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Por mais eficiência

Para evitar outra crise elétrica, companhias do setor investem pesado em tecnologia da informação

Marina Pita

06/11/2007 às 8h42

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Neste momento de retomada do crescimento do país, a palavra que mais perturba muitos empresários é energia. Parte dos consultores avalia que pode haver uma nova crise em quatro anos. Para as empresas do setor, por sua vez, aperfeiçoar a previsão de consumo, reduzir as perdas de energia e automatizar os processos, inclusive de atendimento ao consumidor, são necessidades emergenciais que precisam do apoio total da área de TI. Os diretores de tecnologia de empresas como AES Eletropaulo, Cemig e Elektro estão com o desafio nas mãos e muitos projetos saindo do papel.
 
A AES Eletropaulo, por exemplo, está investindo em TI para aprimorar sua infra-estrutura de distribuição de energia. A empresa já tem o mapeamento das redes: linhas de distribuição, postes, transformadores ligados a certa subestação etc.. Agora, a companhia dedica-se ao desenvolvimento de softwares que avaliem a carga que percorre cada uma das linhas para garantir que os equipamentos estão adequados a ela. “Por simulação, alguns softwares conseguem analisar o aquecimento de determinado transformador de energia. Se um transformador aquece, desperdiça energia, então precisamos descobrir quais deles devem ser substituídos por outro que suporte uma carga maior. Ao mesmo tempo, aproveitamos aqueles que estão subutilizados,” explica Eduardo Fagundes, diretor de TI da AES Eletropaulo.
 
“Não dá para fazer um upgrade nas nossas turbinas. Geração é [um processo] mecânico e físico, está ligado à altura da queda e ao volume de água. E a capacidade está projetada no limite. Mas podemos maximizar o uso da geração”.
 
Já a Elektro tem o desafio de gerenciar uma área dispersa – sua concessão está em uma parte do Mato Grosso do Sul com 120 mil quilômetros quadrados, 80% em área de preservação ambiental. Mas árvores e fios de transmissão de energia não combinam, de forma que a empresa precisa lidar cotidianamente com quedas no sistema. “Quando há algum problema em uma das linhas, corta-se imediatamente a transmissão de energia, inclusive por segurança,” afirma Cícero Calvi Junior, diretor de TI da Elektro. “Para resolver o problema, um funcionário tinha que ir até o local, o que significa em alguns casos, uma viagem de barquinho e longas caminhadas para depois subir na escada e religar a chave do sistema.”
 
Calvi agora está instalando sistemas que permitem o re-ligamento remoto. De acordo com o executivo, a novidade não isenta o funcionário de ter de fazer a viagem, mas se o desligamento ocorreu somente por conta de defesa do sistema, ele religa remotamente e fica disponível para cumprir outras tarefas. “Na ultima revisão tarifaria da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) houve um decréscimo [dos preços praticados]. Para absorver esse tipo de acomodação de tarifas, é preciso ter um negócio altamente eficiente, que só é alcançado com alta tecnologia,” justifica Calvi.
 
Para a Cemig, prever com muita precisão o consumo de energia era um desafio-chave. “Se houver um desvio muito grande entre a previsão e a demanda real, a empresa pode passar por sérios apuros, não ter energia disponível e ter de pagar muito caro por ela no mercado spot”, explica Sergio Andreotti Tasca, superintendente de telecomunicações e informática da Cemig.

Assim, Tasca aposta em um sistema de business intelligence que faz toda a projeção de mercado com base em processo estatísticos. “Desenvolvemos esse sistema com a SAS que vem trazendo muitos benefícios, a projeção está dentro de padrões homologados e estabelecidos por órgãos reguladores.”
 
As mudanças que chegam com a tecnologia levam a algumas situações inusitadas – como a ocorrida na Elektro, onde o projeto de gestão de serviços levou a empresa a receber uma reclamação pela rapidez no atendimento. “A pessoa ligou de uma vizinha, nós tínhamos uma equipe próxima ao local que foi acionada e acabou chegando antes da consumidora. Sem encontrar alguém, o funcionário deixou um recado na porta e foi embora. Depois ela fez uma reclamação de que foi muito rápido”, diz Calvi, satisfeito com a situação.

