPhone da Apple como exemplo. Otimizado para vídeos curtos, o iPhone pode ser útil para treinamento ou divulgação de informações para equipes de vendas. As antenas de Kellen também estão ligadas em mensagem de texto, algo que se tornou obrigatório para a interação social básica entre os estudantes universitários, os quais, em breve, farão parte da força de trabalho.

“Ainda não sei ao certo o que isso significa, mas eles estão acostumados a se expressar textualmente usando uma linguagem que não está amplamente acessível e através da qual projetam suas personalidades.”

Kellen ainda está um pouco hesitante em relação ao conceito de Enterprise 2.0 — termo empregado para descrever a visão de plataformas de tecnologias abertas, descentralizadas, voltadas para a comunidade. “O fenômeno da Web 2.0 é mais fumaça do que fogo”, compara, porque até agora ninguém descobriu qual é a relação direta entre os dados não estruturados que ela produz e o aumento da competitividade corporativa.

“Simplesmente ter mais blogs e wikis não é a resposta”, observa Kellen. “Você precisa saber o que a organização vai aprender com isso, estruturar este conhecimento e transformá-lo em lucro.”

Ele está tentando se preparar para o dia em que isso acontecer. Na DePaul, Kellen criou uma equipe focada em desenvolvimento de Web 2.0 e está pressionando fornecedores a tornar estas tecnologias mais relevantes para o mercado corporativo.

Nas empresas onde executivos C-level talvez não recebam muito bem um gerente de TI que se distancia muito do estilo de liderança “comando e controle”, Kellen sugere explorar a paixão e o talento de usuários-chave. “Você pode criar uma pauta de inovação, montar uma equipe em torno dela é financiá-la”, orienta. “Mesmo que não seja algo imediatamente produtivo, vai gerar resultados em dois ou três anos.”

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Saindo do mundo do “não” Às vezes, tudo que os usuários querem é a sensação de que TI está aberta à idéia de criar, por exemplo, um wiki, mesmo acreditando que um wiki será inútil até estar integrado ao sistema CRM para produzir business intelligence. Isso significa rejeitar a percepção daquilo que Ian Patterson, CIO da Scottrade, chama de “Dr. Não” ou o “Abominável Homem Não”. “O sujeito que quer atualizar o wiki não está preocupado com o panorama mais amplo.”

Uma maneira de proporcionar satisfação imediata e ao mesmo tempo executar a devida diligência de avaliação de ROI e risco, diz ele, é dividir o panorama geral em partes menores e informar aos usuários o que eles podem esperar.

TI pode, por exemplo, prometer a entrega de um wiki solicitado por um usuário no prazo de uma semana e, ao mesmo  tempo, planejar a criação de um mecanismo de relatório de business intelligence dois ou três meses depois, sabendo que o usuário talvez se aborreça por esperar tanto tempo para que seu pedido inicial seja atendido.

“Comece a pensar em incrementos de 30 dias, não de seis meses”, recomenda Patterson. “Sempre há projetos de 90, 180, 360 dias, mas como lidar com as coisas que devem ser feitas em uma semana?”, questiona.

Projetos de mais curto prazo talvez não precisem dos mesmos controles e processos dos de longo prazo, por exemplo. Quando você deixa de lado a abordagem “tamanho único”, TI se torna colaboradora, ao invés de inibidora.

Tire a palavra “não” do seu vocabulário e comece a pensar em termos de “é uma idéia possível, vamos ver o que podemos fazer com ela”, ensina Paterson.
Afinal, se os usuários perceberem TI como uma barreira, vão encontrar outras maneiras de fazer o que querem, e podem ter êxito, acredita Holbrook.

Ele já viu equipes de vendas inteiras adotarem tecnologia de consumo com a intenção de se tornarem mais produtivas e depois TI ter que desativar as aplicações porque não foram aprovadas. Em um caso, ressalta Holbrook, o CFO rejeitou uma decisão de TI porque foi considerada inibidora de geração de receita.

Não desista
No Constellation Energy Group, a atitude no escritório do CIO não é “Não podemos fazer isso”, mas “Isso é interessante, existe aplicabilidade?” revela Wynne Hayes, chief technology officer da empresa.

Com este tipo de atitude aberta, aumentar sua habilidade de negócio pode se tornar tão importante quanto melhorar sua fluência em Web 2.0. “Há jovens saindo da escola que dão banho em TI em termos de tecnologia Web 2.0”, diz Hayes. “É importante sermos mais orientados para negócio para que não nos tornemos obstáculos à realização do negócio.”

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A atitude aberta já levou a Constellation a experimentar uma nova abordagem para desenvolvimento de sistemas. Recentemente, quando o grupo de commodities precisou que uma nova aplicação fosse desenvolvida rapidamente, recorreu à TopCoder, que promove competições de codificação regularmente, classifica desenvolvedores que competem e torna estes talentos disponíveis para as empresas que precisam criar sistemas.

O trabalho é dividido em dezenas de partes para que os desenvolvedores trabalhem paralelamente um com o outro. Quando a codificação está concluída, os componentes são integrados. Isso acelera o trabalho, o que tem um “valor tremendo” para a TopCoder.

