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O plano do Google para exterminar o Office

Por que documentos e aplicações essenciais devem ficar trancafiados em uma única máquina? A estratégia do Google para vencer o Office pode estar baseada nesse raciocínio

InfoWorld

26/11/2007 às 13h19

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A longa batalha “thin versus fat” já começou. Ao que tudo indica, o Google está empenhado em acabar com a hegemonia da Microsoft minando a computação fat client no desktop. O alvo: nada menos que o Microsoft Office. A arma escolhida: aplicações thin client baseadas no navegador.

No mundo atual centrado na internet, o desktop caminha para ser pouco mais que um terminal para pessoas que se deslocam. Por que documentos e aplicações essenciais deveriam ficar trancafiados em uma única máquina? Por que não movê-los para a nuvem da internet e possibilitar que você trabalhe de qualquer lugar onde esteja, usando o dispositivo que houver à disposição? E, depois que seus documentos são libertados da prisão chamada PC, a colaboração está a apenas um clique de distância. Este é o argumento implícito por trás do Google Apps.

É claro que ouvimos profecias similares quando a web surgiu. Netscape e companhia iam mudar o mundo desktop – mas não mudaram. Desta vez, porém, a mola propulsora não é um bando de startups com grandes sonhos (embora algumas, como a Zoho, estejam no jogo), e sim um gigante corporativo abastado, com grana para torrar e talento para desperdiçar.

Então o Office como o conhecemos nos últimos 20 anos está condenado? Aqueles que viram um desfile incessante de possibilidades bombásticas podem ser perdoados por encarar esta mais nova mudança de paradigma de fat para thin clients como simplesmente mais uma novidade tecnológica que, quando passar, deixará a supremacia histórica de aplicações da Microsoft incontestável ainda por muitos anos. Dependendo do período de tempo, existem fortes argumentos a favor e contra esta posição.

O plano do Google começa com um tropeço
O Google é uma tsunami. Tem talento. Dinheiro. Arrogância. Se alguém é capaz de transformar cloud computing em realidade e, assim, infligir uma grande derrota à Microsoft, é o Google.

No centro da estratégia do Google está a nuvem (cloud). Ele hospeda suas aplicações e seus dados, proporcionando o alcance onipresente do ciberespaço. Não há necessidade de um sistema operacional desktop ou de um pacote de aplicações complexo, nem do hardware mais avançado devorador de potência para rodá-lo. É um modelo de entrega de aplicação mais enxuto e responsável. Você poderia até defini-lo como esclarecido.

Infelizmente, o cloud é impraticável hoje. Grid computing, software como serviço e capacidade de gerenciar a entrega de aplicações e o acesso em escala global ainda estão engatinhando. Como nos primórdios da web, as aplicações thin client que vemos hoje são apenas idéias embrionárias tentando apontar o caminho à frente.

Mesmo com as limitações do cloud, o Google precisa se empenhar mais para chamar atenção para as forças inerentes do modelo hospedado – por exemplo, como os usuários podem compartilhar dados facilmente sem ter que implementar servidores ou infra-estrutura. A Microsoft já está explorando esta vantagem com a solução Office Live workspaces, que fornece um espaço de trabalho SharePoint protegido por senha pra compartilhamento de documentos via web.

Quando lançar o workspaces como um release beta no dia 10 de dezembro, a Microsoft poderá até usurpar o posto do concorrente de formador de opinião em cloud computing. (Obviamente, apesar do nome, o Office Live não oferece a mesma funcionalidade do Office.)

Talvez o Google se veja competindo contra um modelo de produto híbrido mais funcional que permite aos clientes usufruir as vantagens do cloud no conforto de seu familiar ambiente Windows-mais-Office. (É para onde o Office Live parece estar se encaminhando: um suplemento do tradicional Office destinado ao desktop.) Ironicamente, a grande reformulação da interface do Windows Vista e do Office 2007 e as reclamações de TI em relação à instabilidade do Office 2007 dão ao Google uma abertura para redirecionar os investimentos em TI para longe da agora menos familiar solução da Microsoft.

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Mas o Google tem uma preocupação mais premente: apesar de todo o “hype” em torno de sua tecnologia Gears, que permite salvar arquivos localmente, e de suas iniciativas Google Apps, o fato é que nada disso funciona muito bem. Sim, existem exceções – Gmail é o exemplo mais citado – mas, se consideradas em conjunto, estas soluções perdem o brilho em comparação ao estado atual das aplicações desktop.

Se algo tão inocente quanto apertar acidentalmente a tecla F5 pode destruir sua obra-prima, você sabe que a tecnologia ainda não está pronta para o horário nobre. (O problema foi corrigido, mas demonstra a imaturidade de grande parte do Google Apps.)

Todos nós sabemos que a Microsoft também tropeçou com suas ofertas, precisando de várias versões para entregar aplicações extremamente úteis e estáveis. Portanto, é fácil imaginar que o Google acabará seguindo a mesma estratégia de “longo percurso” e superando a Microsoft. Mas é uma vergonha que não tenha, antes de tudo, encurtado o percurso evitando os tropeços.

