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Quatro premissas para o bom uso do Blockchain

Compreender claramente os incentivos e os fatores econômicos por trás de cada opção de Blockchain pode poupar muitos problemas futuros, de escolhas erradas

Cezar Taurion *

02/01/2017 às 11h25

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Foto:

Antes só havia Bitcoin...uma moeda virtual, libertária, que
prometia acabar com o atual sistema financeiro. Começou meio escondida,
circulando apenas no meio nerd (a primeira compra de Bitcoin conhecida ocorreu
em 2010, quando o hacker Laszlo Hanyecz comprou duas pizzas no Papa John's com
10.000 Bitcoins), até que por volta de 2015 os bancos a descobriram. Mas, ao
estudar o Bitcoin, viu-se que havia algo muito maior por trás dele, a
tecnologia Blockchain. Os bancos, que antes olhavam Bitcoin com desconfiança
viram uma oportunidade de redução de custos, uma vez que Blockchain permite
transações financeiras sem intermediários para validá-las.

Um dos usos propostos pelos bancos para Blockchain é a compensação e a liquidação de transações de
valores mobiliários, atualmente uma complexa rede de corretores, bancos
de custódia, agentes transferidores de ações, reguladores e depositários. Uma
única transferência pode demandar uma dúzia de transações intermediárias e levar
até três dias. E 20% delas, mais ou menos, geram erros que devem ser corrigidos
manualmente.

Com Blockchain, duas partes que querem transacionar podem ler e
gravar em um banco de dados comum, confiável e sem erros. A transação pode ser
escrita em linguagem jurídica, bem como em código de computador (smart
contract), de modo que a troca de dados em si embute a sua própria garantia. Pode
ser visível apenas para os reguladores, mas não para outras instituições. Aliás,
este é o conceito por trás do Corda, um protocolo Blockchain desenvolvido pelo
consórcio R3 CEV. Se propõe a eliminar erros bilaterais e se pretende que seja
mais barato do que modernizar os atuais sistemas legados.

Alguns bancos centrai,s como o da China e o da Inglaterra, enxergam Blockchain como um mecanismo não apenas para simplificar e reduzir os custos
das operações financeiras, mas também reduzir fraudes e rastrear transações.

Mas, isso não é tudo. No
estudo “The
future of financial infrastructure: An ambitious look at how blockchain can
reshape financial services
”, o Fórum Econômico Mundial aponta que, indiscutivelmente, Blockchain já
está nos corações e mentes do sistema financeiro. O estudo mostra alguns
números instigantes, como  o de que pelo menos 80% dos bancos mundiais devem iniciar
algum projeto de experimentação de Blockchain em 2017 e mais de 90 bancos
centrais já estão envolvidos em debates sobre a tecnologia e seus impactos.

Mas a
importância do estudo é que ele não fica restrito aos limites dos processos
tradicionais dos bancos, tentando aplicar Blockchain a eles, visando apenas
simplificar as operações, mas adota uma visão bottom-up, ou seja, questiona a
ortodoxia do sistema atual e reimagina como poderia ser o sistema financeiro
baseado em Blockchain.

Claro que ainda existe um longo caminho a percorrer. Temos
ainda um conjunto de tecnologias que precisa amadurecer, dificuldades dos
bancos em integrar bBlockchain a muitos dos atuais sistemas legados, a falta de
capacitação nas suas equipes, a carência de formação na academia e a falta de
uma regulação que entenda e absorva o poder disruptivo  da tecnologia e por aí vai.

Imaginemos a Internet em 1997. Alguém, naquela época a
imaginaria como hoje, com tecnologias como o smartphone permitindo que ela estivesse
no nosso bolso e fizéssemos praticamente tudo, de uma transação financeira a um
check-in de voo, da busca de um melhor trajeto a localizar qualquer informação que
esteja disponível em qualquer lugar do mundo?

Blockchain não será, é claro, a única solução para os
bancos. Muita coisa continuará fora dele. Mas, os bancos depois do Blockchain
serão diferentes.

Vamos olhar o cenário atual. Os sistemas core dos bancos, os
legados, são sistemas robustos, construídos para serem confiáveis e, portanto,
muito reativos a inovações. Um sistema legado é um campo árido e inóspito para
inovações.  Existem processos e mais
processos em torno deles, criando uma camada segura, mas indiscutivelmente muito
complexa e custosa, além, é claro, de pouco amigável para os clientes. Muitas
das iniciativas de banco digital dos bancos atuais são restritas à periferia,
mantendo toda a complexidade atual por trás do app que o usuário tem no seu
smartphone. Mas, e se Blockchain puder mudar o processo? Se permitir
uma transação financeira de forma segura sem envolver tantos intermediários e camadas de
segurança? Os processos core podem ser simplificados e até substituídos por
novos. Isso seria uma verdadeira mudança no perfil e estrutura organizacional dos
atuais bancos. Permitiria serem muito mais leves, sem o imenso e caro
back-office necessário para manterem suas operações atuais.

