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Transformação Digital: muita fumaça e pouco fogo

A razão de muita conversa e pouca ação é simples: a Transformação Digital torna essencial a empresa ser ágil e ser ágil implica em mudar modelo de gestão, processos e a cultura organizacional

Cezar Taurion *

26/02/2018 às 5h49

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O cenário
de negócios do século 21, com a evolução exponencial das tecnologias digitais, se
caracteriza por ser um cenário volátil, incerto, ambíguo e crescentemente
complexo. Ou seja, um contexto imprevisível, de mudanças rápidas, que não pode
ser gerenciado com as estratégias, técnicas, processos e mentalidade que
privilegiem a estabilidade. Essa, simplesmente, deixa de existir. Mas, fazer
uma Transformação Digital vai muito além da tecnologia. É uma mudança cultural
que afeta profundamente a organização em seus processos e modelos de gestão.

Ao contrário do modelo dominante do século 20, de estruturas
burocráticas e hierárquicas, as empresas que irão competir com chances de
sobrevivência nos próximos anos serão as empresas que conseguirem realmente se
transformar em empresas ágeis. Uma das bíblias de gestão, a Harvard Business
Review, reconheceu isso, publicando um instigante artigo em maio de
2016: “Embracing Agile”. É leitura obrigatória para os CEOs e todos os C-level de qualquer
organização. Aliás, o conceito básico do que é ser uma empresa ágil ainda não
é compreendido entre os executivos da maioria das empresas. Para minha surpresa,
em conversa com centenas de CIOs vi que muitos deles não compreendiam os
princípios filosóficos do modelo ágil, que surgiram no desenvolvimento de
software, sua área de responsabilidade direta. Esses princípios, divulgados no “Manifesto for Agile Software Development”,
no longínguo ano de 2001, simplesmente nunca foram lidos por muitos CIOS!

Esta falta de compreensão do que é ser uma empresa ágil fica
clara quando vemos que existe muita fumaça e pouco fogo nos discursos de Transformação Digital. Qualquer empresa hoje se diz em processo de fazer uma
transformação, digital, mas poucas realmente estão fazendo. A razão de muita
conversa e pouca ação é simples: a Transformação Digital torna essencial a
empresa ser ágil e ser ágil implica em mudar modelo de gestão, processos e a
cultura organizacional. Não vemos isso acontecer com frequência. Vemos sim,
empresas colocando tecnologias, mas ainda organizadas no modelo de gestão
top-down, burocrático. O que é um erro. A Transformação Digital não é uma
transformação tecnológica. A tecnologia é meio, não o fim.  Manter uma estrutura organizacional
burocrática e adotar IA, Blockchain, Cloud e outras tecnologias trará
resultados pífios.

A explicação? Resolver problemas complexos requer
colaboração contínua dentro da empresa e com seu ecossistema, principalmente
seus clientes. Desenvolver e entregar uma solução de forma rápida,
proporcionando uma experiência encantadora para os clientes vai muito além da
capacidade que uma organização burocrática, com seus entraves, vai permitir. A
burocracia não tem foco na experiência do cliente, mas é projetada para
produzir resultados consistentes (e geralmente medianos) de acordo com as
regras estabelecidas internamente. Além disso, uma estrutura burocrática, com
sua longa cadeia de comando e controle, não consegue se mover com a velocidade
que o cenário de negócios atual exige. Portanto, para a Transformação Digital
ter sucesso não basta apenas usar tecnologia. Todas tecnologias estão disponíveis
a todas as empresas. É preciso usar a tecnologia para repensar a organização e seu
modelo de gestão.

Ser uma empresa ágil é essencial para a Transformação Digital. Uma empresa ágil tem modelo de gestão diferente de uma empresa
burocratizada. E uma das principais barreiras para a transformação é a cultura
entranhada na organização , principalmente entre seus executivos seniores.

Uma mudança de mentalidade é o primeiro passo para uma
empresa se tornar ágil. Isso significa romper com paradigmas consolidados, com
experiências executivas consolidadas por décadas. Não é fácil.

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Vamos
exemplificar com o modelo que predominou nas agendas das empresas nos últimos
anos: a implementação de sistemas ERP. Os ERP atenderam plenamente o modelo
conceitual da sociedade industrial: grandes sistemas, baseados em planejamentos
de longo prazo, que atendiam produtos padronizados e, com isso, geravam economias
de escala.

