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Reações em cadeia

Como a aproximação das áreas de negócio e o conceito de SOA têm ajudado as empresas a reduzir custos e aumentar a eficiência operacional

Cláudia Zucare Boscoli

23/07/2007 às 13h29

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Uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudo de Logística do Coppead, Instituto de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CEL/Coppead/UFRJ) com 111 CEOs das mil maiores empresas de 14 diferentes setores da economia constatou que 74% deles consideram a tecnologia da informação o quesito primordial para a cadeia produtiva, deixando para trás a gestão de terceiros e de risco.
Se não é novidade que a TI é parte fundamental do modelo moderno de produção –  o qual pede eficiência nas operações, estoques menores (ou até inexistentes) e menos mão-de-obra –, surpreende o fato de tantas empresas ainda não terem infra-estrutura e sistemas preparados para apoiar os processos da cadeia de suprimentos. Para Cesar Lavalle, pesquisador do Cel/Coppead, duas tendências explicam o resultado: a disseminação das boas práticas de governança e o conceito de arquitetura orientada a serviços (SOA).
 "Até aqui, as empresas seguiam sem uma área ter noção do que a outra podia fazer por ela. A partir do momento em que estratégias são traçadas em conjunto, os resultados se tornam mais visíveis e há uma mudança de postura", avalia, ressaltando que as aquisições de softwares e novas tecnologias devem obedecer à estratégia definida para toda a corporação. "Cada empresa tem uma necessidade. Não é preciso sair comprando produtos como numa prateleira de supermercado. Mesmo porque, muitas vezes, o problema maior nem é a falta de instrumentos, mas de organização”.
Seguindo esta linha de raciocínio, o pesquisador aposta que, também na área de gestão de supply chain, SOA será o grande tema daqui para frente. “Vejo relevância principalmente para o varejo, que exige constantes mudanças", diz. A arquitetura orientada a serviços, com sua estrutura componentizada, confere mais flexibilidade à área de TI, que ganha agilidade. Além disso, a integração de sistemas torna-se mais simples, combatendo os prejuízos causados pela integração tipo espaguete, aquela feita à base do "jeitinho".
As previsões do Gartner para 2007 confirmam que supply chain será um dos grandes temas na agenda dos CIOs ao longo deste ano. Pelas conclusões do instituto, ter um desenho da cadeia de suprimentos que possa ser modificado e adaptado rapidamente será cada vez mais importante, tornando-se mais relevante até que a agilidade nas entregas em si. Além disso, as companhias terão de estar prontas para controlar mais de três diferentes cadeias, de acordo com os produtos em questão e as exigências dos clientes. 
Vice-presidente da AMR Research especializado no tema, o americano John Fontanella faz coro. “Trabalhar com supply chain é lidar com incertezas. Quão bem elas são gerenciadas torna-se o divisor de águas", acredita. “Para o CEO, a redução de custos é tudo o que interessa. As outras cabeças é que deverão encontrar o caminho, sem esquecer que este é um mundo complexo, com uma infinidade de regulamentações e responsabilidades surgindo sem parar”, diz, referindo-se a boas práticas e leis como a Sarbanes-Oxley (SOX) e Basiléia, de controle de riscos para empresas com ações na Bolsa de Nova York e instituições financeiras, respectivamente. “Nos Estados Unidos e aqui, penso, acontece a mesma coisa. As finanças são o grande entrave para tudo. As pessoas só querem saber de cortar gastos imediatos. Não conseguem pensar no longo prazo. Um investimento feito hoje pode representar maior lucro amanhã. Nas pesquisas que coordeno, fica muito clara a relação entre crescimento das vendas e a correta administração da cadeia de suprimentos”.
 
O casamento perfeito
Maior empresa tabagista do País, que responde por 22% do total de 32% das exportações de fumo brasileiro, a Souza Cruz redesenhou toda a sua estratégia logística graças a uma integração mais organizada entre as diferentes tecnologias que faz uso: WMS (warehouse management system), RFID (identificação por radiofreqüência), handhelds e conexão bluetooth.

