Home > Gestão

Um outro ritmo

Líderes de tecnologia de empresas estatais enfrentam o desafio de adaptar o dinamismo da área de TI às características específicas do segmento. E sempre buscar a inovação

Thais Aline Cerioni

10/09/2007 às 12h30

Foto:

“Aqui a gente não pode dizer ‘eu quero’, testar e adquirir. Nossa busca tem de ter, sempre, um horizonte de médio ou longo prazo”, declara Fernando Menezes, superintendente de tecnologia da informação da Sabesp. A colocação do executivo consiste em uma das principais dores dos líderes de TI de companhias estatais, presas a processos licitatórios para qualquer compra que se faça necessária. “Estamos ainda presos a alguns paradigmas que estão ligados a momentos em que tínhamos outros referenciais”, avalia Luis Gustavo Loyola, Superintendente Corporativo de Tecnologia da Informação do Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), citando como exemplo a necessidade de se manter uma publicação por 15 dias no Diário Oficial. “Isto era exigido para garantir que o máximo de pessoas tivesse acesso à informação. Mas quando não havia a internet”, explica.
Alberto Wajzenberg, superintendente de organização e informática de Furnas, convive diariamente com os prejuízos dessas amarras. “Aqui temos um desafio muito grande que é a falta de ERP. Construir uma operação de negócios que usa TI e que não tenha um sistema integrado de gestão é muito difícil”, diz o executivo, explicando que está no terceiro processo licitatório para adquirir o aplicativo. “Também por isso temos um legado gigantesco, o que dá menos flexibilidade e produtividade.”
Além da necessidade de licitação – que reduz as ambições dessas empresas em busca de agilidade –, Loyola pontua outras questões que tornam o dia-a-dia de TI ainda mais complexo no setor governamental, como o fato de a tecnologia não ser encarada como investimento (mas como custo) e, principalmente, a questão da contratação e retenção de profissionais capacitados. “Temos de ter equilíbrio para ter uma força de trabalho adequada, já que não é possível contratar e descontratar de acordo com a necessidade do projeto”, destaca.  Outro desafio que surge em relação à equipe de TI no segmento é o turn over, causado principalmente pelo aspecto salarial. “Alguém com dois anos de Serpro pode atingir uma experiência que possibilita ter um salário muito bom no mercado, que não consigo atingir aqui dentro”, explica Loyola.
As dificuldades, no entanto, impulsionam a criatividade e a perspicácia dos profissionais do segmento. Wajzenberg, de Furnas, destaca a velocidade com que novas tecnologias são lançadas e lembra que, mais que em outros setores, os CIOs de governo têm de estar muito atentos às reais necessidades da companhia. “Existem lançamentos que são como o botão de eject no controle remoto: não servem para nada”, concorda Loyola, do Serpro. Na Sabesp, a solução para encarar o problema foi a criação de uma equipe multidisciplinar dedicada à observação das tendências tecnológicas e o impacto nos negócios. “Apesar das dificuldades, acredito que estamos bem posicionados nesse sentido”, avalia Menezes, explicando que a opção da companhia é, na maioria das vezes, usar tecnologias consolidadas.
Identificar, entre as tecnologias disponíveis, aquelas que têm o potencial de melhorar os negócios da corporação é preocupação unânime entre líderes de tecnologia – e perceber que os CIOs das empresas estatais participam dessa tendência é mais uma prova de que, apesar das diferenças, esses profissionais são tão cobrados quanto os do setor privado pelo desenvolvimento da visão de negócios. “Certamente, entender o negócio e apresentar soluções e avanços é um de nossos principais desafios”, afirma Donizetti Victor Rodrigues, coordenador de infra-estrutura tecnológica e segurança da informação da Receita Federal.
Menezes, da Sabesp, considera-se um homem de negócios e garante que a companhia vem trabalhando para que não apenas o CIO assuma esta postura, mas que leve esta visão até o terceiro nível de profissionais do departamento de TI. “Este é um desafio permanente para os líderes. A tecnologia é muito atrativa e temos de trabalhar para que o pessoal que tem formação técnica tenha uma visão mais ampla do negocio”, avalia o superintendente.
A visão de negócios faz-se necessária porque, mesmo nas corporações em que TI não é core, a maior parte das iniciativas esbarra, em algum momento, na tecnologia. “Não sei se felizmente ou infelizmente, mas tudo acaba passando por nós. Se não correspondemos do lado de cá, a empresa não consegue fazer o bom atendimento do lado de lá”, pontua o executivo da Sabesp, explicando que os principais projetos de sua equipe neste momento são os ligados à melhora da qualidade do atendimento ao cliente final. Na Receita Federal, a preocupação com o cliente final – ou seja, o cidadão – também dá o tom às iniciativas de TI. “A prestação de serviços de excelência, utilizando a melhor tecnologia, oferecendo comodidade e preservando a segurança, é um ponto de destaque”, garante Rodrigues.
A integridade e confiabilidade das informações ganha status entre as prioridades de Loyola, do Serpro. Em sua opinião, o foco das iniciativas em busca de segurança deve concentrar-se na informação, e não nos dispositivos. “Ate há uns cinco anos, tínhamos a proibição comprar desktop com gravador de CD. Hoje existe pen drive, wi-fi, bluetooth. Virou um emaranhado de coisas que se formos tentar controlar, acabamos nos perdendo”, exemplifica. “A solução não é não dar o dispositivo móvel, mas saber como usar esses recursos que dão flexibilidade ao usuário, mas sem esquecer a segurança.”

Junte-se a nós e receba nossas melhores histórias de tecnologia. Newsletter Newsletter por e-mail