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O departamento de TI morreu?

Novo livro de Nicholas Carr prevê que a adoção de utility computing substituirá as instalações de TI atuais. Previsões também são sombrias para os profissionais

Network World, EUA

14/01/2008 às 12h47

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O departamento de TI já morreu e a mudança para utility computing matará esta carreira corporativa. É o que prevê Nicholas Carr em seu novo livro "The Big Switch: Rewiring the World from Edison to Google".

Carr é mais conhecido por seu provocador artigo "IT Doesn’t Matter", publicado em 2003 pela Harvard Business Review, no qual afirmou que os investimentos em TI não proporcionavam vantagens estratégicas às empresas porque tão logo uma empresa adotava uma tecnologia nova, seus concorrentes faziam o mesmo.

O artigo da Harvard Business Review transformou Carr no inimigo jurado dos fabricantes de hardware e software, entre eles Microsoft, Intel e HP, bem como dos CIOs e de outros profissionais de TI. Com seu novo livro, Carr provavelmente atrairá ainda mais ira destas pessoas.

"É improvável que o departamento de TI sobreviva no longo prazo, pelo menos não em sua forma familiar", escreve Carr. "Ele não terá muito o que fazer depois que uma parte expressiva da computação corporativa migrar dos data centers privados para o ‘cloud’. Unidades de negócio e até funcionários individuais poderão controlar o processamento de informação diretamente, sem necessidade de legiões de técnicos."

O raciocínio de Carr é que as empresas de utility computing substituirão os departamentos de TI corporativos, assim como as estações de força geridas por fabricantes foram substituídas por companhias de energia elétrica nos primórdios do século 20.

Antigamente, as fábricas tinham suas próprias estações de energia, explica Carr. Mas começaram a terceirizar esta função crítica à medida em que as companhias de energia elétrica se tornavam mais confiáveis e ofereciam melhor economia de escala.

Carr prevê mudança idêntica com utility computing. Ele admite que as empresas de utility computing precisam promover melhorias em segurança, confiabilidade e eficiência. Mas argumenta que a internet, aliada a hardware e software commoditizados, permitirá que o modelo de utility computing substitua o modelo cliente/servidor de hoje.

"Sempre se soube que, teoricamente, a potência de computação, assim como a energia elétrica, podia ser fornecida através de um grid de utilities em larga escala — e que tais dínamos centralizados poderiam operar com eficiência e flexibilidade muito superiores às dos data centers privados dispersos", escreve Carr.

Carr cita vários indutores da migração para utility computing. Um deles é que os computadores, os sistemas de armazenamento, o equipamento de rede e as aplicações mais amplamente utilizadas tornaram-se commodities.

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Ele diz que até os profissionais de TI das empresas estão indistinguíveis. "A maioria executa tarefas rotineiras de manutenção — exatamente as mesmas tarefas que seus pares executam em outras empresas."

Carr aponta que a maior parte dos data centers tem excesso de capacidade, com a utilização variando de 25% a 50%. Outra mola propulsora da utility computing é o grande consumo de energia nos data centers, que chega a ser 100 vezes superior ao de outros prédios de escritórios comerciais.

"A replicação de dezenas de milhares de data centers independentes, todos utilizando hardware similar, rodando software similar e empregando funcionários similares, impôs severas penalidades à economia", observa Carr. "Levou à sobreposição de ativos de TI em cada setor da economia, reduzindo os ganhos de produtividade que podem advir da automação de computadores."

Carr classifica o Google como líder em utility computing. O Google comanda os maiores e mais sofisticados data centers do planeta e os utiliza para fornecer serviços como o Google Apps, que competem diretamente com software cliente/servidor tradicional de fornecedores como a Microsoft.

"Se as empresas puderem se apoiar em estações centrais como as do Google para satisfazer todos ou quase todos os seus requisitos de computação, reduzirão os gastos com seus próprios hardware e software. Todo o dinheiro economizado iria para os cofres da Microsoft e de outros gigantes da tecnologia."

