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Os sistemas legados dos bancos são importantes, mas são suficientes?

Uma rápida discussão sobre passado, presente e futuro da inovação no setor, que vive o "Paradoxo do Pavão"

Carlos Cruz *

22/03/2019 às 7h05

Foto: Shutterstock

Ao longo dos anos, os bancos estruturaram seus sistemas legados para garantir a continuidade dos negócios. Porém, agora a transformação digital colocou as instituições financeiras tradicionais em uma armadilha. Ao mesmo tempo trouxe uma janela de oportunidades, obrigando os bancos a repensarem suas estratégias de modernização e inovação de forma dramática e isso pode representar a diferença entre ganhar ou perder em cada linha de negócio.

Se você é cliente de um banco e utiliza o internet banking ou mobile banking certamente já se deparou com alguma mensagem do tipo: “Sorry, Internet Banking is currently unavailable, please try again later”. Ou se você tentou utilizar um dos canais digitais para contratar um produto ou serviço disponível nos meios físicos (agências) e não encontrou nos canais digitais, isso pode significar que seu banco não conseguiu equalizar as inovações em suas plataformas.

A modernização dos sistemas legados ou originadores é necessária para suportar as necessidades geradas pela transformação digital e as mudanças radicais de comportamento e expectativas do cliente.
As mudanças e as inovações surgem primeiro nos canais e os sistemas legados não estão prontos para se conectar às promessas do novo mundo.

O comportamento e as expectativas dos consumidores evoluíram na mesma medida em que vivenciam a transformação digital, interagindo com pessoas e organizações nas redes sociais, ao comprar produtos e serviços de grandes organizações e consumir conteúdos de forma ilimitada.

Os executivos dos bancos agora se esforçam para manter os antigos sistemas legados funcionando frente à todas as solicitações digitais que recebem diretamente dos canais on-line e de diversos tipos de device (omnichannel ainda é uma tendência inacabada no setor financeiro).

Um sistema legado nesse contexto é um sistema computacional ultrapassado quando comparado com as evoluções que o mundo da tecnologia e negócios vem passando e que traz necessidades novas para o mundo atual.
Mesmo com as dificuldades, os bancos utilizam o marketing de forma criativa, com comerciais na TV, internet e rádio para demonstrar que agora são modernos, que os clientes estão conectados, e que todos os produtos e serviços oferecidos podem ser consumidos a partir de qualquer canal.

O smartphone é o centro das atenções e os clientes podem realizar todas as operações sem a presença humana e utilizar a inteligência artificial (AI) para receber recomendações de melhores produtos e serviços. De fato, é a nova onda de inovações que chegou pra ficar e evoluir.

É o que podemos chamar de “Digital Bank Nirvana”?

A hiperconectividade está transformando serviços bancários, meios de pagamentos e transações (Skinner, 2018).
Momento único e singular.

Considerando a quantidade de variáveis nesse cenário de futuro presencial que conecta culturas, mudanças de comportamento e, sobretudo, uma avalanche de tecnologias novas e combinações de inovações nascem todos os dias e sem barreiras.

Porém, existe o lado distópico desse cenário.

Os bancos agora estão presos em um paradoxo que pode representar ao longo dos anos a diferença entre ganhadores e perdedores em cada uma das suas linhas de negócio.

É fato que grandes bancos usufruem de resultados financeiros enormes ao redor do mundo. Porém, agora, cada uma de suas linhas de negócios está em cheque considerando a tendência de desintermediação, desbancarização e desagregação bancária (as barreiras tecnológica caíram).

Novos competidores não são mais os bancos clássicos e triviais. Novos competitidores fazem uso livre e sem barreiras dos conceitos contidos na teoria 6Ds (Diamandis and Kotler, 2016) ou the Six Ds (Digitized, Deceptive, Disruptive, Demonetized, Dematerialized e Democratized).

Mas por que os bancos simplesmente não trocam seus sistemas antigos por sistemas novos que suportem a inovação, os novos requisitos da transformação digital e o comportamento dos clientes que agora são hiperconectados?
Poderia explorar essa questão sob diversos aspectos e contextos (econômico, político, tecnológico ou estratégico). Mas para essa discussão, a questão central aqui é que os bancos relutam em substituir os sistemas legados por causa da imensa complexidade sistêmica.

