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Open source no data center. Funciona?

Acompanhe cases de uso de softwares de código aberto na gestão de um data center e veja a opinião dos analistas sobre os prós e os contras

Computerworld, EUA

01/02/2008 às 18h30

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Linux, Apache e outras aplicações open source são usadas há muito tempo para acionar servidores web e de arquivos. Mas, quando se trata de gerenciar o data center, muitas empresas deram meia trava. Agora, porém, alguns usuários estão acreditando piamente que open source funciona aqui também.

“É verdade que com produtos open source os usuários, em geral, perdem a segurança de ter equipes de suporte profissional para ajudar a resolver seus problemas rapidamente”, diz Robert Wiseman, chief technology officer da Sabre Holdings, empresa de tecnologia de distribuição e marketing de viagem.

“Entretanto, no nosso ambiente, quase sempre adquirimos suporte para nossos produtos open source de fornecedores de alta qualidade. Isso, naturalmente, reduz algumas vantagens de custos de open source, mas elas são grandes o bastante para compensar, e a segurança que obtemos de um contrato de serviço nos permite dormir melhor à noite.”

A empresa usa enterprise system buses (ESB) para transformação de mensagem, encaminhamento e outras tarefas. A Sabre está implementando um ESB baseado em open source em múltiplos sistemas, incluindo seu produto Supplier Side Gateway, que é utilizado por todos os sistemas Sabre que precisam de conteúdo de fontes externas.

A companhia também utiliza software open source Subversion e Concurrent Versions System (sistemas de controle de versão), Eclipse (ambiente de desenvolvimento Java), JUnit (teste de unidade), Hibernate (mapeamento objeto/relacional para extrair serviços dos chamados de bancos de dados subjacentes) e Apache Ant, uma ferramenta baseada em Java.

A Sabre começou a empregar produtos open source há cerca de seis anos, quando a qualidade e a flexibilidade de open source começou a aumentar, principalmente em decorrência do custo mais baixo, conta Wiseman. “Mas, para nós, precisava ter baixo custo e alta qualidade,” diz, acrescentando que estabilidade e alto desempenho são os requisitos mais importantes.

Cerca de 5 mil servidores da Sabre Holdings rodam software open source e metade destes servidores está no data center da companhia em Tulsa, Okla. “Estes produtos já alcançaram um nível de maturidade igual, ou até superior, ao de seus congêneres comerciais. E eles só vão ficar mais fortes daqui para frente.”

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Os produtos open source ajudam a nivelar o campo de jogo de TI, obrigando os fornecedores comerciais a competir em termos de preço e qualidade do serviço, e não algum recurso intangível em suas ofertas proprietárias.

O código é aberto e transparente, possibilitando que os desenvolvedores localizem e solucionem problemas e aprendam de que forma outros desenvolvedores abordaram determinadas questões. Os usuários ganham a liberdade de utilizar estes produtos em suas organizações ao redor do mundo sem a preocupação comum de monitorar licenças de estações.

Onde open source é usado
Segundo James Staten, analista da Forrester Research, as empresas estão implementando open source em três áreas principais: presença na web e portais (o mais comum é o Apache, usado para gerenciamento de conteúdo, aplicações dinâmicas e uma variedade de funções de e-commerce e catálogo); a camada de bancos de dados pequenos e médios (os mais comuns são o PostgreSQL e o open source Berkeley da Oracle); e a camada de aplicação (pacotes baseados em Java rodando sobre JBox, Apache Geronimo e Zend hospedando aplicações Ajax).

É difícil encontrar estatísticas sobre o uso específico de open source no data center. Em novembro de 2007, porém, o Independent Oracle Users Group apresentou os resultados de uma pesquisa segundo a qual 13% dos 226 entrevistados estão rodando a maioria das suas aplicações em open source. Este número representou um aumento de 30% em relação ao ano anterior.

Outro sinal de crescimento do uso de open source em instalações comerciais é o anúncio de um projeto da Hewlett-Packard para ajudar grupos de TI a monitorar requisitos de licenças para os produtos e as ferramentas que utilizam. E os novos nomes no espaço de gerenciamento de rede e sistemas open source incluem GroundWorkd Open Source, Hyperic, Qlusters e Zenoss.

Para os clientes que estão pensando em adotar open source, particularmente na arena de missão crítica, a Forrester aconselha avaliar o chamado ecossistema – isto é, o pool de desenvolvedores, fóruns disponíveis, suporte pago e qualquer oferta comercial – em torno de um projeto ou produto open source específico. Assim, as empresas podem determinar se este produto tem suporte suficiente para suprir suas necessidades.

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A maioria das recomendações da Forrester para open source é muito similar às que ela faz para ofertas de start-ups comerciais. “Só porque é um open source não é, necessariamente, um risco. O acanhado ecossistema de suporte é que o torna arriscado. Se um projeto open source tem 700 desenvolvedores (e um bom ecossistema), é um risco menor do que uma start-up com 20 pessoas”, diz Staten.

