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O Blockchain, muito além dos bancos
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O Blockchain, muito além dos bancos

Cada um poderá, em tese, monetizar seus próprios dados, gerando maior valor

Cezar Taurion *

13/11/2017 às 6h23

blockchain262840.jpg
Foto:

Blockchain é uma tecnologia que vem chamando mais e mais atenção.
Sim, é uma tecnologia que ainda está no estágio de experimentações e
muitos executivos ainda não perceberam seu potencial disruptivo. Mas,
ignorar seu potencial pode ser muito arriscado.

Vejamos: antes
de mais nada, não olhemos a tecnologia isoladamente, mas observemos que
as disrupções surgem na convergência de diversas tecnologias. A
convergência de suas forças disruptivas é o que criará valor real e
impulsionará inovações. E, muitas vezes, podem ser tecnologias e modelos
de negócio que, à primeira vista, não têm nada em comum.

Por
exemplo, vamos juntar a tecnologia do Blockchain e a economia do
compartilhamento. Reunindo essas duas forças podemos potencialmente
criar uma ruptura nos negócios de empresas inovadoras e bilionárias como
Uber e Airbnb. O sucesso dessas empresas, que são plataformas de
intermediação, é devido à sua capacidade de agregar o uso dos ativos das
pessoas, como locais de hospedagem e automóveis, com potenciais
usuários. Na prática, essas empresas criaram plataformas digitais que
aproveitam o "excesso de capacidade" e utilizam os ativos e horas
disponíveis de outras pessoas para fornecer os serviços. Esse mesmo
conceito se aplica as outras empresas que “uberizam” diversos setores de
indústria.

Mas, e se incluirmos Blockchain no processo? Com Blockchain podemos, em princípio, contornar a plataforma intermediária e
permitir a colaboração direta peer-to-peer dentro de uma estrutura de
governança distribuída.

Com Blockchain, os fornecedores e
consumidores de serviços compartilham um ledger digital descentralizado,
sem a necessidade de uma plataforma agregadora centralizada. Ou seja,
sem necessidade de um Uber ou Airbnb! Um exemplo prático de aplicação
que pode substituir (ou complementar) o modelo Uber é o Arcade, que está
chegando ao Brasil
.

Como o valor real do Blockchain é
estabelecer interações baseadas na confiança, o impacto pode ser
profundo: uma plataforma centralizada, que tem como modelo de negócio ser
o intermediário em uma transação de valor, está agora em risco potencial
de sofrer disrupção porque o mesmo serviço pode ser fornecido por
interações peer-to-peer.

O Blockchain oferece aos provedores de
serviços um meio de colaboração direta, permitindo obter uma maior
participação do valor dos serviços que eles prestam, sem as taxas que as
plataformas agregadoras exigem de seus associados. Agentes inteligentes
em um Blockchain poderiam fazer praticamente quase todos os serviços
que são atualmente fornecidos pelas plataformas.

O protocolo de
confiança do Blockchain permite que associações autônomas e
independentes sejam formadas e controladas pelas mesmas pessoas que
estão criando o valor. Todas as receitas dos serviços prestados, menos
despesas gerais como campanhas de marketing e serviços jurídicos e
administrativos, iriam para os próprios membros, que também controlariam
a plataforma e tomariam suas próprias decisões. A confiança não será
então gerada pela plataforma agregadora, mas sim através de consenso
criptografado, essência do Blockchain.

Blockchain
também pode mudar a forma como transacionamos commodities físicas. Por
exemplo, olhemos o setor elétrico. Ele tem sido o mesmo sistema por
muitas décadas, com entidades centralizadoras que controlam toda a
cadeia, da geração à transmissão e distribuição. São empresas de
capital intensivo, o que praticamente impede a entrada de novas
empresas. Mas a chegada de novas e mais baratas tecnologias de geração
de energia renováveis, como solar, permitem a criação de novos
produtores, como prédios, fábricas, casas e até mesmo automóveis. Estes
“prosumidores (produtores e consumidores de energia) podem competir com
as distribuidoras existente pelo mercado de energia.  A tecnologia Blockchain pode ser uma alavancadora para permitir que as transações
ocorram diretamente entre os interessados, sem interferência da entidade
distribuidora tradicional.

CIO2503

E-book por:

Uma startup em Perth, na Austrália,
a Powerledger, está testando uma solução peer-to-peer que permitirá às
pessoas oferecer seu excesso de energia, gerada através de seus painéis
solares, via Blockchain. A proposta é conectar diretamente os
fornecedores com os consumidores sem a necessidade de intermediação pela
empresa de energia. Outras experimentações já estão acontecendo, como a
alemã Share&Charge, para veículos elétricos, onde você paga
diretamente ao provedor do ponto de recarga, bem como vemos empresas de
energia também testando o potencial de Blockchain e procurando entender
como fazer parte deste novo modelo.

Uma experiência em New York, “How
Blockchain Helps Brooklyn Dwellers Use Neighbors' Solar Energy
”, testa
essa possibilidade de parceria. Aliás, o estado de New York está
promovendo competições para inovações em novos modelos de
comercialização de energia, como o programa “Powering a New Generation
of Community Energy
”. Uma leitura no artigo “Banking Is Only The
Beginning: 30 Big Industries Blockchain Could Transform
” mostra o
potencial de uso da tecnologia em diversos setores de indústria, muitos
deles, à primeira vista, inimagináveis, como cibersegurança, registros
acadêmicos, leasing de automóveis, registro de imóveis, programas de
fidelização, e cadeia logística, no rastreio de produtos.