É um desafio que demanda grande esforço de análise do ponto de vista tecnológica e de negócios. As regras de operação de cada produto/serviço estão descritas nos códigos (programas) que não são uniformes e estão distribuídas em diversas camadas de sistemas interconectados.

Além disso, muitos sistemas “originadores” também possuem contratos vigentes e históricos que não devem ser perdidos ou alterados e estão conectados com a regulação bancária vigente.

É uma complexidade exponencial realizar a migração e a integração de dados entre sistemas legados diferentes e longos períodos de uso, anos de aquisições, fusões e remodelagens de negócios como parte da estratégia de cada organização, além de decifrar as camadas sistêmicas fortemente conectadas entre si.

Os bancos ainda estão presos em sua grande maioria no que se chama a primeira plataforma de negócios, que há muito tempo está obsoleta e impede o aumento da velocidade para inovar.

Figura 1: Gráfico (Transformação digital Versus Resposta organizacional)
Fonte: produção do Autor

A figura acima demonstra o paradoxo atual que os executivos da(s) grandes organizações vivenciam dia após dia. Considere o eixo (y) tendendo ao infinito, representando um mundo em transformação que cada vez mais requer sintonia fina com as mudanças de comportamento do cliente digital que não aceita regredir, os efeitos da desbancarização em amplo crescimento no mundo onde clientes podem escolher melhores produtos e serviços, modelos de atendimento customizados e mais alinhados às necessidades de cada perfil de cliente.

Basta fazer uma busca rápida na internet para verificar que agora existe uma ampla gama de bancos digitais e plataformas de investimento.

Nos últimos anos, os reguladores cada vez mais estimularam organizações na exploração de oportunidades via mudanças regulamentares para inovar por meio da tecnologia tentando responder à um dos dilemas globais “a bancarização” e o estímulo à competitividade.

Os reguladores estão se abrindo para a bancarização de populações mais carentes (um dos desafios do G20), criando oportunidades para novos competidores que geram negócios, aumentando a competitividade e melhorando a quantidade e a qualidade das ofertas para o cliente final.

Considere agora o eixo (x) que demonstra a grande dificuldade do(s) bancos tendendo ao limite da perda das oportunidades existentes nesse novo mundo em transformação.

Processos lentos, cultura organizacional, mind-set antigo, respostas erroneas e vagarosas frente aos rápidos avanços demonstrados no eixo (y), ainda com processos antiquados com diversas etapas baseadas em hierarquias e baixa eficiência.

A infraestrutura dos grandes ainda é a mesma. Ela foi originada na década de 70, com um portfólio de arquitetura de TI repletos de mainframes, terminais distribuídos e computação centralizada. O momento exige um redesenho de pensamento e um olhar para o futuro sobre infraestrutura e arquitetura de soluções frente aos cenários possíveis.
De fato, alguns estão se movendo mais rápido do que outros nesse processo.

A evolução das plataformas

Organizações devem pensar seus negócios como plataformas interativas e a discussão dos bancos agora é sobre como integrar, modernizar e extender funcionalidades e alcances do negócio por meio de plataformas digitais ou sistemas legados transformados.

Hoje, as organizações possuem oportunidades sem precedentes para conectar pessoas, empresas e atores (clientes, parceiros, fornecedores) de formas nunca antes pensada.

Mercados bilaterais, também chamado de two-sided market ou mercado de dois lados, que representa uma plataforma econômica de intermediação com dois grupos específicos e distintos que podem trocar benefícios entre si gerando valor para ambos os lados, possuem enormes oportunidades para serem exploradas do ponto de vista de geração de negócios e benefícios mútuos, apesar de ser um conceito amplamente utilizado na internet.

A velocidade das mudanças trouxe novos paradigmas e agora pessoas e organizações estão rapidamente migrando para plataformas multilaterais ou multi-sided platform (MSP), que permitem interações diretas e indiretas entre os grupos participantes (exemplo de plataforma Multi-sided platform não faltam. O Facebook, por exemplo, conecta usuários, anunciantes, desenvolvedores de jogos ou de conteúdo de terceiros e sites de terceiros afiliados).

