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Inovar é reconhecer os erros e amplificar os acertos

Mais do que saber identificar quando uma ideia não está dando certo, é preciso saber quando ela de fato emplaca e dar o devido foco

Gabriel Notari *

05/08/2014 às 7h08

Foto:

Um jovem estudante larga a escola
aos 16 anos para editar uma revista voltada ao público estudantil (sim, parece
meio controverso. Mas confie em mim). Ele consegue pautas, patrocínio e imprime
50.000 cópias da revista para distribuição gratuita. A revista começa a ter
tração e é um sucesso. Mas dá uma estagnada e depois de 3 anos vem a falta de
dinheiro para mantê-la. Foi aí que esse jovem teve uma ideia: como ele gostava
muito de música, resolveu criar uma empresa de envio de LPs pelo correio para
custear sua revista. O novo negócio deu tão certo que ele resolveu fechar a
revista, investir mais no novo negócio e abrir uma loja de LPs para aumentar as
vendas. Aí a coisa explodiu de vez e ele teve muito sucesso.

Parece história de ficção mas não é. Essa é a história de Sir Richard Branson,
famoso empresário britânico que tem no seu currículo empreendimentos como a
Virgin Records (que tinha nada mais nada menos que os Sex Pistols, Keith
Richards e Spice Girls no seu portfólio) e a Virgin Atlantic (empresa aérea
muito famosa no hemisfério norte). O curioso é que existem alguns pontos bem
interessantes a serem analisados nessa história, que se relacionam diretamente
com inovação.

Dois deles obviamente são a vontade de inovar e a paixão por algo. Richard
criou a revista pois viu que não existia nenhuma revista para este segmento,
então viu aí uma oportunidade. Além disso, ele tinha muita vontade de ser
editor. Então uniu a fome com a vontade de comer e viu na revista uma
oportunidade interessante o suficiente para gastar várias horas do seu dia sem
que isso fosse um esforço sobre-humano.

Outro ponto importante é a adaptação. Adaptar consiste em verificar o que não
está dando certo e corrigir, ou mesmo aprimorar um plano que ainda não está
funcionando como esperado. Na história acima, a revista do Sir Branson não
estava mais dando tão certo. Então ele resolveu adaptar-se a realidade de
mercado. A escolha dele foi criar o modelo de venda de LPs pelo correio e
testá-lo na prática, usando a revista como veículo de divulgação (ele colocou
anúncios na revista para o seu novo negócio de LPs). Note que o objetivo dele
não era recuperar a revista, mas sim encontrar algo que para ele fizesse
sentido. Se o objetivo fosse recuperar a revista, ele teria seguido em outra
direção.

Além disso, é necessário desistir quando preciso. E isso é muito difícil de se
fazer em alguns casos, dado o apego emocional que temos com o produto, o
negócio ou até mesmo uma funcionalidade que criamos do zero. Mas às vezes é
necessário abortar a missão. E foi isso que o nosso amigo Branson fez quando
viu que sua revista não estava mais dando certo. Ele terminou a revista e
investiu seu tempo em algo que ele acreditava ser mais alinhado com sua
estratégia pessoal. Aqui é importante frisar que ele de fato colocou sua ideia
- a revista - em prática e viu que depois de um tempo ela não funcionava mais.
O que reforça a ideia de que devemos sim colocar as ideias em prática e ver se
elas de fato engrenam ou não.

Mas mais do que saber identificar quando uma ideia não está dando certo, é
preciso saber quando ela de fato emplaca e dar o devido foco. Quando seus aprendizados
confirmam uma hipótese, dobre o esforço nela e veja os resultados. No caso de
Richard Branson, o seu negócio de venda de LPs pelo correio foi um sucesso.
Então ele investiu mais forte abrindo uma loja física em Londres. A loja deu
certo, então ele abriu mais uma em Liverpool. E daí pra frente foi só sucesso.
O que vale salientar aqui é que, no campo da inovação, uma análise profunda não
vai levá-lo a lugar algum. O que de fato faz a diferença é a aprendizagem
iterativa que se consegue ao longo do processo. Aprendizagem essa que só se
obtém tendo uma ideia, falhando, tentando novamente e vendo ela dar certo.

Para finalizar: uma boa forma de verificar se seus objetivos estão de fato
sendo atingidos é fazendo uma retrospectiva. Essa prática é bem simples porém
bastante efetiva quando levada a sério. Existem vários tipos de retrospectiva,
mas o mais clássico tem apenas três perguntas: o que funcionou, o que não
funcionou e quais as perguntas que devem ser respondidas. Um livro muito bom
sobre este assunto é o Fun Retrospectives, escrito por Paulo Caroli e
Tainã Caetano, que contém diferentes tipos de retrospectivas para diferentes
situações.

E você? Já descobriu o que funciona
e quais as hipóteses a serem testadas daqui pra frente?

 

(*) Gabriel Notari é Gerente Geral do escritório da ThoughtWorks  de Porto Alegre