Primeiro o Google precisa reforçar suas soluções atuais. Acesso offline e persistência são dois grandes obstáculos técnicos que o Google só começou a abordar há pouco tempo com a iniciativa Gears. O Google tem que expandir esta funcionalidade para as aplicações Documents, Spreadsheets e Presentations – e rapidamente.

Mas o recente projeto Android da empresa roubou muita atenção da iniciativa Google Apps, o que poderá desviar o olhar do Google da recompensa Office. Executivos do Google precisam redirecionar o foco para o objetivo maior: destronar a Microsoft e não deixar que muitas grandes inciativas atrapalhem umas às outras. O Google também não pode se deixar aprisionar em uma infinidade de projetos secundários que talvez apresentem retorno limitado do investimento.

O Google não é capaz de fazer tudo isso sozinho. A empresa pode contratar quantos gênios quiser, mas não resolveria um problema fundamental: a web não é um monolito que uma empresa apenas pode controlar. O vencedor faz parte de um grande time que, unido, produz os melhores resultados e tem interesse financeiro em ver a equipe alcançar êxito. Neste aspecto, a parcimônia de ISVs do Google é um problema.

É preciso mais do que visão para mudar o mundo. É preciso incentivo, e para a Google isso significa criar um verdadeiro canal de desenvolvedores, capaz de traduzir toda a tecnologia fantástica da empresa em aplicações comerciais inovadoras que satisfazem os requisitos dos clientes.

Se e quando o Google conseguir dar vida a este eco-sistema, poderá ter uma chance real de destronar o rei Office.

Por que é difícil superar a Microsoft
Abraçar e estender. Para melhor ou para pior, este é o modus operandi da Microsoft há mais de uma década. Estrategistas da empresa identificam um padrão emergente, declaram suporte a ele publicamente e inudam o mercado com todos os tipos de extensões proprietárias para “aprimorar” o padrão.

Em alguns casos, realmente funciona para melhor. Tecnologias de hardware essenciais, como ACPI (Advanced Configuration and Power Interface), devem sua existência ao empenho da Microsoft em aprimorar a compatibilidade e a estabilidade da plataforma Windows. Em muitos outros casos, porém, as tentativas da empresa de “abraçar e estender” tiveram conseqüências desastrosas. As guerras de browser em fins dos anos 90 foram resultado direto das tentativas da Microsoft de esmagar a Netscape obrigando os desenvolvedores a escolher entre padrões incompatíveis de plug-in e tag HTML.

A pergunta agora é: a Microsoft continuará a abraçar e estender em um mundo centrado na web, no qual o tradicional modelo PC “fat client” de aplicações autônomas e dados armazenados localmente parece quase um anacronismo?

Se você fizesse a mesma pergunta enquanto chacoalha o “Magic 8 ball”, acho que a resposta seria “Outlook Bom”. Apesar do grande número de erros, a Microsoft ainda comanda o mais vasto eco-sistema de software/hardware que existe. De servidores de aplicação a utilitários de arquivo Zip, as plataformas da Microsoft são os alvos principais de todos os tipos de desenvolvedores. Muitos impérios de desenvolvimento de software comercial foram erigidos na esteira do Windows.

Um exemplo: o Microsoft Office. A maioria das pessoas acha que os três grandes programas - Word, Excel e PowerPoint – são apenas um pacote integrado de aplicações autônomas, embora extremamente popular. Olhando com mais atenção, você vê que o Office é muito, muito mais que isso. Graças à inclusão de algumas APIs de integração robustas (Visual Basic for Applications, automação OLE e diversas interfaces add-in), o Office é, por si só, um alvo de desenvolvimento comercial.

Na verdade, uma das maneiras mais fáceis de entrar no mercado de desenvolvimento baseado em Windows é mirar no Microsoft Office. Consiga que ele faça alguma coisa nova, ou melhor, e o mundo abrirá as portas para você.

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Obviamente, o “habitat Office” é apenas uma parte do ecossistema maior Windows. SQL Server, Dynamics, Outlook, IIS (Internet Information Services), cada um gera seu próprio campo gravitacional que ajuda a conquistas corações e mentes dos desenvolvedores comerciais. E, seja IIS com SOAP e WSDL ou SQL Server com meta-dados, cada um implementa a filosofia “abraçar e estender” de uma maneira que reforça cada elemento do eco-sistema, incluindo o Office.

Uma força que talvez seja capaz de romper esta estratégia de eco-sistema que se auto-fortalece é a web. A combinação de thin clients baseados em browser e conectividade onipresente está conspirando para usurpar uma parcela do controle da Microsoft sobre a indústria. Mas a Microsoft, por mais que pareça um monstro pesado, detectou esta ameaça e também está adotando aqui sua estratégia testada e comprovada de “abraçar e estender”. Como as criaturas lerdas dos filmes de terror, é bem possível que capture a vítima aparentemente mais veloz.

