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Tese sobre a morte do departamento de TI é exagerada, dizem profissionais

O novo livro do impertinente guru de TI Nicholas Carr gera debate acirrado sobre utility computing. Acompanhe a reação dos leitores

Network World, EUA

14/01/2008 às 12h56

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Os profissionais de TI estão furiosos com o novo livro de Nicholas Carr, que prevê a extinção do departamento de TI corporativo e sua substituição pelo modelo de utility computing (computação utilitária).

O web site de Network World recebeu uma enxurrada de comentários de profissionais de TI desde o dia 7 de janeiro, quando publicou uma análise sobre o novo livro de Carr, "The Big Switch: Rewiring the World from Edison to Google".

"Este artigo prova que Nicholas Carr ainda consegue ter um livro seu publicado… apesar de sua extrema falta de conhecimento de lógica, economia e tecnologia da informação", diz um leitor anônimo, definindo Carr como "um escritor sem talento com um diploma de Literatura Inglesa".
 
Outro anônimo declara que Carr é "um autor implorando por atenção e não alguém versado e experiente em TI. É um menino berrando para que alguém olhe para ele. OK, vou distrair você respondendo às suas últimas considerações".
 
Os comentários – mais de 50 – não são os discursos inflamados encontrados comumente na internet. No geral, são argumentos detalhados, bem articulados, que explicam por que as empresas continuarão precisando de seus próprios departamentos de TI corporativos para proteger dados de clientes, suportar o usuário final, atualizar a infra-estrutura da rede e implementar aplicações de negócio personalizadas.

Os comentários encaminhados pelos leitores estão na proporção de 8 a 1 contra a premissa de Carr de que os departamentos de TI não terão muito o que fazer depois que a computação corporativa migrar dos data centers geridos pelas próprias empresas para as instalações de utility computing.

Um leitor anônimo não acredita que esta grande transformação prevista por Carr acontecerá. "As empresas investiram centenas de milhares ou até mesmo milhões de dólares em infra-estrutura. Simplesmente vão jogar tudo fora? Duvido muito… Muitas empresas, inclusive a minha, jamais confiarão seus dados a uma solução de utility computing, também conhecida pelo nome de Google. Downsizing sim, mas morte do departamento de TI, não acredito nisso."
 
"Trabalhei para inúmeras organizações que achavam que terceirizar TI era a chave para o sucesso, e elas fracassaram em todos os aspectos", afirma o leitor Andrew van der Stock. "Nossos dispositivos e estilos de computação vão mudar (veja Salesforce.com etc.), mas a necessidade de gerenciar centralmente os muitos dispositivos que a empresa possui não desaparecerá."
 
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Não é a primeira vez que Carr atrai a ira dos profissionais de TI. Em 2003, publicou um ensaio provocador na Harvard Business Review intitulado "IT Does Not Matter" ("TI Já Não Importa"). Neste artigo, Carr afirmou que os investimentos em TI não tinham conseguido proporcionar vantagem estratégica para as empresas porque tão logo uma empresa adotava uma tecnologia nova, seus concorrentes faziam o mesmo.

Carr está provocando mais uma vez com seu novo livro, no qual defende que o modelo de utility computing substituirá os departamentos de TI corporativos do mesmo modo que as companhias de energia elétrica substituíram as estações de força gerenciadas por fabricantes nos primórdios do século 20.

Segundo Carr, para as empresas é mais eficiente comprar serviços de utility computing via internet do que operar seus próprios data centers e suas próprias infra-estruturas de rede. "Idéia interessante, sem dúvida, mas só vou acreditar vendo", afirma Jon Allred.

"O fato é que as necessidades de TI de uma empresa são bem mais complexas do que um gerador de eletricidade. Tanto assim que a idéia como um todo está mais próxima de uma polêmica política pró-outsourcing do que de uma avaliação honesta do estado da infra-estrutura de TI corporativa."

De acordo com os profissionais de TI, Carr subestimou o papel que os data centers com informações de clientes vão desempenhar na retenção dos departamentos de TI corporativos.

