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Startups não vão resolver seus problemas de inovação de imediato

O empreendedorismo tem que ser integrado ao DNA da organização

Cezar Taurion *

16/09/2018 às 18h27

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Foto:

Já há alguns anos estou envolvido com o ecossistema de startup. Nesta jornada aprendi um pouco sobre alguns de seus atores: de um
lado as próprias startups, e do outro as corporações, que buscam se aproximar delas, através
de programas de corporate ventures.

Pelo lado das corporações, observei algumas
iniciativas bem-sucedidas, mas que pecaram, em sua maioria, pelo fato de buscarem startups
como se elas fossem resolver seus problemas de inovação de imediato. Já tive
reuniões com executivos de empresas que simplesmente me pediram uma lista de
startups para que elas fizessem apresentações para a diretoria. Via claramente
que eles não tinham ideia do que buscar nas startups. 

Também virou moda de visitar
o Vale do Silício, que me parece muito com visitas ao zoológico. Algumas
empresas até abrem um laboratório lá.  Você
coloca uma pequena equipe no Vale e fica esperando pelo milagre das inovações. Infelizmente,
nenhuma empresa aprende a inovar por osmose. Os erros fundamentais nessa
estratégia são achar que a inovação pode ser delegada a terceiros e que ela
pode ser criada em um ambiente fora da empresa. Não acontece assim. O
empreendedorismo tem que ser integrado ao DNA da organização.

Corporate venture também não é sinônimo de sucesso. Muitas iniciativas de corporate venture naufragam por uma
razão simples:  uma ou duas startups com
uma dúzia de pessoas não muda o DNA de uma empresa de milhares de funcionários. Todas
as vezes que uma corporação se aproxima de uma startup e a adquire para assimilar
a sua cultura de inovação, vemos que acontece exatamente o contrário, com a
startup absorvendo a cultura da empresa. Colocar uma startup dentro de uma
grande corporação, é como colocá-la em um terreno árido e hostil, e não tem
como ela florescer ali. Ela simplesmente vai morrer.

 A cultura organizacional
das grandes empresas não combina com o jeito de ser de uma startup. A maioria
dos programas de corporate ventures que conheço não traz inovação para dentro
das empresas e acaba destruindo o que há de mais essencial na cultura ágil e
inovadora das startups.

Outra coisa que me incomoda muito são os hackathons feitos
sem uma estratégia para o “day after”. Criar um hackathon onde os participantes
são jogados em um vácuo, sem conhecimento do contexto dos problemas a serem
enfrentados, tem 99% de probabilidade de ser um desperdício de tempo e de dinheiro. Além disso, se ele for muito restrito e burocrático, vai inibir a
inovação. Um cuidado adicional é não o tornar um simples evento social, onde
pizza e lugares exóticos são a atração principal. Um hackathon “festivo” não
vai gerar muita coisa válida...a não ser boas recordações para quem participar
da festa!

E quanto às startups?
Existe uma crença que a startup tem a
obrigação de vir com uma ideia disruptiva, criar um negócio novo capaz de eliminar algumas empresas estabelecidas e se tornar um unicórnio em pouco anos.
Claro, ser o próximo Google ou Amazon é o sonho de qualquer empreendedor. Mas,
esqueça a literatura sobre as startups do Vale do Silício. A realidade brasileira é mais dura. 

As diferenças entre
o Vale e o Brasil são gigantescas. No Vale o custo de capital é muito menor,
tem muito mais dinheiro circulando e existe muito mais disposição a correr
riscos por parte de investidores do que aqui. Além disso, o mercado americano é
extremante competitivo, o que praticamente força os investidores a procurarem
modelos de negócios disruptivos. 

Em vez de buscar algo disruptivo, um modelo de negócios revolucionário, porque não encontrar soluções práticas que resolvam os grandes problemas de ineficiências estruturais que existem no país? No Brasil, as ineficiências estruturais que encontramos em todos os setores da economia permitem a criação de startups que solucionem estes problemas, de maneira simples, mas causando grande impacto, sem necessidade de aplicação de tecnologias sofisticadas.

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Felizmente, estamos vivendo um momento de amadurecimento. As fábulas
de startups unicórnios pipocando aqui e ali, que venderam livros e geraram
empreendedores de palco, estão sendo substituídas pela realidade. A taxa de
mortalidade de startups permanece maior do que qualquer outra atividade
econômica. Segundo pesquisa da Startup Farm, 74% fecham após cinco anos e 18%
antes mesmo de completar dois anos. 

Em outra pesquisa, realizada em 2016 pela
consultoria de dados Parallaxis, 72% das startups brasileiras faturam até R$ 50
mil por ano, sendo que apenas 6% destas têm faturamento de R$ 500 mil ou mais. Estes
dados mostram que a maioria dos fundadores de startups toca seus negócios como um
trabalho que apenas paga as contas, muito distante do sonho de ser um unicórnio.

Sim, empreender não é fácil. E aqui no Brasil, mais difícil
ainda. Não temos um cenário propício à inovação, temos um aparato de impostos,
e um ambiente regulatório e burocrático que é um dos piores do mundo, além de
uma cultura que tende a punir fracassos e consequentemente altamente
desestimuladora. O medo de falhar é um dos principais empecilhos para criar um
negócio. Diversos estudos já comprovaram que extensa burocracia e leis
trabalhistas rígidas, em mercados excessivamente regulados, tem efeito negativo
no espírito empreendedor, por que punem os que querem tentar.