Nem todos são fãs
Mas alguns especialistas continuam a recomendar prudência com open source. “Fora o preço menor, no momento os ganhos são limitados”, observa Rakesh Kumar, analista do Gartner. “Existe o argumento de que os usuários de open source ganham acesso a um conjunto de habilidades maior do que com outras plataformas”, comenta, referindo-se à idéia de que muita gente está depurando e cogitando código open source.

No geral, porém, “eles abrem mão de algo muito mais interessante”, alega Kumar. Os usuários de aplicações open source devem tomar cuidado com a segurança e pesquisar qual software de força industrial está disponível para um ambiente de missão crítica determinado.

Ferramentas fail-over, ferramentas de gerenciamento de energia e ferramentas que possibilitam gerenciamento de carga de trabalho mista “normalmente estão mais amadurecidas sobre as plataformas RISC/Unix”, diz Kumar.

A Opus Interactive, fornecedora de soluções gerenciadas, explorou projetos open source de firewall e balanceamento de carga como alternativas baratas para clientes que não querem pagar por appliances comerciais, revela Jeremy Sherwood, executivo de soluções corporativas da Opus.

“Examinamos o Packet Filter [PF] e descobrimos que rodar o PF em OpenBSD ou FreeBSD é uma opção excelente, e estamos confiantes que também é sólida e segura”, afirma Sherwood. No entanto, embora continue vendendo e suportando PF em OpenBSD e FreeBSD ativamente para seus clientes, a Opus utiliza sobretudo ferramentas open source em situações que envolvem clientes menores com budgets limitados ou em ambientes que necessitam de hardware servidor unificado ou que precisam rodar um sistema operacional específico.

Para os grandes clientes, a Opus usa appliances comerciais da Global Technology Associates, Cisco e Array Networks para firewalls e balanceadores de carga, acrescenta Sherwood. São ofertas altamente evoluídas de empresas com suporte e acesso 24/7.

Os produtos são bem documentados e, com freqüência, oferecem muito mais recursos do que seus congêneres open source, além de serem mais fáceis de suportar em todos os níveis de técnicos de suporte, explica Sherwood. Estes produtos comerciais também oferecem opções de alta disponibilidade suportadas pelos fornecedores, juntamente com garantias avançadas para substituição e hardware.

A Opus também analisou projetos open source de monitoramento e estatísticas para cobrir toda a sua infra-estrutura e soluções clientes. “Examinamos Cacti e JFFNMS. Utilizamos JFFNMS em produção há mais de um ano porque era relativamente fácil de configurar, tinha um grande número de funcionalidades, executava bem e, é claro, só nos custava a mão-de-obra para configurar e manter.”

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A empresa também experimentou o Nagios para monitoramento, mas acabou migrando para um pacote comercial da ScienceLogic chamado EM7, que lida com monitoramento, estatísticas, ticketing e muitas funções relacionadas a ITIL.

Controle: um grande benefício e uma maldição
Para Dave Gynn, diretor de ferramentas e frameworks corporativos da Optaros, empresa de consultoria e integração de sistemas, open source se encaixa perfeitamente no data center. “Software open source se sai extremamente bem em ambientes heterogêneos”, diz.

“Na verdade, existem muitas ferramentas open source para data centers, como os produtos de gerenciamento de sistemas, que incluem backup, monitoramento, controle de spam etc.”

De acordo com Gynn, os principais benefícios de open source para os usuários são a liberdade e a flexibilidade para controlar seus próprios sistemas. Isso significa que os usuários podem corrigir problemas rapidamente, determinar ciclos de upgrade, tomar decisões de implementação mais inteligentes e integrar mais facilmente seus sistemas a open source como a plataforma comum.

As empresas que usam programas open source podem personalizar o software conforme suas necessidades ao invés de forçá-lo em um produto de prateleira.
Mas a contrapartida deste aumento de controle é a maior responsabilidade da equipe da TI e dos engenheiros de sistemas.

Open source pode proporcionar “mais recursos e inovação mais rápida em comparação aos cronogramas de produtos comerciais e às melhorias típicas de produtos comerciais. Mas, se os clientes utilizam 100% open source, têm que determinar se possuem as habilidades internas e a persistência para auto-sustentar a solução no horizonte de tempo/ciclo de vida do projeto”, diz David Link, CEO e fundador da ScienceLogic. A empresa vende sistemas e appliances de gerenciamento de rede que são baseados em código proprietário.

Projetos open source estão desaparecendo?
Outra noção que pode fazer o mundo corporativo hesitar ao tentar descobrir se deve usar open source no data center é que, por vezes, um projeto open source listado em SourceForge.net ou outro lugar qualquer pode começar muito bem e depois simplesmente sair do radar.

“Alguns anos atrás, iniciamos um código promissor em um projeto open source que estava indo muito bem, o autor original era muito ativo”, conta Link. Ele promoveu atualizações consistentes, correções de bugs oportunas e inovação rápida. “Então, de repente, o autor principal simplesmente desapareceu do planeta e a comunidade envolvida no projeto não se mexeu, ou não tinha o controle, para fazer o projeto seguir em frente com força total.”

