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Inteligência Artificial: 4 ondas de evolução

Cada onda alavanca a evolução da IA e provoca rupturas em setores de negócio

Cezar Taurion *

17/11/2018 às 19h21

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Foto:

Li e reli o excelente livro de Kai-Fu Lee, “AI Super-powers:
China, Silicon Valley and the New World Order
”. Fica claro para mim que a China
será indiscutivelmente a líder em IA em no máximo uma década, suplantando os
EUA. Um interessante exemplo do que eles já estão fazendo pode ser visto no
vídeo de 30 segundos onde uma startups chinesa, a iFlyTek, mostra trechos de
discursos de Trump e Obama, convertendo sua fala em mandarim. Se
quisermos saber para onde a IA está evoluindo, temos que ter a China no radar.

O livro aborda uma tese interessante, que analisa a evolução
da IA sob a ótica de 4 ondas:  “Internet AI”, “Business AI”,
“Perception AI” e “Autonomous AI”. Cada onda alavanca a evolução da IA e
provoca rupturas em setores de negócio. Recentemente, o pesquisador de IA Andrew Ng disse que “IA
é a  nova eletricidade
”.  Há cerca de um século, começamos a
eletrificar o mundo através da revolução da eletricidade. Substituindo máquinas
a vapor por máquinas que usam eletricidade, transformamos o transporte, a
fabricação, a agricultura, a saúde e praticamente toda a sociedade. Agora, a IA
está no seu ponto de inflexão, iniciando uma transformação igualmente dramática
na sociedade.

A primeira onda, “Internet AI”, já faz parte do nosso dia a
dia. Um exemplo são os algoritmos de recomendação que impulsionam negócios como
Google, Netflix, Amazon e Alibaba. Esta onda permitiu a criação de negócios
inteiramente digitais e ampliados pela IA. O Google é uma empresa 100% de IA. A IA está no cerne de tudo que faz.  Uma
Amazon ou Alibaba dependem de IA para que seus negócios fluam. Idem para
Netflix. Sem algoritmos de IA não teriam chegado ao valor de mercado que
alcançaram, com uma Amazon batendo o trilhão de dólares e a Netflix se
equiparando a uma Disney. 

Um exemplo de como opera uma empresa “AI-driven” pode
ser vista no artigo “Alibaba e o futuro dos
negócios
”. A Alibaba, é uma empresa nativa digital e teve a vantagem
de nascer e estar pronta para receber dados, por isso sua transformação para “AI-driven”
é bastante natural. 

Agora que as empresas “Internet AI” provaram que o modelo
funciona e estão transformando a velha economia industrial, é hora de todas as outras
empresas, as não nativas digitais, entenderem e aplicarem essa nova lógica de
negócio. Isso pode parecer tecnologicamente intimidador, mas está se tornando
cada vez mais viável. A junção da IA com a computação em nuvem tornou acessível a qualquer pessoa a computação em
larga escala e as capacidades analíticas. De fato, o custo do armazenamento e do processamento de grandes quantidades de dados caiu drasticamente na última década.
Isso significa que aplicações de Machine Learning em tempo real agora são
possíveis e acessíveis em um número cada vez maior de ambientes. Conforme as
inovações em IA se acumularem nas próximas décadas, serão vencedoras as
empresas que se tornarem mais inteligentes do que as concorrentes. Isso no leva
para a segunda onda.

“Business AI” é a entrada da IA nas
empresas já existentes, que dispõem de um ativo fantástico: dados! Empresas
como seguradoras e bancos acumulam dados há dezenas de anos e agora estão
descobrindo que estavam sentadas em cima de um imenso campo de petróleo, não
aproveitado. Surgiram iniciativas de empresas como a IBM, com Watson e, mais
recentemente, a Element AI, canadense (no Brasil, um exemplo é a e DataH), que fornecem algoritmos
para as empresas varrerem seus dados em busca de otimizações.

