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Transformação digital é muito mais que automatização

Entender o fenômeno da digitalização e fazer os primeiros movimentos pode trazer como prêmio a liderança em um novo cenário de negócios que já está delineado: a economia digital

Cezar Taurion *

13/05/2015 às 7h04

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Um tema recorrente em meus posts é a transformação digital e seus impactos, que já estamos vivenciando na sociedade, nas empresas e na TI. É um assunto fascinante,  e  volto a ele hoje.

Cada vez mais os mundos virtuais e físicos se interligam. Vemos evoluções significativas nas plataformas de Cloud, nos conceitos que permeiam a Ciência de Dados e o Uso de Big Data & Analytics, a mobilidade se tornando ubíqua e as redes sociais já sendo encarada de forma muito mais ampla que uma simples presença no Facebook. Aliás recomendo estudar este último assunto pela ótica da “social physics”, que integra o estudo da engenharia das redes sociais motorizadas pelo Big Data ( http://socialphysics.media.mit.edu/ ). Os negócios caminham, indubitavelmente, para serem digitais, qualquer que seja o setor de indústria, do entretenimento ao agronegócio, da mídia à mineração. A Internet das Coisas vai acelerar este processo. Sensores, robótica, machine learning, impressoras 3D, Big Data & Analytics, Cloud Computing, tudo isso junto, potencializa movimentos de transformação de impacto similar ao deslocamento de placas tectônicas.

A transformação digital é muito mais que uma simples e tradicional automatização. Os sistemas básicos, que suportam o back office já deveriam ter sido implementados e quem ainda não o fez está correndo contra o tempo, não para inovar, mas para se manter um pouco menos atrás.

Entender o fenômeno da digitalização e fazer os primeiros movimentos pode trazer como prêmio a liderança em um novo cenário de negócios que já está delineado: a economia digital. A complexidade do cenário de negócios cresce exponencialmente. Já em 2010, estudo da IBM com CEOs, “Capitalizing on Complexity” mostrava isso claramente.

A competição também subiu de patamar. O competidor de daqui a alguns dias pode estar fora de seu radar hoje. No cenário que estávamos acostumados  a gerenciar, a competição era como uma disputada corrida de F1. Temos o grid de largada, sabemos quem são os competidores e passamos a corrida buscando arduamente subir de posição, lutando para não sermos ultrapassados. Mas hoje, o competidor que pode ser o vencedor entra inesperadamente pela lateral da pista e simplesmente joga você para fora da corrida. O resultado? As fronteiras que demarcam indústrias estão simplesmente desaparecendo.

A economia digital abre oportunidades e riscos para os CIOs. Demanda um pensamento criativo e inovador. Demanda pensar digital. Um exemplo, as empresas que nasceram no mundo da Internet, como Amazon, Facebook, Google, PayPal, eBay, AliBaba, AirBnB, Uber, Linkedin, Tesla, e inúmeras outras, já nasceram com DNA de Cloud, Big Data e outras tecnologias embutidas em seus modelos de negócio. Parecem bem diferentes...não usam mainframes e muitas delas estão deixando de comprar servidores dos fabricantes tradicionais. Mas serão, realmente, tão diferentes? Enquanto isso, nas empresas pré Internet ainda se discute se irão operar em cloud ou se Big Bata tem valor para o negócio...

Claro que a velocidade das respostas das empresas a este processo varia de setor para setor. Alguns são afetados mais rapidamente e outros levarão algum tempo antes de serem afetados. Mas, mais cedo ou mais tarde, todos os negócios serão information-driven e nenhuma empresa passará ilesa pela transformação digital.

As mudanças podem ser de processos de negócio. Um exemplo é o SenseAware, da Fedex, que utiliza sensores para garantir que pacotes com conteúdo sensível seja monitorado quanto a temperatura, exposição à luz e condições de armazenamento. Serviço criado para atender, por exemplo, ao transporte de órgãos humanos. Aliás, importância de ser uma empresa information-driven está nas palavras de seu fundador há mais de 35 anos atrás: “The information about the package is as important as the package itself”.

A transformação também pode ser no modelo de negócios. A indústria automotiva passa a ter novos concorrentes como Apple e Google, e com o conceito de “shared economy” decolando, começa a trilhar o caminho de ser uma empresa de serviços. O CEO da Ford no keynote do CES 2015 disse que a empresa está se transformando em empresa de tecnologia, deixando de ser exclusivamente fabricante de veículos para ser uma empresa de serviços de mobilidade. Vai continuar fabricando carros, óbvio, mas a receita tenderá a crescer em torno dos seus serviços e não da venda em si. A sua palestra pode ser vista (50 minutos) em http://www.cesweb.org/News/CES-TV/Video-Detail?vID=UTlmIgRwbxXH&dID=DliGIusJiD1C&sID=OhYr3WpdgEMj.

