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SOA: passo-a-passo rumo ao sucesso

Transformador, apressadinho, conservador demais ou no rumo certo? Veja com qual perfil seu projeto de arquitetura orientada a serviços mais se assemelha e saiba como evitar erros comuns

Camila Fusco, do ComputerWorld

28/09/2007 às 12h59

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De alguns anos para cá, projetos de SOA começaram a figurar na agenda de muitos executivos de TI como uma tarefa tão rotineira quanto escovar os dentes ou cortar o cabelo. Embora não fossem inéditos, os conceitos de reuso de componentes de tecnologia inerentes à arquitetura orientada a serviços se propagaram com imensa velocidade e hoje são poucos aqueles que não têm um discurso afiado sobre projetos nessa área.

Mas se por um lado SOA é cada vez mais popular e figurante do mote “todo mundo fala e todo mundo faz”, por que são poucas as empresas no País, que, de fato, têm conseguido conduzir e obter benefícios com projetos nessa área? As primeiras respostas estão relacionadas a planejamento deficiente ou excessivo, além de compreensão limitada dos conceitos. Entretanto, geralmente são erros mais profundos – e por vezes aparentemente tolos – que são capazes de fazer um projeto de SOA já nascer fadado ao insucesso.

Antes de comentar os fatores que podem levar ao fracasso, porém, vale comentar um mito freqüente: de que o SOA não é para todos os tipos e tamanhos de empresa. Na avaliação de diversos analistas, tal consideração é descabida: não importam perfil, porte ou área de atuação de uma determinada companhia. Os conceitos de reuso podem ser benéficos em praticamente todos os casos, embora os moldes de implantação devam obrigatoriamente variar de empresa para a empresa. “SOA não significa algo exclusivo para grandes corporações. É um modelo que todas as empresas vão adotar algum dia em algum grau”, enfatiza Roberto Gutierrez, diretor de consultoria da IDC Brasil.

Embora a tendência tenha começado pelas companhias de grande porte, pequenas e médias empresas tendem a adotar o modelo em um segundo momento e mesmo em outro formato, assinala o executivo. Partindo do princípio de que não existe restrição sobre quais tipos de companhia podem adotar arquitetura orientada a serviços, o primeiro passo a considerar, então, é o planejamento do projeto. Enquadram-se nesta fase ter claro o objetivo de negócio por trás da iniciativa e lembrar sempre que a melhor abordagem sobre SOA é não considerá-la como um único projeto, mas uma coleção de projetos menores.

A partir disso, aponta Ricardo Chisman, responsável pela área de tecnologia da Accenture Brasil, a companhia deve mapear seus processos e concentrar esforços especialmente em como será feita a governança, responsável pela gestão do ciclo de vida dos serviços. Tal procedimento garantirá, segundo ele, maior confiança sobre processos e soluções dentro da corporação.

Paulo Rodrigues, diretor geral da Bearing Point, aponta ainda que é neste momento que a companhia precisará reformular o perfil da equipe de tecnologia da informação, de um operacional para um mais racional. “Entendo que devam existir três perfis de profissionais nesse contexto: o que arquiteta os processos, aquele que executa processos e o arquiteto de soluções. É a TI mudando do perfil executor para o de inteligência”, ressalta. Em companhias de menor porte, assinala, não existe necessidade de manter três profissionais empenhados nessas tarefas. Apenas um com esses três tipos de habilidade já seria o suficiente para sustentar um projeto.

Nesta etapa da concepção da estratégia, a contratação de uma consultoria externa pode colaborar, mas não é condição determinante para uma abordagem de SOA bem sucedida. Uma boa preparação também pode ser feita internamente, especialmente se existir um grupo inteiramente dedicado a SOA, sem conduzi-la como atividade paralela. Novamente, dependendo do porte da empresa, essa tarefa de dedicação integral ao projeto de SOA pode ficar a cargo de uma única pessoa.

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O desenvolvimento do planejamento de SOA deve ser realizado na etapa posterior. Compreender as necessidades das áreas que patrocinam o negócio no curto, médio e longo prazos é outro estágio a ser realizado, assim como a avaliação periódica do andamento desses microprojetos.

Tecnologia, o grande apoio
Tendo a etapa de planejamento concluída, a hora é de definir quais tecnologias e plataformas serão necessárias para o suporte da jornada rumo a SOA. Na maioria dos fornecedores, a oferta de tecnologia também é complementada por uma parte consultiva, o que ajudará a determinar a plataforma a ser utilizada, conforme acontece com Microsoft, IBM, BEA, entre outros.