Outras empresas de TI que Carr destaca no livro por suas abordagens inovadoras de utility computing são: Salesforce.com, que disponibiliza software CRM como um serviço; Amazon, que oferece os Storage Solution Services (S3) e Elastic Compute Cloud (EC2) com seu excedente de capacidade; Savvis, líder em automação de implementações de TI; e 3Tera, que vende o software AppLogic para automatizar a criação e o gerenciamento de sistemas corporativos complexos.

Carr ressalta que muitas empresas de software e hardware líderes — Microsoft, Oracle, SAP, IBM, HP, Sun e EMC — estão adaptando seus produtos cliente/servidor para utility.  "Algumas empresas conservadoras terão êxito ao mudar para o novo modelo de computação, outras vão fracassar", escreve Carr.

"Mas todas elas deveriam analisar os exemplos da General Electric e Westinghouse. Cem anos atrás, ambas ganhavam muito dinheiro vendendo componentes e sistemas de geração de eletricidade para empresas individuais. Esta atividade se extinguiu quando as grandes empresas de serviços públicos assumiram o fornecimento de energia. Mas a GE e a Westinghouse conseguiram se reinventar."

Carr sinaliza um futuro mais sombrio para os profissionais de TI. Na era da utility computing vislumbrada por ele, "gerenciar uma operação de computação corporativa inteira exigirá apenas um indivíduo sentado diante de um PC, acionando comandos simples via internet para uma utility distante".

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Ele se refere não só à extinção do PC, que será peça de museu dentro de 20 anos, mas também do programador de software, cuja época chegou ao fim. Carr dá vários exemplos de empresas de internet bem-sucedidas, como YouTube, Craigslist, Skype e Plenty of Fish, que conduzem suas operações com uma equipe de profissionais de TI mínima.

O YouTube só tinha 60 funcionários quando foi comprado pelo Google em 2006 por 1,65 bilhão de dólares. O Craigslist tem 22 funcionários para um web site com bilhões de páginas de conteúdo. O Skype, fornecedor de telefonia baseada na internet, suporta 53 milhões de clientes com apenas 200 funcionários. O site de namoro Plenty of Fish é uma instalação de um homem só.

"Dadas as vantagens econômicas das empresas online — vantagens estas que vão crescer à medida que a utility computing amadurecer e os custos de processamento e comunicação de dados baixarem ainda mais — as empresas tradicionais talvez não tenham outra escolha a não ser reformular seu próprio negócio nos mesmos moldes, despedindo milhões de funcionários neste processo", diz Carr.

Para Carr, os profissionais de TI não serão os únicos a desaparecer. Ele reserva suas previsões mais medonhas para os jornalistas. "Com a comercialização crescente do conteúdo gerado por usuários, provavelmente a ameaça maior oriunda da produção social não terá como alvo as grandes corporações, mas profissionais individuais: jornalistas, editores, fotógrafos, analistas, bibliotecários e outros profissionais da informação poderão ser substituídos por... pessoas que não estão na folha de pagamentos."

O argumento de Carr sobre o futuro da utility computing é lógico e bem escrito. Ele faz uma comparação sólida entre a evolução das companhias de energia elétrica do início do século 20 e a evolução da utility computing que está acontecendo hoje.

Os últimos capítulos do livro de Carr, que abordam o futuro da inteligência artificial e as muitas desvantagens da internet, mostram-se menos essenciais à argumentação sobre utility computing. E sua discussão sobre a ligação direta entre o cérebro e a internet preconizada pelo Google é um tanto forçada.

Apesar de tudo, "The Big Switch" é leitura recomendada para qualquer profissional de TI promissor que busca construir uma carreira fornecendo serviços de computação a corporações. Se as previsões de Carr se concretizarem, sólidas habilidades técnicas continuarão sendo valorizadas por fornecedores de serviços.

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