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O futuro? Será das tecnologias exponenciais como bioprinting e biossensores

Falar que no próximo ano a tendência é Cloud, Analytics e Mobilidade é voltar no tempo. Vamos olhar mais à frente...

Cezar Taurion *

11/12/2016 às 9h38

futuro2017.jpg
Foto:

Fim de ano e começamos a ler artigos e mais artigos sobre
tendências para o próximo ano. Como está claro que a transformação dos negócios
provocada pela transformação digital é inevitável e que, de alguma forma, todas
as empresas serão empresas de tecnologia (com elas, no mínimo, embarcadas em
seus produtos e serviços) vamos sair do lugar comum. Falar que no próximo ano a
tendência é Cloud, Analytics e Mobilidade é voltar no tempo. Quem ainda não
começou a jornada de usar intensamente cloud, interagir com clientes via
mobilidade, e usar dados e não apenas a intuição na sua rotina diária de
processos e decisões, já perdeu o trem. Vamos olhar mais à frente. Abordar as
tecnologias exponenciais, aquelas que tem o potencial de se disseminarem de forma
muito rápida e com impacto significativo nas empresas, modelos de negócios e na
sociedade como um todo.

Muitas vezes essas tecnologias exponenciais passam desapercebidas, pois uma tecnologia que
evolui exponencialmente, em seu início, confunde-se com uma evolução linear.
Mesmo dobrando a períodos curtos, no início, representa pouco. Por exemplo, quando
elas têm participação de mercado de 0,1%, 0,2%, 0,4%...nem aparecem nas estatísticas.
Mesmo quando começam a chamar atenção, com 1%, 2%, 4%, ainda são vistas de forma
simplista, como “menos de 10% do mercado e vai levar tempo para ser uma
tecnologia disseminada”. Aí é que temos o engano. Pensamos linearmente. E somos
atropelados pela exponencialidade. De 10% vai para 20% e em pouco tempo temos 60%
a 80% do mercado.

Um fato interessante dessas tecnologias é que muitas delas
estão na fase que o Gartner descreve em seu Hype Cycle como o “vale das
desilusões”. Alcançaram o ápice (“o pico das expectativas inflacionadas”) e por
terem sido superestimadas em sua facilidade de uso e potencial a curto prazo
caíram no vale.

Geralmente, no início, a superexposição das tecnologias na
mídia e a empolgação daí decorrente, faz com que percamos de vista o
contexto.  A desilusão é decorrência
natural. Vejamos o exemplo do PC. Antes do surgimento do IBM PC, o PC, termo que
apareceu em meados
dos anos 70
, foi uma decepção. Muito badalado, na prática era usado para
poucas coisas úteis. Quando a IBM lançou o PC, a convergência da evolução
tecnológica, como processadores Intel e softwares da Microsoft, tornou a
máquina realmente útil e sua disseminação foi muito rápida. Mas, em 1975,
poucos anos antes do IBM PC, o PC era uma simples máquina para jogar Pong. Nada
mais e dificilmente alguém imaginaria o império que a Microsoft criaria a
partir dele.

Vamos então olhar algumas tecnologias que com potencial
disruptivo, mas que ainda não chegaram a despertar o interesse da grande
maioria dos executivos de negócio. Minha lista foi baseada no livro “Bold”, de
Peter Diamandis e Stephen Kotler, da Singularity University. Recomendo sua
leitura!

Impressoras 3D
Em abril
do ano passado
escrevi sobre elas e seu impacto nas empresas. Lembro que,
na época, perguntei aos CIOs, em um importante evento, se algum deles já estava experimentando ou planejando experimentar o uso de impressoras 3D no curto prazo. Fez-se
silêncio, e, pelo menos para os ali presentes (estavam, entre outros,
executivos de setores com grande potencial de serem afetados como indústria e
varejo) esta tecnologia ainda não havia aparecido na tela dos seus radares. Na
verdade, verificou-se que nem estava nas suas “to do list” para os próximos
anos. Recentemente, a Deloitte realizou uma pesquisa no Brasil e constatamos
que muito pouca coisa avançou nesse campo. Poucos executivos conhecem e
avaliaram seu potencial e raríssimos são os que já usam ou que planejam usá-la
em breve.