"Estamos vendo uma abordagem mais commodity para hardware e serviços, que pode ser comparada às companhias de eletricidade. Mas, quanto à segurança da força vital das empresas - os dados -, acho que elas vão querer manter um controle firme, apesar de todo o hype no sentido contrário", escreve Barry W.

"A única e grande medida de segurança para dados é física: não pendurar a informação em uma rede de nós. Cada um deles representa um ponto de transferência e uma oportunidade para um ladrão", escreve um anônimo. "Carr está vivendo em um mundo dos sonhos da informação não patenteada e não protegida."

Muitos profissionais de TI ressaltam que os departamentos de TI corporativos já estão gerindo data centers mais eficientes e menos onerosos graças à virtualização de servidores. "Existe a chance de que as corporações reduzam suas equipes de TI com o correr do tempo, mas isso tem mais a ver com o VMware do que com o Google", comenta um anônimo. "Por que Carr não enfocou a tecnologia virtual? Ele perdeu uma grande oportunidade de ser específico."

Os profissionais de TI também argumentam que os fornecedores de utility computing não serão suficientemente flexíveis ou eficientes para satisfazer as necessidades corporativas, levando as empresas a manterem seus próprios departamentos de TI.

"Aos olhos das empresas, as soluções de TI utility serão frágeis, inflexíveis e ineficientes", diz Milton Smith, embora admita que acha o conceito de utility computing "interessante".

"No momento, o modelo de outsourcing é o que está sendo praticado nas grandes corporações, mas muito em breve elas vão perceber que fizeram um mau investimento", alega outro anônimo. Ele cita "o não cumprimento de acordos de nível de serviço, a má qualidade do serviço ao cliente e a falta de recursos para tecnologia especializada".

Carr também prevê o fim da profissão de TI enquanto carreira lucrativa, exceto para quem queira trabalhar para os fornecedores de serviços. Segundo Carr, os profissionais de TI de uma empresa estão indistinguíveis dos de outras e eles se dedicam principalmente a executar tarefas de manutenção, ao invés de desenvolver aplicações.

Para os profissionais de TI, trata-se de uma acusação absurda. "Discordo totalmente da afirmação idiota de que TI morreu", escreve um anônimo. "Na realidade, ela terá uma participação muito maior no futuro mundo dos negócios. Sim, utility computing desbancará muitos dispositivos para o usuário final atuais, PCs etc., mas não tem nada a ver com os dados e serviços ofertados que são utilizados pelo negócio e pela indústria."

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Carr também sustenta que as empresas não irão mais precisar de uma legião de técnicos e antevê apenas um indivíduo gerindo uma operação de computação corporativa inteira. Os profissionais de TI que estão fazendo comentários sobre o livro de Carr não parecem muito preocupados com seus empregos.

"Sempre haverá demanda por aquele molho secreto e pela equipe de especialistas necessária para idealizá-lo e prepará-lo –  sem outsourcing aqui", declara um anônimo. "Sem contar que é muito mais divertido".

"TI importa", afirma Tom M. "É o que permite que seus iPhones e BlackBerries recebam aqueles relatórios noturnos. Não somos trabalhadores diários acostumados a fabricar suas roupas. Criamos o mundo eletrônico que circunda você e existiremos por muito tempo, acrescentando ao seu precioso brinquedo novo aquele recurso novo que você precisa ter."

Um pequeno número de leitores de Network World concorda com as previsões otimistas de Carr para utility computing. "O autor destaca diversos fatores que ajudarão a mover a computação para o ‘cloud’ e diminuir a relevância de TI", diz o leitor Tom Clement.

"Eu acrescentaria que a emergência de serviços web baseados em padrões e de mecanismos de orquestração (isto é, BPEL) possibilita, cada vez mais, que funções fora da área de TI montem aplicações capazes de atender suas próprias necessidades sem precisar envolver TI."

Leia mais em O departamento de TI morreu?

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