Como resultado, diz Link, os engenheiros da companhia tiveram que retirar aquele componente – uma biblioteca Python open source – e substituí-lo por outro que precisou ser modificado para funcionar com a base de código existente da ScienceLogic.

Foi uma lição cara, uma vez que a ScienceLogic teve que remover as bibliotecas antigas e integrar novas, além de repetir todos os testes para as novas bibliotecas. Consumiu cerca de seis meses de esforço humano e atrasou outros projetos importantes. “Por isso, tome muito cuidado ao escolher uma solução open source. Certifique-se de que ela tem um forte histórico de inovação consistente e entrega rápida de correções/reparos”, aconselha Link.

“É verdade que cada solução open source tem seu próprio processo para gerenciar atualizações”, reconhece Steve Brasen, analista da Enterprise Management Associates (EMA). “Mas, em geral, um painel de desenvolvedores determina periodicamente quais recursos novos, reparos e atualizações que devem ser incluídos em um patch ou release.”

Os updates, então, são disponibilizados a partir de um repositório central ou fornecedores open source como um fórum, web site ou grupo membro, acrescenta Brasen. As organizações de suporte fornecem estes updates para os usuários finais automaticamente como parte de um contrato de manutenção, e alguns fornecedores, entre eles a Red Hat, reúnem em um blundle os releases das múltiplas aplicações open source que suportam.

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As empresas que investem em um contrato de suporte normalmente acham o processo confiável e eficiente. Para quem não tem estes contratos, o processo é pesado e demanda muita mão-de-obra, compara Brasen.
Que ele saiba, ninguém está monitorando o número real de projetos open source que, supostamente, estão desaparecendo. Porém, com mais de 150 mil projetos registrados, o abandono de alguns é inevitável.

O custo do software “livre”
“Open source significa livre, como em liberdade, e não livre de custo, embora, freqüentemente, também o seja”, explica Dirk Morris, chief technology officer e fundador da Untangle, empresa de desenvolvimento open source que tem pequenas e médias empresas como clientes.

Mas, observa Morris, embora open source proporcione aos usuários flexibilidade, confiabilidade, segurança e facilidade de adoção, estes benefícios estão longe de serem gratuitos. “Esteja ciente de que os produtos open source, muitas vezes, não são uma oferta de produto completa.” Além disso, a qualidade varia muito, e os usuários têm que escolher com cuidado.

“Há sempre um custo envolvido, seja um custo de suporte para o fornecedor ou um custo interno de gerenciamento”, diz Kuma, do Gartner. Ele aconselha os clientes a examinar seus portfólios e entender que algumas aplicações são mais adequadas para open source do que outras. Existe uma tendência a rodar mais aplicações mainstream e centradas em transações sobre plataformas open source. Neste contexto, as tarefas de gerenciamento, como a virtualização, serão uma necessidade.

Kumar recomenda que os clientes determinem os requisitos de disponibilidade e gerenciabilidade de cada aplicação e, em seguida, verifiquem se a plataforma open source pode e vai funcionar com o ambiente existente. E, por fim, você deve determinar o custo do novo software open source e ter uma visão realista de qual será a diferença de custo em relação ao seu ambiente existente.

Na realidade, o custo não é o principal fator na Opus. “Muitas vezes encaramos os projetos open source como uma maneira de experimentar uma tecnologia específica e poder ver se um tipo de produto satisfaz nossas necessidades e as dos nossos clientes sem gastar dinheiro com as soluções comerciais correspondentes”, diz Sherwood. Atualmente, a Opus está de olho nos produtos open source para funcionalidade SAN, gerenciamento de rede e controle de rede.

Open source também é uma forma de resolver um problema, adicionar um novo serviço ou executar outra função qualquer que ainda não foi orçada ou “não foi comprovada como verdadeiramente útil e digna de atenção”, prossegue.

Uma vez que os projetos open source, em geral, “não avançam no ritmo dos pacotes comerciais, a empresa de Sherwood estava avaliando o aumento dos custos de desenvolvimento para acrescentar funcionalidades ou modificar pacotes a fim de satisfazer suas próprias necessidades.

Portanto, um “custo oculto” de open source é aquele no qual incorrem desenvolvedores internos ou prestadores de serviços externos para modificar um pacote open source. Em algumas situações, entretanto, “as ofertas comerciais são demasiadamente onerosas ou não possuem a funcionalidade exigida e, assim, não são um bom valor. Nestes casos, open source pode ser uma boa solução”.

Ainda assim, no futuro previsível, a maioria dos observadores acredita que open source coexistirá com pacotes proprietários no data center. “À medida que os pacotes open source se tornarem mais confiáveis e repletos de recursos, sua popularidade aumentará junto às empresas atraídas pelo custo de implementação relativamente baixo”, sentencia Brasen, da EMA. “É improvável, porém, que as soluções open source substituam totalmente os produtos comerciais.”

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