Apesar de tais resultados, poucos defendem a abertura das comportas para uma grande mudança nas áreas de TI e negócio. O mundo da Web 2.0 é mais confuso do que qualquer empresa está acostumada. Tradicionalmente, qualquer informação, antes de ser publicada tanto interna quanto externamente, é verificada duas vezes e está sujeita a um processo de aprovação corporativa.

Com a Web 2.0, este tipo de governança é totalmente irrelevante, ou mesmo destrutivo para a própria finalidade do blog ou wiki. “A última coisa que queremos é colocar governaça em torno dela”, diz Hayes. “Cabe aos indivíduos assumirem a responsabilidade.”

Portanto, não se trata só de saber se TI está preparada. Também é uma questão de comunicar aos outros líderes de negócio as mudanças que estas tecnologias implicam, assegurar que estejam preparados para a autonomia que as tecnologias requerem e planejar uma implementação em fases. A Constellation está testando wikis e blogs em seu grupo de commodities e explorando sua aplicabilidade para engenheiros e TI.

“Queremos nos certificar de que a cultura está pronta para a mudança — que eles são responsáveis pelo conteúdo”, explica Hayes. E isso também significa que os leitores precisam ser responsáveis por analisar criticamente a informação que lêem.

Patterson concorda que as ferramentas de publicação colaborativas e rede social não devem ser excessivamente gerenciadas por TI. A Scottrade usa tecnologia de varredura baseada na web da RSA Security para garantir a precisão do que é publicado na internet pública, mas quem lida com estes processos é o pessoal de negócio, não TI.

Alcançando o equilíbrio
Cada vez mais, os funcionários esperam que as tecnologias que usam em suas vidas pessoais os acompanhem aonde quer que vão — e que eles não precisem de ajuda para implementá-las. Diante de tais expectativas, os profissionais de TI estão lutando para redefinir seus papéis.

Eles tendem a três abordagens, segundo Holbrook: procurar e destruir (desativar aplicações não aprovadas), admitir e ignorar (não fazer nada para administrar a situação) ou solicitar e suportar (tentar suportar todas as tecnologias incorporadas pelos usuários). Ele sugere um quarto caminho: viabilizar a criação de comunidades online que permitam aos usuários compartilharem as melhores práticas para gerenciar tecnologia de consumo no local do trabalho.

“TI pode se envolver nestas comunidades e ajudar a formar uma opinião sobre as melhores ferramentas e como implementá-las de maneira ótima, mas só intervém quando uma aplicação impõe riscos inaceitáveis à segurança”, observa Holbrook.

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Isso permite que os usuários incorporem tecnologias de consumo, mas reduzam problemas de suporte. “É uma grande mudança para TI porque representa uma mudança para um método comunitário de gestão dos usuários finais.”

Outro grande aspecto do processo de equilíbrio é a educação do usuário, opina Patterson. “É uma questão de ter um diálogo aberto com o pessoal de negócio para que eles entendam o que vai acontecer da perspectiva de compliance, e-discovery ou risco”, diz. “Existe uma linha tênue entre ser considerado um dinossauro e ser considerado um capacitador.”
Brandel é colaboradora do Computerworld/EUA

Experiente sim, antiquado não
Como os gerentes de TI acima dos 40 se mantêm abertos e atualizados em relação a tendências emergentes? Vince Kellen tem uma boa visão das tendências de tecnologias emergentes porque trabalha em uma universidade.

Muitos estudantes nasceram na mesma época da World Wide Web e esperam que seus ambientes de estudo ou trabalho espelhem suas vidas pessoais, onde as funcionalidades web estão sempre presentes.

Alguns observadores utilizam o termo “nativos digitais” para descrever as pessoas que têm este perfil, em oposição aos “imigrantes digitais”, para os quais a tecnologia Web 2.0 é uma segunda língua. “Eles pensam sobre tecnologia de um modo diferente”, ressalta Kellen.

“É como a água, simplesmente está lá.” Mas, mesmo sendo um imigrante digital, Kellen é mais fluente do que muitos dos seus contemporâneos, graças à interação com os nativos.

Ian Patterson acompanha as últimas tendências usando todas as tecnologias de consumo nas quais consegue pôr as mãos. “Tenho tudo, um iPod, um BlackBerry Curve no qual baixo e testo todos os nossos podcasts, e passei um tempo no Second Life”, revela.

Não que ele compre tudo que experimenta. Após três meses no Second Life, por exemplo, desistiu. “Acho que um dia vai chegar lá, mas é ineficiente. Apesar de o conceito existir, é muito devagar.”

Wynne Hayes recrutou o filho de 14 anos para ser seu mentor. “Faço muitas perguntas”, conta. Quando ela começou a ouvir falar em blogs e wikis, por exemplo, pediu ao filho para explicar o que significavam. “Meus olhos reviraram e foi então que descobri que eu era um dinossauro.”

Mas, através da interação com seu jovem mentor,  Hayes continuará evoluindo. Você pode conseguir algo semelhante contratando pessoas que o façam ir além dos seus próprios processos de pensamento. Um novo contratado na Constellation Energy sempre força os limites do que TI estava fazendo, diz Hayes. “O diretor o chama e pergunta o que ele acha. E ele nos leva mais longe do que iríamos sozinhos.”
 

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