A disseminação de uma tecnologia acontece quando a sua
interface de uso torna-se fácil, intuitiva e aberta a qualquer um. A Internet
explodiu em termos de utilização quando surgiu o primeiro browser, o Mosaic.
Antes eram apenas os iniciados que a usavam. Hoje, as impressoras 3D já estão
começando a serem de fácil uso. Com simples cliques desenhamos coisas que
podem ser impressas. Existem dezenas de
sites
onde podemos pegar modelos, gratuitamente, e imprimi-los em casa. Mas
além de impressão caseira, as impressoras 3D já estão abrindo caminho em
praticamente todas os setores.

Na indústria automotiva, a maioria dos fabricantes
incorpora partes 3D nos veículos já produzidos. Em 2014, a Local Motors produziu um carro
em 3D
, usando apenas 50 peças, em vez das quase 2500 da maioria dos
veículos. Olhemos à frente. Será que um carro continuará a ser produzido em
massa, nos moldes do modelo de produção criado por Henry Ford, ou a produção em
3D demandará um novo conceito de linha de produção? Na indústria aeroespacial
motores dos foguetes da SpaceX são produzidos em
3D
. Partes das turbinas da nova geração de jatos comerciais da Airbus
também são produzidos
em 3D
.

Mas, podemos ir mais longe. Em 2016, foram necessários 63
bilhões de animais terrestres para alimentar 7 bilhões de seres humanos. Os
animais ocupam um terço da massa terrestre, utilizam 8% do nosso abastecimento
de água e geram 18% de todos os gases com efeito de estufa. A
Modern Meadow,
uma empresa da Singularity University, se propõe a fazer uma
disrupção nessa indústria usando bioprinting (engenharia de tecidos e impressão
3D) para produzir couros em laboratório e, futuramente, carne (carne, frango e carne de porco).

Em 2016, a empresa com sede no Brooklyn arrecadou 40
milhões de dólares com o objetivo de se tornar a principal fonte de couro para os
fabricantes mundiais de moda e acessórios, bagagens, artigos esportivos,
estofados e móveis. Sua visão é fazer isso em larga escala e reduzir
drasticamente o impacto ambiental da carne e da produção de couro. Com a
bioimpressão de carne, poderíamos alimentar o mundo com 99% menos terra, 96%
menos água, 96% menos gases com efeito de estufa e 45% menos energia. Se isso
realmente acontecer, afetará países altamente dependentes de exportação de
carne, como o Brasil.

Vamos em frente. Cerca de 10% da população global é afetada
por doença renal crônica, com milhões de pessoas morrendo a cada ano devido à
falta de tratamento acessível. Mas, recentemente,  os cientistas do Harvard's Jennifer Lewis
Lab deram o primeiro passo para a criação de um rim artificial que, um dia,  poderá substituir os rins de doadores biológicos. E o hospital do futuro
está começando a sair da imaginação...sugiro a leitura do artigo que descreve a
visão
desse hospital, que será aberto em 2017 na Austrália.

futuro

Inteligência
Artificial

Abordei especificamente essa tecnologia nesse artigo aqui.
Sua evolução é assustadora. Depois do Watson, da IBM, ganhar o Jeopardy e o
AlphaGo, do Google, vencer partidas contra o campeão
mundial de Go, um jogo altamente complexo, agora o Hiro, da alemã Arago, conseguiu vencer 80%
dos seus concorrentes humanos em jogos
de estratégia de construção de civilizações
. Já é indiscutível o efeito que
a IA acarretará na nossa sociedade. Só não sabemos qual será sua proporção.
Stephen Hawking, o famoso físico, abordou recentemente o tema no evento de
lançamento de um instituto da Universidade de Cambridge criado para estudar o seu  efeito na sociedade. O texto é “Stephen
Hawking: AI will be 'either best or worst thing' for humanity
”.