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 Diariamente, a companhia produz 340 milhões de cigarros e emite 40 mil notas fiscais. Sua frota corresponde a 1,8 mil veículos que levam os produtos dos 34 centros de distribuição para os mais de 200 mil pontos de varejo espalhados pelo País. Cada ação, claro, corresponde a um registro no sistema. Ao finalizar uma venda, o vendedor usa seu handheld para passar o pedido à central, graças à comunicação via bluetooth com um celular. Após a transmissão, os dados são processados e, imediatamente, o serviço de roteirização é acionado, selecionando o melhor trajeto para a entrega que será feita no dia seguinte. O resultado leva em consideração condições de asfalto, clima, tráfego, horários de pico, segurança etc. Com a rota traçada, o pedido é repassado à pré-separação, onde os funcionários contam com o auxílio do RFID para facilitar a contagem. Selecionado, o pedido é, então, enviado aos veículos, de acordo com o itinerário de cada um e a capacidade de carga. Por fim, a central emite ao cliente, via web, a prestação de contas (recibos, faturas e descrições).
 Outra iniciativa de sucesso foi colocar um motorista/entregador e um vendedor em cada veículo para conferir mais agilidade ao processo. “Enquanto o entregador descarrega o veículo, o vendedor checa como está a apresentação do produto nos pontos de venda, faz relacionamento e acaba agindo também como um promotor da marca”, explica o gerente de desenvolvimento de logística, Eduardo Magalhães. Ele revela que, no princípio, dois problemas foram enfrentados pela tabagista: falha de segurança nas transmissões de pedido e resistência dos funcionários ao trabalho em dupla. “Eram muitos chamados ao help desk porque os vendedores não conseguiam passar seus pedidos. Além disso, tivemos que desenvolver o senso de equipe dentro da organização”, conta. Com passagem anterior pela área de TI, Magalhães diz que o entendimento os profissionais da área para aperfeiçoar a conexão foi rápido. Já a questão cultural levou um pouco mais de tempo para se resolver e só os resultados práticos venceram a resistência. Em dupla, cada funcionário passou a fazer três visitas a mais por dia, o que representa mais porcentagem sobre a venda.

Comando de voz já é realidade
Se em gestão um caso exemplar é o da Souza Cruz, em novas tecnologias o Carrefour sai à frente, como a primeira empresa brasileira a fazer uso do Voice-Directed Work, programa usado no maior centro de distribuição do hipermercado, que fica em Osasco, São Paulo. Dona de 135 lojas espalhadas em 14 estados (com 50% das entregas só em São Paulo), a marca francesa prepara e movimenta mais de 170 mil caixas por dia. Destas, as que saem de Osasco têm a separação dos produtos (picking) feita por comando de voz. “Aumentamos a produtividade e otimizamos a operação. O funcionário usa um fone de ouvido com microfone, ficando com as duas mãos livres para trabalhar”, afirma Leandro D’Andrea Furtado, gerente de projetos logísticos do Carrefour.
Mais uma vantagem é que o sistema reconhece palavras do vocabulário comum, ou seja, qualquer um pode fazer o serviço, dispensando treinamentos. “Ele funciona até num ambiente barulhento, como uma fábrica. O funcionário recebe a informação do sistema, vai até o local certo do estoque, confirma os dados da etiqueta pelo microfone e pega o que precisa”, explica. Todo o diálogo entre o separador e o WMS é registrado na central, exatamente como acontece com os processos que envolvem rádio freqüência.

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Numa comparação realizada pela empresa, um mesmo funcionário realizou duas diferentes separações de uma mesma lista de itens, uma por rádio freqüência e outra por voice-picking. O resultado foi uma economia de tempo de 35% usando o comando de voz. “É um produto mais caro, que ainda não dá para ser adotado em larga escala. Mas, como economiza treinamento, é vantajoso no longo prazo”, diz Furtado. A confiabilidade do programa, garante, é de 99,9%.

