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Energia produtiva

Impulsionado pela onda do biocombustível, segmento sucroalcooleiro investe em tecnologia para ganhar controle da produção e diferenciação no mercado global

Cláudia Zucare Boscoli

24/09/2007 às 12h42

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Ao contrário do que apostaram alguns, a bolha do etanol não explodiu. Mesmo com as baixas atuais no preço do açúcar e com o dólar comprometendo as exportações, as previsões mantiveram-se otimistas. Motivada pelo potencial brasileiro de produção e pela alta histórica do petróleo, além da pressão feita pela onda verde contra o aquecimento global, a União Canavieira do Estado de São Paulo (Única), principal entidade do segmento sucroalcooleiro do País, confirmou a estimativa de crescimento de 79% até 2012 – uma média de 10% ao ano que deixa para trás qualquer suspeita de especulação.
 Para a tecnologia da informação (TI), que vem dando suporte a esta expansão, o panorama é ainda mais animador. O segmento sucroalcooleiro responde, sozinho, por 40% de todo investimento feito em TI pelo agronegócio. Dado que 30% do Produto Interno Bruto (PIB) vêm do setor e que ele, em sua totalidade, só consome 2% da produção de TI do País, é de supor que exista um déficit considerável e, conseqüentemente, muito espaço a ocupar. 
 "Apesar de o Brasil ser há tempos um dos principais atores na maioria das culturas, há uma demanda reprimida do campo por softwares de gestão", diz o analista da Ernst & Young Renato Gennaro. César Alves, da consultoria Trust, vai na mesma linha. "O segmento sucroalcooleiro tem atraso tecnológico. Foi a última vertical do agronegócio a adotar tecnologia de ponta". 
 Na visão dos especialistas, o avanço da TI nas usinas de cana se deve, em grande parte, à vinda dos players estrangeiros e à entrada de algumas usinas no mercado de ações. "Quem não se modernizou, terá que se modernizar, seja por uma questão de competitividade ou apenas para que consiga ser vendido por um preço melhor", acredita Alves. Gennaro acredita que o cenário é um sinal dos tempos. Para ele, o País vive uma "revolução tecnológica" no campo, mas ainda existem paradigmas a serem quebrados. "TI como ferramenta de gestão já está no radar, mas não na agenda dos usineiros. Ainda é forte a crença equivocada de que se o investimento fosse para o maquinário, o retorno seria maior e mais visível".
 O CIO das Usinas Itamarati, Wantuil Mascarenhas, confirma que a demanda tem sido motivada pela concorrência. "A tendência é que os grandes grupos se fundam, gerando conglomerados. E a integração depende de TI, da padronização de processos e sistemas legados", conclui. A Itamarati, localizada no Mato Grosso, possui cerca de 60 mil hectares de área e capacidade de processar 6,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Atualmente, encontra-se na fase final de implantação de um sistema de gestão empresarial SAP. "Estamos crescendo e precisamos melhorar o nível de gerenciamento dos projetos e implantar padrões internacionais como Cobit e ITIL. O objetivo é conseguir credibilidade junto a credores e investidores", explica.
 Para Alves, a tendência deve se manter ao menos pelos próximos dois anos. "É uma corrida pré-fusão. A tecnologia se tornou fundamental. O empresário que diz que ela não é importante para o negócio vai ser engolido naturalmente", prega.

Do campo à indústria
 A Usina São Martinho, uma das mais automatizadas do País, usa a tecnologia da informação desde a colheita. "Temos um software específico, com todo o levantamento de nossa área plantada, que indica qual o melhor ponto para começar o corte", diz o gerente de TI Ediclaudio Fiori. Ele explica que a melhor colheita significa o máximo de maturação da cana, o que fornecerá o máximo de sacarose. "Cana é como fruta, fica madura apenas um pequeno período. Temos que realizar cortes no começo, no meio e no final da safra para garantir um maior rendimento", completa o diretor financeiro João Carvalho do Val.
 Logo depois, entra em cena um aplicativo de logística. "Confrontamos a capacidade da indústria e a capacidade da frota com os indicativos que temos da colheita. Ele monitora todo o caminho da cana, desde a autorização para o corte. Temos que entregar o máximo de matéria-prima no menor tempo, com o mínimo de viagens", diz Fiori. Os dois softwares usados, de colheita e transporte, são da empresa Próxima.

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 A partir do momento em que a cana chega à indústria para o processamento, o controle se dá via SAP. Inclusive, a São Martinho foi pioneira na adoção desta solução. Em 1997, adquiriu o pacote, com o intuito de reduzir custos com o mapeamento de processos administrativos, financeiros e de suprimentos. Dez anos depois, a usina se encontra no estágio mais avançado do programa, a versão 47 Enterprise.
 Além da usina de mesmo nome, o Grupo São Martinho é dono da Iracema e da Santa Luísa (esta última em sociedade com Cosan e Santa Cruz), todas no interior de São Paulo, somando mais de 100 mil hectares plantados. A Boa Vista, uma última aquisição, entra em funcionamento em 2008 e é uma parceria com a Mitsubishi Corporation, que possui 10% do capital e levará um terço do álcool etílico processado dali para o Japão. E, para atendê-la, o departamento de TI já recebeu um pedido bem particular. Para ser consumido no Japão, o produto deverá ter rastreabilidade. "Os japoneses são como os europeus, têm receio dos produtos transgênicos. No Brasil, não temos cana transgênica, pelo menos por enquanto, e já temos que enviar relatórios dizendo de onde veio a cana, de que canavial, como ela foi tratada, com que adubo, com que herbicida, quando ela foi cortada etc", diz do Val.
 Ao todo, a produção do grupo ultrapassa os 10 milhões de toneladas de cana, com previsão de dobrar o montante em seis anos e meio. "O mercado de etanol interno e externo explica esse crescimento. Se o Brasil crescer 50% em cana em seis anos, temos que ser mais rápidos e crescer 100%", diz o CFO. Em 2006, etanol e açúcar dividiram meio a meio a produção do grupo. Para este ano, expectativa é que o álcool combustível fique com 55%.
 O próximo passo no São Martinho será o investimento em GPS (global positioning system) e GIS (geographic information system) para que a agricultura de precisão possa ser aplicada ainda antes da colheita, na plantação. "Estamos com um projeto piloto em andamento e vai ser muito útil ter imagens georeferenciadas para uma correta preparação e utilização do solo", afirma Fiori.

Outsourcing
 Outra novidade para o campo é a opção da terceirização. E ela também encontra resistências. "Enxergo dois mundos. O dos players tradicionais, que cresceram no segmento e para os quais o convencimento é mais difícil, e os players da nova economia, aqueles que visam 'surfar' nesta onda e buscam puramente o retorno do investimento", diz Gennaro. Alves também concorda neste ponto. "O empresário brasileiro não tem essa cultura. Ele não quer um data center longe, talvez na Índia. Ele quer servidores ali do lado. Mas isto deve se alterar com o tempo", prevê.
 A Itamarati é uma que já aposta em outsourcing. Toda a parte de telecomunicação e manutenção de hardware fica a cargo de empresas parceiras e, recentemente, a usina fechou a migração de seus servidores para um data center da Brasil Telecom em Brasília. "As novas tecnologias saem do forno freqüentemente e a área de TI interna não tem condições de absorvê-las na velocidade em que as empresas especializadas têm", defende Mascarenhas.

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