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A rapidez no atendimento foi possível depois da adoção de um sistema de gestão das ordens de serviços – no caso da Elektro, são mais 70 tipos, ligação, re-ligação, corte, iluminação pública entre outros – em que o sistema reconhece as equipes em campo e faz a roteirização dos serviços. Cada uma delas será despachada de forma inteligente para uma equipe de 800 funcionários com seus respectivos PDAs. Além de aumentar a eficiência, a novidade permitiu à empresa reduzir seus gastos com deslocamento.
A gestão de serviços começou em maio e deve atender 300 mil ordens técnicas e 700 mil ordens comerciais por ano. Por enquanto, organiza apenas as ordens técnicas e quatro tipos ordens de comerciais, mas já vem mostrando resultados. “A velocidade de atendimento caiu de horas para minutos”, diz Calvi.

Consumidor
Muitos dos novos projetos de TI nas empresas de energia estão voltados para a área de atendimento ao consumidor. Talvez porque ninguém hoje em dia tolere ficar sem eletricidade um minuto sequer.
 
A AES Eletropaulo, por exemplo, está promovendo uma grande mudança na gestão de clientes. Os cadastros, hoje baseados nos logradouros, passarão a ter como referência a pessoa física em fevereiro de 2008. Até agora, as informações de 15 mil consumidores de média e alta tensão já migraram para o CCS (coustmer care services), mas ainda faltam 5,5 milhões de usuários domésticos.
 
“Passamos a ver o cliente como consumidor o que nos permite dar focos específicos para cada perfil, por exemplo, oferecendo novos produtos”, diz Fagundes. Um cliente com mais de uma conta, dono de casas alugadas, por exemplo, poderá fazer a gestão centralizada via internet.
 
Para a AES, o investimento significa maior poder de controle da rede. Uma ferramenta de BI informa quais as regiões com maior probabilidade de fraudes. “Por meio de uma combinação entre o GIS (Geographic Information System), dados de consumo da população e algumas outras estatísticas de mercado, conseguimos determinar em quais regiões o risco de fraude é maior, para fazermos um atendimento mais cuidadoso na instalação,” diz Fagundes. “A redução de número de fraudes resulta no melhor atendimento para os demais clientes.”
 
A Cemig também está mudando seu sistema de CRM. Agora, quando um consumidor ligar para a prestadora de serviço, todos os seus dados aparecerão imediatamente na tela. “Ampliaremos a base de dados para oferecer um serviço mais ágil. Quando o consumidor entrar em contato com a central, uma unidade de telefonia já vai identificar, por meio da chamada, o numero do CPF, o histórico da conta. Quando ocorrer uma transferência, não precisaremos identificar o usuário novamente,” diz. O objetivo da Cemig é obter informações mais precisas, além de reduzir de 30% a 40% o tempo médio de atendimento, com muito mais qualidade.
 
Assim como a AES Eletropaulo, a Cemig quer ampliar o número de serviços oferecidos via web, tanto que pretende iniciar parceira com alguns bancos para que o consumidor faça o pagamento das contas no site da própria companhia.

Leitura remota
A nova menina dos olhos das empresas é a leitura remota do consumo de energia. Assim, cada consumidor poderia controlar o próprio consumo e as empresas poderiam deslocar os funcionários que têm essa função hoje para cumprir outra tarefa. 
O problema, segundo os executivos da Elektros e da AES Eletropaulo, que já têm pilotos com consumidores de média e alta tensão, são os custos do equipamento. Para Tasca, no ano de 2008 ainda serão discutidos custos de implantação da leitura remota do consumo de energia, mas em 2009 já se pode começar a  pensar na possibilidade de tornar esse projeto uma realiadade.

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