Primeiro, abraçar: a Microsoft está reagindo agressivamente às invasões do Google e outros do gênero e da startup Zoho com alguns serviços Office Live thin client para pequenas empresas, como um gerenciador de contatos e um Web site designer, além de acréscimos às suas ofertas Windows Live voltadas ao consumidor, como as ferramentas de compartilhamento de fotos e blogging.

Agora, estender: fiel às regras, a Microsoft está estendendo estes serviços Office Live e Windows Live ao vincular cada nova oferta ao sistema operacional desktop e às plataformas de aplicação tradicionais da empresa. O Windows Live Mail, Office Live Workspaces e Windows Live Writer são dirigidos ao crescente mercado de aplicações que habita o cloud. Todos são muito específicos para Windows, com arquiteturas híbridas que integram Web e desktop fortemente, com o estilo característico da Microsoft.

Mesmo assim, o Office Live é, no máximo, apenas um tapa-buraco para um fim ainda mais ambicioso. Através da virtualização de aplicação (SoftGrid, et al.), a Microsoft poderá muito bem explorar as mesmas forças da conectividade onipresente que estão capacitando as aplicações web thin client a entregar as versões “reais” do Word, Excel, PowerPoint e o restante, em toda a sua glória fat client rica em recursos, através de uma massiva rede distribuída de servidores de streaming.

A proposta de valor da abordagem potencial da Microsoft é muito tentadora: por que optar por alguma aplicação AJAX (Asynchronous JavaScript and XML) de baixo ou nenhum custo se você pode receber o que há de mais novo e melhor da Microsoft direto no seu desktop pelo mesmo dinheiro (ou um pouco mais, dependendo do quão agressiva a Microsoft decida ser com seu plano de assinatura)? Seria um grande desafio para o Google superar.

Avaliando as chances do Google
Mesmo que a Microsoft nunca forneça o Office como serviços thin client à la Google Apps, o Google ainda não terminou. Precisa profissionalizar suas aplicações rapidamente e criar seu próprio eco-sistema thin client e suas próprias parcerias. E, apesar destes esforços necessários, o sucesso ou o fracasso do Google poderá, em última instância, depender mais dos erros e das falhas da Microsoft.

Um erro da Microsoft ficou claro na recepção morna ao Vista e Office 2007. Ambos fazem TI trabalhar mais, sofrer com defeitos de design e estabilidade e entregar menos do que o prometido originalmente. Só graças a uma base instalada colossal a Microsoft pode vencer esta difícil transição.

Outro erro da Microsoft mais crítico talvez seja sua campanha paranóica para reprimir a pirataria. A Microsoft tornou a perspectiva de “viver com o Windows” cada vez mais difícil de digerir. Um exemplo: o WGA (Windows Genuine Advantage). Com WGA, o processo de ativar e manter o status ativado dos produtos da Microsoft é inepto e sujeito a erros, criando um obstáculo para futura adoção. Existem muitas histórias horríveis de usuários cujos sistemas ficaram incapacitados porque o WGA foi acionado por engano, resultando em diminuição da funcionalidade ou, no meu caso, um bloqueio total do desktop.

Uma brecha potencial na armadura do Windows envolve a virtualização. A Microsoft poderia explorar sua tecnologia de virtualização e streaming de aplicação SoftGrid para fornecer versões totalmente funcionais de suas aplicações mais populares através de um modelo de assinatura mensal ou trimestral. Se esta abordagem realmente vingasse, a Microsoft poderia validar a abordagem de cloud para entrega de aplicação, ajudando a promover uma justificativa para concorrentes na área de thin client como o Google. Então a Microsoft, para vencer, teria que ser melhor e/ou mais barata do que o Google. E seu histórico contraria ambos, pelo menos a princípio.

Se a Microsoft oferecer um programa agressivo de preço para uma versão streamed do Office, o jogo poderá terminar para o Google. Mas se a Microsoft se mostrar insaciável e decidir proteger seu canais existentes rechaçando qualquer incentivo financeiro à assinatura, os clientes provavelmente vão repeli a solução “Office virtual” e começar a considerar ativamente alternativas como o Google Apps.

Sem dúvida, o Google pode fazer uma grande mossa no domínio da Microsoft e no tradicional modelo de computação fat client se suportar melhor suas ofertas atuais, se criar uma comunidade efetiva de ISVs movidos a incentivos, se a Microsoft continuar a impingir restrições e barreiras pesadas à ativação de produtos e se Redmond não conseguir promover sua nova oferta de assinatura agressivamente em termos de funcionalidade e preço.

Existem muitos “se” e a Google detém o controle de apenas dois. As instalações de TI talvez queiram cercar suas apostas dos dois lados ao menos experimentando o Office Live junto com o Google Gears. Por mais que os eruditos se entusiasmem com mudanças revolucionárias estilo “Nova Economia”, o mundo de TI e dos usuários é mais pragmático e cuidadoso. Afinal, nem todos querem uma revolução. Alguns de nós só queremos sentir que fazemos parte de algo enquanto observamos o desenrolar dos acontecimentos no conforto de nossos PCs familiares.

Randall C. Kennedy - InfoWorld (EUA)

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