Também devemos prestar atenção ao crescente número de
sensores que estão espalhados pelo planeta e aumentando exponencialmente. Por
exemplo, se olharmos os bilhões de smartphones e tablets, vemos que cada um
deles contém dezenas de sensores, como telas sensíveis ao toque, microfones,
acelerômetros, giroscópios, câmeras, etc. Somente a superfície das telas
sensíveis ao toque, em 2015, já somavam cerca de 36 milhões de metros
quadrados. Mas além desses dispositivos, vemos sensores ajudando a tornar os
veículos autônomos, possibilitando manutenção preditiva em turbinas, como os
mais de 250 sensores em cada turbina da GE, que monitora seu desempenho em
tempo real.

No combate à criminalidade, a ShotSpotter tem sensores acústicos que
detectam ruídos e, através de algoritmos, isolam o som de um disparo, triangulam
sua localização com precisão de cerca de três metros e direcionam a polícia
para o local. Com sensores em todos os lugares e os seus preços diminuindo
constantemente, o limitador para o uso dos sensores será apenas nossa
imaginação! Um recente estudo da Universidade de Stanford propõe que serão
demandados cerca de um
trilhão de sensores em 2023
!

Ao conectarmos esses sensores uns com os outros e a outros
sistemas, as oportunidades são imensas. Mas, chamo a atenção para um aspecto
importantíssimo: a formação de gente capacitada que permita construir e usar
essas tecnologias. Um estudo mostrou dos 100% do preço de
venda de um iPhone, 66% ficam com a Apple, 32% com os fabricantes de seus componentes (GPS e
outros sensores) e apenas 2% com as empresas que os montam. Portanto a imensa
maioria da captura de valor da cadeia está no capital intelectual e não no trabalho
de montagem, de baixo valor agregado. Educação e capacitação é um dos nossos
gargalos e se reflete no baixo uso dessas tecnologias aqui no Brasil.

Robótica
Já os vemos substituindo
jóqueis em corridas de camelos
nos Emirados Árabes Unidos e Qatar. O
impacto da robótica e da Inteligência Artificial no que entendemos hoje por
trabalho será altamente impactante. Escrevi sobre isso aqui
e recomendo também a leitura do estudo “The
Transformation of the Workplace Through Robotics, Artificial Intelligence, and
Automation: Employment and Labor Law Issues, Solutions, and the Legislative and
Regulatory Response
”. Já vemos, inclusive, aceleradoras de startups focadas
em robótica, como a Robot Launchpad.

Biologia sintética
A ideia da biologia sintética parte da premissa que o DNA é software, nada mais
que códigos de quatro letras arrumadas em ordens específicas. Como nos
computadores, o código direciona a máquina. Na biologia a ordem do código
governa os processos de fabricação e desenvolvimento das células, as instruindo
a produzir determinada proteína, por exemplo. E como todo software, o DNA pode
ser reprogramado. 

Diferente da engenharia genética, que é a inserção de
determinado gene para mudar características de uma planta ou animal, a biologia
sintética é uma reprogramação do próprio DNA. No fundo é a engenharia genética
tornando-se digital. As implicações são imensas e ainda não conseguimos
visualizar até onde chegaremos. Um exemplo instigante é o projeto Cyborg da Autodesk,
para permitir a programação biológica de modo fácil, sem necessidade de ser um
PhD para tal. Claro, aspectos legais, éticos, morais e sociais estarão em
debate. O que não podemos é ignorar as mudanças que o mundo digital vem provocando.

O mundo nos próximos anos será bem diferente do
que conhecemos hoje. Novos negócios, novas funções e profissões. Empresas
estabelecidas sumirão do mapa e apesar do ceticismo, que é comum diante do
inesperado, as mudanças chegarão. Se vamos gerar oportunidades ou sermos
atropelados, é uma decisão estratégica dos países e das empresas. Cabe a nós
mesmos decidirmos nosso futuro.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures
 e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open
Source, Cloud Computing e Big Data

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