A IA permite a
criação de empresas inteligentes, que usam tecnologias de IA, para alavancar
dados de forma eficiente e em tempo real. Veremos que para se manterem no ambiente
de negócios, extremamente veloz e volátil do século 21, as empresas terão que
mudar seu modelo de gestão e organização, com a maioria das decisões
operacionais sendo tomada por máquinas, permitindo que se adaptem de forma
dinâmica e rápida às mudanças nas condições do mercado e às preferências dos
clientes. Afinal, estão lutando contra empresas ou startups que nasceram
digitais. 

Este dinamismo bate de frente com o paradigma da sociedade industrial
que privilegiava a estabilidade. Isso significa uma mudança de paradigma.  Nos negócios inteligentes, todas as
atividades, e não apenas a gestão de conhecimento e o relacionamento com o
cliente, são configuradas por meio de software, de modo que as decisões que as
afetam possam ser também configuradas. Isso implica que um modelo padrão de
eficiência (adquirir um ERP) deixa de ser verdade. Estes software tradicionais tornam os processos e os fluxos de decisão mais rígidos e, muitas
vezes, viram camisa de força. Em contraste, a lógica dominante para negócios
inteligentes é a reatividade em tempo real. O ERP passa a ser uma âncora que
segura o dinamismo na empresa. O ERP tradicional começa a ser substituído por módulos que
representam os workflows e que operam em cooperação através de APIs. Mudou um
processo ou workflow? Altere-o, e continue operando sem afetar os demais. Ainda estamos engatinhando nesta fase, com poucas empresas tradicionais se engajando de
verdade em IA.

A terceira onda, “Perception AI”, aumenta a potencialidade
da IA dando aos sistemas condições de perceberem o mundo à sua volta, reconhecendo
imagens e sons. O rápido desenvolvimento da tecnologia da Internet das Coisas digitalizará ainda mais o nosso ambiente físico, fornecendo mais e
mais dados. É caracterizada, portanto, pela convergência entre a IA e a Internet das Coisas, destruindo as fronteiras entre o mundo digital e o offline. Deixamos o "O2O",
ou seja, o "online to offline",  para entramos no "OMO", ou "online-merge-offline".  Um exemplo é o Echo, da Amazon, que interage
naturalmente com o consumidor. Em breve, os pedidos que atende serão entregues via drones. 

A quarta onde, “Autonomous AI” pode ser simbolizada pelos
veículos autônomos. A onda de choque provocada pelos veículos autônomos não
mudará apenas a indústria automotiva, mas diversas outras, que à primeira vista
parecem imunes à esta disrupção. É instigante ler o texto “33
Industries Other Than Auto That Driverless Cars Could Turn Upside Down
”.
Entre as industrias provavelmente a serem afetadas está a de fast food! 70% das
vendas do McDonald's nos EUA vêm através das lojas drive-thru, o que pode
tornar a empresa e as demais empresas de fast-food extremamente vulneráveis
​​em um mundo com veículos autônomos, sem motorista. Nos carros autônomos, as
pessoas podem simplesmente inserir as coordenadas de seu destino, reduzindo a
chance de desvio para uma compra de alimentos, que geralmente ocorre por
impulso. Paradas para comer algo serão determinadas mais por escolha, humor e
qualidade e menos por conveniência.

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O ciclo evolutivo da IA segue seu ritmo, em velocidade acelerada.
Creio que está cada vez mais nítido que IA não é modismo. É, sem dúvida, a
tecnologia mais disruptiva no horizonte. 

Os executivos devem
entender que este será o futuro e definir como sua empresa e seu setor evoluirá em
resposta às mudanças sociais, econômicas e tecnológicas provocadas pela adoção da IA em larga escala. Precisam ter senso de urgência e definir os rumos da
empresa em um mundo onde a IA será a nova eletricidade. Neste mundo - o dos modelos
de negócios inteligentes - os algoritmos de IA assumirão grande parte da
responsabilidade pela melhoria incremental, fazendo automaticamente os ajustes
que aumentam a eficiência em todo o sistema.

 As empresas que
ignorarem o poder da IA, e o potencial de transformação dos processos e modelos
de negócios que ela possibilita, estarão em considerável desvantagem, à medida
que nos movemos rapidamente para um mundo cada vez mais capacitado
cognitivamente.

 

(*) Cezar Taurion é partner da Kick Ventures e presidente do i2a2, Instituto de Inteligência Artificial Aplicada

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