Na Gol Linhas Aéreas, por exemplo – empresa que já vê na prática os benefícios da arquitetura orientada a serviços –, a opção pela plataforma da Microsoft veio após um profundo trabalho de definição de processos e teve como principal motivação a padronização dos sistemas na empresa. Conforme conta Wilson Maciel, CIO da empresa, o projeto de SOA começou há cerca de dois anos no sistema de reserva de passagens, com objetivo de simplificar custos e também revisar as soluções.

Posteriormente foram implantados webservices, que viabilizaram conexão entre a empresa e os agentes de viagem, e também BPM, para organizar os processos. A base do sistema via internet foi reaproveitado também para o check-in online e está sendo usado de forma progressiva também para as vendas por celular. “As idéias vão surgindo paulatinamente, mas digo que foram fundamentais as etapas de planejamento e definição de plataformas de software”, ressalta.

Olhe ao redor
Mas mesmo com todas as orientações sobre os passos necessários para a condução de uma boa iniciativa de SOA, olhar ao redor também pode servir para minimizar os erros no próprio projeto. Entre os principais enganos cometidos por companhias em seus projetos atualmente está a visão limitada do que é a arquitetura orientada a serviços. Chisman, da Accenture, ressalta que é comum ver empresas considerarem isoladamente projetos de webservices, de integração ou BPM como SOA.

Segundo ele, nenhuma dessas interpretações está errada, mas na realidade tais abordagens são apenas parte do processo de criação de um ambiente que vai efetivamente extrair o melhor do reuso.

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Um exemplo clássico apontado por Randy Heffner, vice-presidente de pesquisas da Forrester Research, de como essa abordagem limitada pode trazer transtornos foi vivenciado pela gigante das comunicações AT&T. Em 2001, a companhia começou sua estratégia de webservices, integrando, tempos depois, boa parte de seus funcionários com aplicações web.

Entretanto, nenhuma diretriz de governança foi tomada para organizar os processos. “A iniciativa transportou a companhia de um ambiente bagunçado, desconexo e incoerente para outro igualmente bagunçado, incoerente, mas integrado”, ressalta. A saída, conta Heffner, foi implementar um programa de governança de SOA, que funcionou em boa parte por meio da identificação – para cada domínio de negócios e maiores serviços da AT&T – e mapeamento dos projetos para verificar quais criariam e quais deles usariam serviços.

Entre os demais erros comuns, estão as companhias que chegam a queimar etapas no planejamento e colocam em prática de forma rápida conceitos propostos por SOA, o que resulta em falta de solidez posterior para a iniciativa. Outras, porém, permanecem muito tempo na fase de planejamento e ajustando detalhes para atingir o nível máximo de precisão e acabam perdendo um período precioso de implantação.

Um terceiro perfil comum de projetos que freqüentemente dão errado inclui a transformação excessiva da infra-estrutura para garantir a abordagem de SOA. Claro que a preparação para integração dos sistemas existentes precisa ser feita, mas não em excesso definem os especialistas, e nisso inclui-se evitar a sanha compradora de tecnologias que possam prometer milagres no momento da migração.

O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, é um caso de sucesso que pode servir de modelo para que as companhias não caiam no perfil de transformação em excesso. Conforme ressalta o CIO Ney Santos – eleito IT Leader 2007 na categoria Comércio –, a companhia preferiu deixar de lado a estratégia de migração completa para SOA e apostar na iniciativa de transformação. Na prática, todos os sistemas já existentes ficam como estão e o que é novo a ser adquirido considera-se SOA.

Errei, e agora?
Se mesmo diante de todos os alertas preliminares algo de errado for identificado na metade dessa jornada rumo a SOA, a melhor alternativa é dar uma pausa e refletir, orientam os analistas. “Se foi identificado algum problema a dica é parar tudo para evitar custos maiores”, orienta Gutierrez, da IDC. No entanto, caso alguns gestores cheguem à conclusão de que SOA está dando errado porque tem gerado aparentemente mais investimentos e demandado mais tempo de trabalho, a empresa deve entrar em alerta: não necessariamente o projeto está errado.

“Imprevistos acontecem e não são situações como essas que indicam o diagnóstico de um erro, como aconteceria por exemplo, com a identificação de problemas de  padronização ou consistência”, complementa. Segundo ele, para evitar dores de cabeça futuras em projetos de SOA, não existe compêndio melhor do que a tradicional frase: mais vale prevenir do que remediar.

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