Uma mudança radical nesses processos embute um potencial de
transformação muito grande.  Por exemplo,
os bancos utilizam mainframes para garantir um ambiente seguro e de alto volume
de transações. Fundamental no atual modelo. Mas, se sairmos do modelo
centralizado para o descentralizado, onde o processamento das transações
ocorreria em milhares de máquinas distribuídas, o papel do mainframe atual perderia 
relevância. Aliás, uma implementação do Blockchain, a Ethereum, já pode ser
considerado o “novo
mainframe
”.

nosblockchain

Para além do bancos
Além dos bancos, Blockchain pode afetar muitos outros
negócios. Por exemplo, a leitura do artigo “Wal-Mart
Tackles Food Safety With Trial of Blockchain
” mostra que até o varejo pode
aplicar essa tecnologia. No caso do Wal-Mart a proposta é a necessidade de
rastrear alimentos. O objetivo é que a embalagem de cada produto contenha um
código único, registrado via Blockchain, com informações sobre fornecedores e
detalhes sobre sua produção. Esse código ficará registrado na nota física e,
caso o consumidor tenha algum problema ocasionado por aquele produto, o
Wal-Mart conseguirá rapidamente identificar tudo sobre ele.

Com este potencial de aplicabilidade, é recomendado que os
executivos das organizações, sejam de finanças ou de outros setores, comecem
realmente a pensar mais seriamente em Blockchain.

Questione:

1) Que aspectos da minha organização será
vulnerável a desintermediação e qual a probabilidade de isso acontecer? Lembre-se
que a tecnologia é potencialmente disruptiva para todos os intermediários. A
probabilidade de disrupção é proporcional ao custo, à complexidade e ao grau de
duplicação das transações no atual sistema de intermediação.

2) Como reimaginar meu negócio à luz do potencial
de mudanças provocadas pela desintermediação e como e quando iniciar a mudança,
antes que alguém a faça antes?

3) Onde poderei aplicar blockchain como vantagem competitiva
e com ele oferecer novos serviços e até novos modelos de negócio?

4)  Faz sentido desenvolver iniciativas de blockchain
sozinho ou será necessário o desenvolvimento colaborativo, em larga escala? Com
quem deverei colaborar e como criar esses mecanismos de colaboração?

Algumas premissas devem definir as estratégias de aplicação
de Blockchain pelas organizações. 
Primeiro, Blockchain é muito mais sobre colaboração do que competição.
Implementar Blockchain sozinho dificilmente será compensador. Setores fragmentados,
com desconfianças mútuas e custos altos de transação entre si, são alvos
preferenciais de aplicação da tecnologia. Um exemplo: o setor de healthcare.

Por
outro lado, quanto maior a extensão de um Blockchain e quanto mais heterogêneos
forem os seus participantes, mais complexo será o desafio de definir uma
estratégia comum. Em Blockchains “consorciados”, o gerenciamento do consórcio
entre membros, que atualmente competem entre si, será um fator crítico.

Segundo, e uma questão ainda em aberto, é se o futuro será dos Blockchains abertos ou dos consorciados. Mais ou menos como a discussão sobre
clouds públicas e privadas. Blockchains abertos tem a vantagem da escala (mais
nós, mais validação), mas os “permissioned” dispensam determinadas
funcionalidades como “proof-of-work” e, portanto, tem escalabilidade melhor.

Uma terceira premissa é o papel do governo, como agente
regulador. Não temos ainda posições claramente definidas em nenhum governo do
mundo. Alguns são mais abertos e ágeis, enquanto outros são mais lentos e
conservadores. Entretanto, como blockchain facilita auditoria e reduz fraudes e
corrupção, é provável que haja uma tendência da maioria dos governos em
entender e inserir a tecnologia em seu aparato regulatório.

E, por último, a incerteza ainda predomina. Existem muitas
experimentações, muitos indicadores da aplicabilidade de Blockchain, mas ainda
não temos casos de uso concretos, em larga escala.

Existem diversas
implementações de Blockchain, todas cercadas de dúvidas em relação ao seu
futuro.

Portanto, na sua estratégia não se esqueça de perguntar "Quem paga
pelo Blockchain?". Sua implementação é suportada por um ecossistema
estável e apto para aplicações de missão crítica? Compreender claramente os
incentivos e os fatores econômicos por trás de cada opção de Blockchain pode
poupar muitos problemas futuros, de escolhas erradas.

Cada empresa deve definir sua estratégia. Não existe uma
resposta única. Mas, ignorar o assunto Blockchain é a única estratégia que não
dará certo! Em 2017, nós da Kick Ventures estaremos corealizando um evento executivo para discutir esse
assunto. O tema, pela sua importância e potencial de disrupção, deve estar na
agenda executiva dos C-level das empresas.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures
 e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open
Source, Cloud Computing e Big Data

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