Outros setores tradicionais começam a ver sinais de mudanças a frente, como o financeiro: Kickstarter (crowdfunding), Bitcoin (moeda virtual), Square (pagamento móvel) e LendingClub para empréstimos peer-to-peer.

A indústria hoteleira é outra que está sendo transformada em seu modelo de negócio. Redes tradicionais como Accor, Hyatt e Hilton, que lutavam entre si, passaram a enfrentar um novo concorrente, com outro modelo de negócios, a AirBnB. Não tem hotéis ou quartos próprios. Usa o modelo de “shared economy! E surgiu de repente. Aliás, é uma empresa de software que atua no setor de hospedagem. Exemplo vivo da competição que vem de outros setores, antes jamais discutidos nas reuniões de estratégias do board das empresas hoteleiras.

O Whatsapp não nasceu de dentro da indústria de telecom e está comendo a receita de SMS. O Skype, também alienígena ao setor, já devorou grande parte das receitas de telefonia.

A Internet das Coisas e as impressoras 3D têm o potencial de revolucionar as indústrias tradicionais. A IoT não apenas poderá criar novos produtos, mas possibilitará a criação de novos modelos de negócio baseados em serviços, gerados pelas informações que os próprios objetos gerarão. Mais um passo na direção de uma empresa infomation-driven.

A responsabilidade do CIO neste cenário aumenta significativamente. Nas dinâmicas que venho participando com CIOs nestes últimos anos vejo claramente que alguns, é claro, já estão inseridos no mundo digital enquanto outros ainda acreditam que este tema não deva ser liderado por TI ou que mesmo seja de responsabilidade da TI! O papel da TI e do CIO deve ser repensado, até por questão de manter sua relevância no mundo digital.

A TI de hoje não será em absoluto a TI de daqui a poucos anos. O perfil essencialmente técnico perde relevância e demanda-se perfis de executivos de negócio. Para muitos é uma mudança de postura bastante radical. É enxergar que não é mais suficiente uma TI que suporte o negócio, com seus PDTIs e projetos que demandam meses e anos. Planos estratégicos de muitos anos perdem valor e a TI pode e deve criar uma plataforma que permita a empresa aproveitar os “business moments”, aquelas oportunidades transientes que, se exploradas no tempo certo, podem criar vantagens competitivas substanciais.

A TI se transforma em um componente essencial do negócio e, portanto, neste contexto os CIOs devem adotar postura proativa, de inovação e liderança criativa. Ir além das discussões técnicas com os fornecedores de tecnologia, mas entender como a tecnologia poderá impactar ou revolucionar seu setor de indústria e sua empresa. Felizmente, hoje, para ser criativo, não são necessários grandes investimentos. Com o uso de Cloud e ferramentas de Big Data Analytics open source conseguimos explorar rapidamente novas ideias, a custos bastante razoáveis.

TI passa a ter que gerenciar também um ecossistema de fornecedores e parceiros muito mais abrangente e complexo. Enquanto antes, apenas grandes e tradicionais empresas de TI eram consideradas, vemos nitidamente que as principais inovações surgem de novas empresas. As tradicionais, apesar de seu tamanho, longevidade e reputação, perdem sua relevância, e vemos exemplos claros de algumas delas tentado desesperadamente mudar seus rumos e se adaptarem aos novos tempos.

Um estudo do Gartner “CIO Survey 2013” mostra que 32% dos principais fornecedores de TI daqui a dez anos não existem hoje ou ainda são startups. Difícil de acreditar? Basta lembrar que a AWS surgiu em 2006 e hoje é líder inconteste em Cloud Computing, ultrapassando empresas tradicionais que se aferraram ao modelo tradicional de outsourcing e venda de hardware. Quando Amazon surgiu, em 1994, como livraria onlin,e era inimaginável que assumiria a posição de líder em um setor de TI então dominado por empresas como IBM e HP. Aliás, quando o Google surgiu há menos de 20 anos, ninguém imaginava que não só deslocaria lideres do setor de buscas como AltaVista, como resistiria e derrotaria gigantes como a Microsoft e seu Bing, além de com o Android se tornar líder de mercado de plataformas de smartphones, contribuindo decisivamente para o declínio de poderosas empresas como Nokia e RIM.

A guerra no mundo digital é rápida e letal, e o disruptor pode sofrer ruptura em pouco tempo. O exemplo do iTunes é emblemático. Após ter destruído valor da indústria fonográfica tradicional, está perdendo espaço para Spotify e seu modelo de streaming.

Diante deste contexto, na minha opinião, a pior decisão que um CIO pode tomar diante destas transformações que não são teorias, mas palpáveis, é simplesmente omitir-se e continuar exclusivamente concentrado na sua árdua, sem duvida, tarefa de gerenciar o dia a dia.

É uma opção, mas o risco é manter-se ou não relevante para sua empresa no futuro próximo. Afinal a falha em entender e agir efetivamente para responder à nova economia digital vai tornar sua empresa vulnerável à disrupção, com todas as suas consequências.

 

(*) Cezar Taurion é é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data

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