Para uma rápida visão (não exaustiva) sobre a evolução das plataformas (1-4), abaixo um resumo:

Quadro 1: Evolução das plataformas de tecnologia
Fonte: Adaptado de creative commons “The Rise of the 4th platform: A Fabric of community, Data, Devices & Intelligence”

Desafios para a jornada de inovação

Os sistemas legados do setor financeiro datam da década de 70 e não foram concebidos para a evolução das plataformas como relatado na tabela acima.

Os bancos ainda possuem em sua maior parte sistemas compatíveis com a descrição da primeira plataforma e para inovar existem diversas barreiras (como falamos anteriormente).

Deficiências técnicas que tornam a inovação lenta demais ou impossível

De acordo com pesquisa realizada pela accenture “The Accenture Federal Digital Decoupling Survey”, as principais ameaças caso a inovação ou modernização dos sistemas legados não ocorra são:
 Incapacidade de se mover com a velocidade necessária
o A velocidade de inovação é severamente preujudicada
 Risco significativo de incidente cibernético e interrupção
o Tecnologias antigas tem risco extremamente mais alto frente às novas ameaças

Obter visão global dos requerimentos

Outro grande desafio para os times de tecnologia é avaliar de forma integrada e com certa precisão os requisitos mais alinhados considerando a visão de negócios, tecnologia, riscos ocultos, custos e complexidades causados pelo acumulo de incapacidades técnicas e funcionais em todas as camadas (Infraestrutura, estrutura de dados, arquitetura de soluções e aplicações).

Definir a melhor estratégia de execução

Definir uma estratégia de modernização que possa habilitar os sistemas legados à se conectarem com as inovações e avanços originados nos canais digitais é um exercício que exige conhecimento profundo do modelo de negócios, tecnologia e inovação.

A modernização de sistemas exige a utilização de tecnologias e metodologias modernas para criar sistemas e funções que podem ser executadas sob os sistemas antigos ou em alguns casos substituir partes inteiras.

Posso afirmar que os bancos agora mesmo possuem ao menos um projeto ou programa inteiro para revisar seus sistemas legados. Gradualmente irão modernizar funcionalidades ou integrações críticas que podem impedir a inovação ou o avanço de estratégias nascidas nos canais.

Ao longo de décadas os sistemas legados dos bancos poderiam representar vantagem competitiva, pois armazenavam os preciosos dados sobre seus clientes, operações e possibilidades de novos negócios recorrentes e agora há a emergência da modernização do setor.

O artigo “IT Doesn’t Matter”, publicado em maio de 2003 por Nicholas Carr, examina a evolução da tecnologia da informação nos negócios demonstrando que as evoluções seguem um padrão semelhante aos de tecnologias anteriores e isso abre oportunidades para que empresas com foco no futuro obtenham fortes vantagens competitivas.

As organizações financeiras vivem as pressões da transformação digital e das mudanças de comportamento do consumidor que cada vez mais enxerga no grupo GAFA (Google, Amazon, Facebook, Apple) características desejáveis ao usar sistemas digitais.

A invisibilidade é uma das tendências do setor e a eficiência bancária que depende cada vez mais da digitalização e modernização de seus negócios e plataformas agora possuem uma gama de direcionadores da mudança que vão além da redução do custo.

Macro direcionadores e pressões para mudança (não exaustivo)


Figura 2: Direcionadores da mudança Versus seleção dos componentes afetados
Fonte: produção do Autor

Principais abordagens para modernização (não exaustivo)


Quadro 2: Principais abordagens de modernização de aplicativos
Fonte: Adaptado de Gartner (2018)

O paradoxo do pavão

Em uma comparação improvável o pavão que é uma ave da família dos faisões e possuem um complexo ritual de acasalamento que depende também do uso de sua cauda extravagante para conquistar seu par amoroso, cuja calda pode chegar à dois metros (quando macho).

O pavão leva um longo período para obter uma calda grande, longa, colorida e bonita, porém muito pesada que o impede de voar e escapar de predadores.
Imagino que atualmente os bancos enfrentam o mesmo desafio... O de voar mais rápido e pra longe da concorrência.

Será que os bancos terão tempo de voar?

 

(*) Carlos Cruz é Industry Innovation Advisor da Oracle

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