Sim, são todas experimentações, mas a tecnologia de Blockchain e o ecossistema em torno dela estão evoluindo rapidamente.

blockchain

Hoje
ainda temos mais perguntas do que respostas. Como estabelecer um
sistema de governança transparente para garantir a longevidade dos
blocos de um Blockchain? E quanto à segurança, desempenho, custos e,
mais importante, regulações necessárias?

Com este potencial de
aplicabilidade, é recomendado que os executivos das organizações, de
todos os setores, comecem realmente a pensar mais seriamente em Blockchain. E questionem:

1) Que aspectos da minha organização será
vulnerável a desintermediação e qual a probabilidade de isso acontecer?
Lembre-se que a tecnologia é potencialmente disruptiva para todos os
intermediários. A probabilidade de disrupção é proporcional ao custo, à
complexidade e ao grau de duplicação das transações no atual sistema de
intermediação.

2) Como reimaginar meu negócio à luz do potencial
de mudanças provocadas pela desintermediação e como e quando iniciar a
mudança, antes que alguém a faça antes?

3) Onde poderei aplicar Blockchain como vantagem competitiva e com ele oferecer novos serviços e até novos modelos de negócio?

4)
Faz sentido desenvolver iniciativas de Blockchain sozinho ou será
necessário o desenvolvimento colaborativo, em larga escala? Com quem
deverei colaborar e como criar esses mecanismos de colaboração?

Algumas
premissas devem definir as estratégias de aplicação de Blockchain pelas
organizações. Primeiro, Blockchain é muito mais sobre colaboração do que
sobre competição. Implementar Blockchain sozinho dificilmente será
compensador. Setores fragmentados, com desconfianças mútuas e custos
altos de transação entre si são, alvos preferenciais de aplicação de Blockchain. Um exemplo: o setor de Saúde. Por outro lado, quanto
maior a extensão de um Blockchain e quanto mais heterogêneos forem os
seus participantes, mais complexo será o desafio de definir uma
estratégia comum. Em Blockchains “consorciados”, o gerenciamento do
consórcio entre membros, que atualmente competem entre si, será um fator
crítico.

Segundo, e uma questão ainda em aberto, é se o futuro
será dos Blockchains abertos ou dos consorciados. Mais ou menos como a
discussão sobre clouds públicas e privadas. Blockchain abertos têm a
vantagem da escala (mais nós, mais validação), mas os “permissioned”
dispensam determinadas funcionalidades como “proof-of-work” e, portanto,
têm escalabilidade melhor.

Uma terceira premissa é o papel do
governo, como agente regulador. Não temos ainda posições claramente
definidas em nenhum governo do mundo. Alguns são mais abertos e ágeis,
enquanto outros são mais lentos e conservadores. Entretanto, como Blockchain facilita auditoria e reduz fraudes e corrupção, é provável
que haja uma tendência da maioria dos governos em entender e inserir a
tecnologia em seu aparato regulatório.

E, por último, a
incerteza ainda predomina. Tal como acontece com outras tecnologias
disruptivas, haverá vencedores e perdedores. A rede social MySpace
morreu, mas o Facebook se consolidou. Se a tecnologia evoluir com
sucesso e conseguir um crescimento escalável, ela tem potencial de
romper normas estabelecidas e transformar a sociedade e as empresas.
Grandes quantidades de dados gerados pela sociedade hoje, mas controlados por plataformas centralizadoras, podem se tornar
públicas e distribuídas. Em um mundo impulsionado por Blockchain, cada
um poderá, em tese, monetizar seus próprios dados, gerando maior valor.

É
muito provável que a tecnologia Blockchain se torne uma tecnologia
mainstream. O nível de interesse na tecnologia demonstra o seu potencial para permitir o desenvolvimento de aplicações que
trarão novas abordagens para os atuais problemas de negócios. Na
verdade, serão os desafios sociais, jurídicos e financeiros que essas
mudanças irão provocar e não a tecnologia em si, que serão as principais
barreiras a serem vencidas.

Existem muitas experimentações, muitos
indicadores da aplicabilidade de Blockchain, mas ainda não temos casos
de uso concretos, em larga escala. Existem diversas implementações de Blockchain, todas cercadas de dúvidas em relação ao seu futuro.
Portanto, na sua estratégia não se esqueça de perguntar "Quem paga pelo Blockchain?". Sua implementação é suportada por um ecossistema estável e
apto para aplicações de missão crítica? Compreender claramente os
incentivos e os fatores econômicos por trás de cada opção de Blockchain
pode poupar muitos problemas futuros, em relação a escolhas erradas.

Cada
empresa deve definir sua estratégia. Não existe uma resposta única. Mas,
ignorar o assunto Blockchain é a única estratégia que não dará certo! O
tema, pela sua importância e potencial de disrupção, deve estar,
obrigatóriamente, na agenda executiva dos C-level das empresas.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data

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