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Bem-vindo à Revolução dos Robôs
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Bem-vindo à Revolução dos Robôs

Temos que correr para não perdermos mais um trem!

Cezar Taurion *

26/07/2018 às 15h13

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Foto:

Li com muita atenção o relatório “Devemos
temer a revolução dos robôs? (a resposta correta é sim)
, publicado pelo FMI. Ele coloca
em debate a questão do impacto da IA e da robotização na sociedade. Não existem
respostas prontas e temos claramente dois extremos, um extremo pessimista, onde
a IA causaria desemprego, criando distorções econômicas, sendo “boa para o
crescimento e ruim para desigualdade”, e um outro extremo, otimista, que embora
concorde com um impacto nos empregos no curto prazo, acredita que surgiriam inúmeras outras oportunidades, com o tempo. Eventualmente, as máquinas poderiam
fazer todas as tarefas e os humanos viveriam no lazer, como nos mostrou a
animação da Pixar, Wall.E. Em tempo:  Wall.E significa Waste Allocation Load
Lifter Earth-class.

Muitos analistas da indústria e economistas argumentam que,
como as mudanças tecnológicas do passado, a atual Revolução digital fundamentada em IA não criará desemprego em larga escala, pois o trabalho será realocado, mais cedo ou mais tarde. De acordo com esta argumentação, mesmo que a
robótica tenha começado a deslocar um grande número de trabalhadores, os empregos
que são dependentes de características humanas como criatividade, inteligência
emocional e habilidades sociais (incluindo ensino, orientação, enfermagem e
assistência social, por exemplo) podem se tornar mais numerosos.

Tenho outro ponto de vista sobre as implicações do emprego
intensivo da IA. No meu entender, o potencial de disrupção simultânea e rápida,
juntamente com a amplitude de funções humanas que IA pode replicar, com mais
rapidez e eficiência, pode sim, ter profundas implicações para o mercado de
trabalho. Os executivos das empresas, os gestores públicos e a academia devem
considerar seriamente a possibilidade de milhões de pessoas no mundo todo (incluindo o Brasil!) estarem em risco de desemprego, caso essas tecnologias sejam
amplamente adotadas.

Não creio que a revolução da IA e da robótica irá
replicar o passado, simplesmente porque a rápida adoção em massa dessas
tecnologias pode, eventualmente, destruir muitas indústrias quase
simultaneamente, sem dar tempo de recuperação à economia e à sociedade em
geral. Os avanços da robótica podem ser tais que, de repente, a maioria, senão
todas as funções humanas básicas envolvidas no trabalho manual poderiam ser
realizadas de forma mais eficaz e mais barata por máquinas, com a vantagem
destas máquinas serem capazes de trabalhar continuamente com um custo marginal mínimo.

O que diferencia fundamentalmente a Revolução Digital
impulsionada pela IA e pela robótica das revoluções anteriores é a sua velocidade e a sua amplitude.
Na revolução industrial, o ritmo de adoção de novas tecnologias foi muito mais
lento. Por exemplo, as ferrovias substituíram o cavalo como meio de transporte,
com as consequentes perdas de emprego para os cocheiros, os ferreiros e os
fabricantes de carruagens. Mas, sua disseminação foi lenta, levando várias
décadas para ganhar tração, em parte devido às volumosas quantidades de
investimento necessário em instalações, maquinário e infraestrutura. Assim,
houve tempo suficiente para as economias se adaptarem, evitando desemprego em massa. Os automóveis, aviões e os computadores, por sua vez,
criaram novas funções. Algumas já desapareceram com a evolução tecnológica,
como os navegadores e engenheiros de voo nas aeronaves. Outras, como motoristas, estão em risco de extinção com a adoção dos veículos autônomos.

As tecnologias digitais se disseminam exponencialmente e não
linearmente, como as das revoluções anteriores. Quanto mais rápido surgirem as
novas ondas de tecnologia e quanto mais baratas elas forem para serem
implementadas, mais ampla será sua difusão, e mais rápida e profunda será a
taxa de perda de emprego, com menos tempo de adaptação para as economias. Muitas
vezes essas tecnologias passam despercebidas, pois uma tecnologia que evolui
exponencialmente, em seu início, confunde-se com uma evolução linear. Mesmo
dobrando a períodos curtos, quando começa, representa pouco.  Quando têm participação de mercado de 0,1%, 0,2%, 0,4%..., nem aparecem
nas estatísticas. Mesmo quando começam a chamar atenção, com 1%, 2%, 4%, ainda
são vistas de forma simplista, como “menos de 10% do mercado, levando tempo
para ser uma tecnologia disseminada”. Aí é que temos o engano. Pensamos
linearmente. E somos atropelados pela exponencialidade. De 10% vai para 20% e, em pouco tempo,  tem 60% a 80% do mercado.

robos

Não tenho dúvidas que o forte impacto da IA na
sociedade, nas empresas e nas profissões é um assunto de extrema importância. O
Fórum Econômico Mundial publicou, em 2016, um relatório instigante, intitulado
The Future of Jobs:
Employment, Skills and Workforce Strategy for the Fourth Industrial
Revolution”,
analisando os impactos da evolução tecnológica, onde a
IA tem papel fundamental no cenário futuro. O relatório lembra que provavelmente
65% das crianças que estão nas escolas primárias hoje estarão trabalhando em
funções completamente novas, que simplesmente ainda não existem. Sobre o
Brasil, o relatório aponta algumas barreiras desafiadoras como a ainda grande
incompreensão das disrupções que já estão surgindo (55% dos entrevistados), a
falta de alinhamento da estratégia da força de trabalho das empresas (e, claro
dos órgãos públicos) com as inovações disruptivas (48%), e devido à crise
econômica, a pressão dos acionistas pela rentabilidade de curto prazo (48%).