Mas, hoje os negócios estão centrados em três pilares
fundamentais:  velocidade/agilidade,
inovação e experiência do cliente. Os ERP's não pertencem a este cenário! Eles evoluíram ao longo das últimas décadas para, a
partir de um conjunto de aplicativos isolados, criar um único sistema integrado
e abrangente, de ponta a ponta, capaz de "fazer tudo". No entanto,
esta visão começou a se tornar obsoleta pelo fato de a abordagem de ponta
a ponta gerar uma organização inflexível, lenta e um sistema dispendioso para
implementar e manter.

Na Era Digital, ser ágil, flexível e centrado no cliente tornou-se
-se fundamental. As organizações precisam ser “outside-in” _ ou, a partir da
visão do cliente, criar os processos que os atendam sem fricções desnecessárias _
e não “inside-out”, onde o cliente tem que se adaptar aos processos burocráticos
internos. Tradicionalmente, os sistemas ERP tratam de planejamento, fabricação,
vendas, marketing, distribuição, contabilidade, gestão financeira,
gerenciamento de recursos humanos, gerenciamento de projetos, gerenciamento de
estoque e manutenção. Observem a falta de qualquer módulo que cubra
as abordagens externas, como a captura da experiência do cliente, o mapeamento
da jornada, as práticas omnichannel, as experiências móveis de ponta a ponta e
assim por diante.

As soluções ERP em nuvem, no formato SaaS, mantêm os mesmos
conceitos. Muitos dos fornecedores SaaS prometem a entrega de novas
atualizações funcionais regulares, mas não há garantia de que essas
atualizações corresponderão às suas necessidades de inovação. A inovação é um
processo não restrito a uma aplicação de software. O que muitas empresas
fizeram para contornar a necessidade de sair da padronização imposta pelos ERP
foi fazer as suas personalizações ou customizações. Esta solução gerou
implementações mais onerosas e difíceis de manter e atualizar.

Uma mudança de empresa burocrática para ágil passa por estas
mudanças de conceitos. O cenário do antigo ERP provavelmente passará a ser uma
combinação de módulos ERP apenas para funções que se prestam a ser padronizados.
Como cada organização vai lidar de forma diferente com seus talentos,
ecossistema, clientes e forma de fazer negócios, cada uma delas desenvolverá aplicativos que
se adequem às suas necessidades e não às "melhores práticas" vendidas pelos fornecedores de ERP.

O ERP pós-moderno significa que as
organizações provavelmente começarão a adquirir aplicativos de diferentes
fornecedores, muitos fora da tradicional lista atual.

O cenário de negócios deu mais poder ao cliente, que tem todas as
informações que precisa disponíveis em seu smartphone, a qualquer hora. Como informação é poder, deslocou-se o controle do vendedor (empresa) para o
cliente. O cliente agora é o dono do negócio e espera experiências cativantes,
independente do setor onde a empresa opera. Na sociedade industrial havia
percepção que a empresa poderia manipular os clientes, e como os produtos eram
padronizados, não havia muito para onde correr. Com a digitalização, pode-se
criar invólucros digitais em torno dos produtos, e com isso consegue-se
personalizá-lo. Se uma empresa gera essa experiência, este passa a ser o nível
mínimo de exigência para as demais.

Uma empresa burocrática não consegue ser ágil para responder
a essas mudanças rápidas. Mesmo que afirme isso de boa-fé, não consegue, na prática,
atender às necessidades do cliente do ponto de vista dele. Assim, slogans
“cliente em primeiro lugar” tornam-se apenas intenção não colocadas em pratica, já que o modelo organizacional e de gestão não permite que isso
aconteça.

A ideia que apenas parte da empresa pode ser ágil e as
demais podem funcionar em ritmos diferentes não funciona. A razão é simples:
se uma parte da empresa tem foco em criar valor para organização e a outra não,
que está focada em cortar custos ou elevar o valor das ações, o valor não é
criado.

O ponto principal é que para fazer uma transformação digital de
verdade, a empresa tem que se tornar ágil. E para se tornar ágil ela precisa pensar
como uma empresa ágil, e isso bate de frente com os mindset, processos e cultura
atuais. Ser ágil não é apenas implementar tecnologias e processo em determinadas
áreas da empresa. É transformar a empresa por completo em sua cultura e modelo
de gestão. É um desafio e tanto, mas é essencial para a sobrevivência
empresarial. As empresas criadas sob paradigma do século 20 não sobreviverão da
mesma forma no século 21. Quais sobreviverão? As que foram mais ágeis em se
tornarem ágeis!

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e
autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open
Source, Cloud Computing e Big Data

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