Por certo devemos tentar e nessa tentativa provavelmente vamos
errar.  O que podemos fazer para
minimizar os erros? 

Bem, se soubermos onde estamos, quem nós somos e para onde
queremos ir, com certeza já ajuda! 

Um bom mapa para posicionar uma startup e
ajudá-la a seguir seu caminho é o livro “The Startup J Curve” de Howard Love.
Ele ajuda identificar onde uma startup se encontra e que ações seriam mais
adequadas em cada etapa de sua jornada. Eu uso as ideias propostas por ele em
minhas análises de startups e tem me ajudado bastante. Fica a dica.

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Fonte da imagem: https://medium.com/@BookVideoClub/the-start-up-j-curve-by-howard-love-2a19b6bdff0c

Mas, o que mais observei nas andanças pelo mundo das
startups? 
Muitas vezes, em bate-papos com empreendedores, descobria que eles só tinham uma ideia, mas achavan que ela, por si, criaria um unicórnio. Por
mais legal que a ideia seja, ela valerá, no máximo, uns 5% do valor do negócio.
Os outros 95% são fruto de muito suor, da capacidade de executar a ideia. 

Uma
ideia sem realização é como você estar em um bote no meio do oceano e descobrir
que no fundo do mar, a dez mil metros de profundidade, existe um tesouro
bilionário. Se você não tiver capacidade e tecnologia para chegar lá, o tesouro
vai continuar inacessível. A ideia, é, na prática, uma simples hipótese que
você imagina sobre alguma coisa. Ela tem que se provar verdadeira para ter
valor. 

Para dar certo, uma startup tem que oferecer um produto ou serviço que
resolva um problema. Uma startup é uma bactéria que vive e prolifera no
problema. Sem um problema real para resolver não existe a razão de ser da
startup. E como achar um problema real? Novamente, voltemos ao início de nosso
texto: olhemos os gargalos provocados pelas ineficiências estruturais de nossa
economia. A reposta provavelmente estará aí.

Claro, da ideia à realização existe uma imensa distância que
vai demandar muito suor e lágrimas. Supondo que a startup consiga sobreviver e
florescer, há ainda outro desafio: escalar um negócio exigirá uma outra
maneira de fazer as coisas. 

O importante é saber o momento certo de escalar. Se for
prematuro, vai certamente levar a startup para o buraco. Se for procrastinado,
outro competidor pode ocupar seu espaço. Acredite, sua ideia não é a única!
Escale apenas quando você já tiver acertado o produto ou serviço, e refinado o
seu business model.

A fase de crescimento é muito estressante. Impõe muitas
pressões à equipe, e demanda processos, talentos e capital que você não tinha
antes. É um novo cenário. Por exemplo, talentos: quando no início você consegue fazer tudo, quando a startup escala, a demanda por pessoas especializadas em diversas áreas passa a ser requisito básico. Uma startup em early stage tem
poucas pessoas além dos fundadores e cada um tem vários chapéus. Ao escalar, vai precisar de gente que conheça bem marketing, recrutamento e políticas
de talentos, jurídico, finanças, gestão, etc. Um fundador que é ao mesmo tempo
o CEO, CMO, CFO dos tempos pioneiros não dará mais conta. Também alguns
profissionais terão que ser trocados, caso não se adaptem ao novo ritmo. Você
já é uma empresa, com seus bônus e ônus. Marketing e divulgação passam a ter
enorme importância. Recrutar e gerenciar talentos torna-se essencial.

Mas, vamos olhar mais
pelo lado positivo. Esta mentalidade empreendedora que está florescendo no país
é altamente benéfica. Que bom que o Brasil, apesar da crise, tem o maior
ecossistema de startups da América Latina. Temos que nos esforçar para ampliar
esse ecossistema, pois ele tem potencial de ajudar o país a crescer em termos
econômicos. Uma forte cultura de empreendedorismo é essencial ao crescimento de
um país.

A questão é como criar um ambiente propício para o
surgimento das startups. Creio que a resposta vem de conseguirmos fazer com que
o ecossistema se desenvolva. Para isso, é essencial compreender que o sucesso
de um ecossistema depende de variáveis como talentos, densidade, cultura de
inovação, capital e ambiente regulatório. Analisando estas variáveis vemos que
não é simplesmente colocando Vale no nome de um hub que ele será
automaticamente uma réplica do vale do Silício. A imensa diferença entre o
volume de capital disponível, a disposição para correr riscos por parte de
investidores e o nosso ambiente regulatório burocrático e hostil, mostram que
somos muitos diferentes. 

Para termos sucesso, 
precisamos formar hubs de startups locais, focado em fundadores, sem
depender tanto de investidores ou aceleradoras. É preciso contar com pessoas
comprometidas e dispostas a realizar o trabalho duro. E, principalmente,
esquecer o sonho de ser unicórnio e buscar resolver problemas reais. O Brasil,
com suas imensas ineficiências estruturais, está cheio deles, todos em busca de
soluções. As grandes empresas não estão conseguindo resolvê-los. Por que não
ser a vez das startups?

 

(*) Cezar Taurion é partner da Kick Ventures e presidente do i2a2, Instituto de Inteligência Artificial Aplicada

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