Aqui no Brasil a revolução da IA apresenta um grande desafio.
O país tem baixa produtividade e uma educação deficiente, o que pode acarretar
um grande atraso em relação às economias mais produtivas. O nosso
baixo nível educacional, por sua vez, dificulta a adaptação dos trabalhadores à
nova realidade impulsionada pela IA e pela robotização. Um requisito para
acompanharmos a revolução da IA é a capacidade da força de trabalho em se
manter atualizada e, portanto, se adequar às novas tarefas, carreiras e
profissões. Muitas profissões existentes hoje deixarão de existir. A profissão
de motorista, por exemplo, não será uma que sobreviverá muito mais que umas
duas décadas. Sabemos que novas funções serão criadas, mas no período de
transição, será que os motoristas de caminhão, ônibus, táxis e Uber poderão
migrar para outras funções, que provavelmente demandarão skills diferentes das
que eles adquiriram na sua vida profissional?

Sem dúvidas, teremos uma mudança significativa na relação
pessoas-máquinas e isso vai se refletir nas funções, academia e relações
trabalhistas. Recomendo a leitura de um estudo “The
Future of Work: Jobs and skills in 2030”,
publicado em 2014 no
Reino Unido, que tem um contexto diferente do brasileiro, mas que pode nos
indicar alguns caminhos. Um outro estudo, este da McKinsey, mostra claramente
que o uso da IA vai demandar habilidades que
deixamos de lado com a sociedade industrial. Ficamos muito focados em
especializações operacionais e menosprezamos habilidades cognitivas como
empatia, sociabilidade e criação. Vale a pena ler “Skill
shift: Automation and the future of the workforce”.

Aliás, IA e seus impactos na economia são alvo de intensos
estudos por parte de governos, como o publicado em 2016 pela Casa Branca, nos
EUA, intitulado “Preparing
for the Future of Artificial Intelligence”
, que em suas conclusões, faz 23
recomendações, onde logo a primeira destaca “private and public institutions
are encouraged to examine whether and how they can responsibly leverage AI and
machine learning in ways that will benefit society
”. Posteriormente, o governo americano publicou outro documento, “Artificial
Intelligence, Automation, and the Economy
”, que discute os impactos
da IA na economia e mercado de trabalho, sugerindo uma série de medidas para
que o país esteja preparado para a nova era da cognificação. Propõe três
estratégias básicas, que são a) investimento em pesquisa e formação de talentos
em IA; b) educação e formação de pessoas para os trabalhos e profissões do
futuro, que ainda serão criados; e, essencial, c) como resolver o problema da
transição do atual mercado de trabalho para um cenário AI-driven, com a
automação executando grande parte das atividades que rotineiramente são feitas
por pessoas.  

Mais recentemente, o Reino
Unido publicou um estudo patrocinado pela House of Lords, que também inclui a
Coroa britânica (rei ou rainha) e a Câmara dos Comuns), chamado “AI
in the UK: ready, willing and able?”,
com uma análise do
posicionamento atual e futuro do Reino Unido quanto à IA. Em complemento a este
material, foi publicado um extenso documento de mais de 1500 páginas, “Select
Committee on Artificial Intelligence : Collated Written Evidence Volume
” ,
que contém o material que serviu de fundamentação para o relatório final.

O que fazer ainda gera muitos debates. Existem proponentes
de uma renda mínima universal, através de tributação de uso de robôs pelas
empresas, para eventualmente desacelerar o ritmo de automação e financiar
outros tipos de emprego. Esta proposta foi dita por Bill Gates e sua ideia está
em “The
robot that takes your job should pay taxes, says Bill Gates
”, mas
pode levar a inibir a eficiência produtiva. A proteção artificial de empregos
pode distorcer a economia. Pode até funcionar no curto prazo, mas
inevitavelmente leva a sacrificar a eficiência e perda de competitividade,
prejudicando toda a sociedade.

A resposta a este desafio tem que vir da educação. É
absolutamente imperioso que os trabalhadores sejam preparados para esta nova Era Digital, onde máquinas e humanos trabalharão em conjunto. O nosso nível
educacional precisa urgentemente ser melhorado, condição essencial para que uma
economia seja produtiva e se insira de forma adequada na revolução da IA e robótica.

O impacto da IA na transformação da sociedade precisa começar
a ser compreendido. Uma dose mínima de inteligência aplicada a um processo ou a
objetos vai elevar a eficácia de qualquer sistema a outro patamar.  Uma leitura atenta ao estudo “Artificial
Intelligence and Life in 2030
” nos mostra as imensas possibilidades
que a IA nos oferece. Mas caso não estejamos adequadamente preparados,
estas oportunidades se transformarão em ameaças.

Infelizmente, aqui no Brasil as discussões sobre o efeito da
IA e seus impactos continuam muito distantes. Nada se ouve sobre o assunto
pelos legisladores e gestores públicos, pouco se faz nas empresas (mas, fala-se
muito!), e em grande parcela da academia o assunto está restrito a poucos
pesquisadores de ciência da computação. Sim, no Brasil estamos bem atrasados...
Temos que correr para não perdermos mais um trem! No ritmo que estamos,
corremos um imenso risco de ficarmos assistirmos à revolução da IA acontecendo
lá fora e nós fiquemos ainda mais distantes dos países mais produtivos.

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