Para todos os tamanhos
Mas não apenas para gigantes mundiais que as vantagens da TI aplicada à logística são mensuráveis. Empresa mineira que há 35 anos faz transporte de carga seca fracionada, ou seja, de caixas fechadas e até de embalagens unitárias pequenas, a Patrus fez seu nome garantindo a entrega em qualquer ponto do País em 24 ou, no máximo, 48 horas, sempre atendendo às exigências mais particulares de cada cliente. “Digo que fazemos um serviço personalizado, porque cada um quer a entrega de um jeito. Um quer determinado tipo de veículo, outro quer escolher o ano da frota, outro quer receber arquivos de cobrança e recibos em certa extensão e não em outra, e assim por diante. Tenho clientes que acessam nosso site e acompanham via web o pedido. Mas também tenho os que querem ter nosso programa instalado no próprio servidor”, exemplifica o CIO, Paulo César de Souza. Ele revela que, apesar de sua equipe se resumir a 14 funcionários encarregados das demandas internas e externas, já coleciona 300 tipos de formulários pré-disponíveis, tamanha a quantidade de pedidos diferentes que recebe.
Para garantir tal maleabilidade com rapidez, a primeira providência da Patrus foi instalar um WMS que facilitasse o cruzamento de dados. "Fazemos as buscas a partir de qualquer informação, seja data de chegada, procedência, lote, vencimento, produto, fabricante". Depois, a transportadora adotou um roteirizador. “Ele nos dá o melhor caminho em termos de segurança e também em economia de tempo, combustível e manutenção do veículo". Mas admite: não é um software barato. O retorno foi garantido porque a transportadora teve uma redução de três a cinco caminhões em circulação por dia, graças às informações exatas sobre o tanto de carga que cada veículo pode levar. Na conta, menos combustível e desgaste dos veículos é igual a mais lucro.
Outras tecnologias, como GPS (global positioning system) e RFID, são descartadas pelo CIO. “O investimento não se justifica para o nosso negócio. Nosso cliente não precisa acompanhar na sua tela cada segundo do trajeto. Ele quer ser informado quando o produto sai, quando está próximo e quando chega. Também não temos estoques, temos apenas locais para carregamento de circulação rápida, o que dispensa o RFID”. O que Souza lamenta é ainda não ter encontrado no mercado um software capaz de integrar com sucesso o ERP e o sistema de supply chain da Patrus. “Acabamos adquirindo o que chega mais próximo das nossas necessidades e adaptando por aqui mesmo”, reclama.
Não só a Patrus dispensa o RFID. Ainda muito cara, a tecnologia só é justificada para empresas com grandes estoques manejados. “A indústria automobilística, por exemplo, sempre usou. Ainda é impensável para produtos de consumo, mas acredito que, um dia, faremos compras no supermercado e, assim que colocarmos um produto no carrinho, a etiqueta transmitirá o preço para o caixa automaticamente”, aposta Lavalle, da UFRJ. O americano Mark Miller, gerente de marketing da Vocollect, segue a mesma linha: “Os gigantes da indústria estão usando e temos que olhar para eles para entender as tecnologias que, daqui um tempo, ficarão mais baratas e se disseminarão”.
Quem entende do assunto também garante que a interface Excel nunca será ultrapassada, pelo menos nos programas destinados a logística. “Todos os softwares estão sendo adaptados ao Excel, esta é a verdade. Achávamos que seria o oposto, mas não. Isto tem uma explicação muito simples. As pessoas já conhecem, sabem mexer, não precisam passar por um novo treinamento”, avalia Lavalle.

Terceirização como saída
Entre as maiores dificuldades encaradas pelas empresas atualmente está a gestão de uma cadeia grande de players. Porém, quando bem administrada, pode ser a solução para reduzir o desgaste com assuntos que não dizem respeito à principal atividade da corporação. A General Motors, por exemplo, terceirizou totalmente seu estoque em Gravataí, no Rio Grande do Sul. Além de foco, a montadora buscava mais espaço físico dentro da planta, que antes abrigava um armazém. Com a contratação da Ceva Logistics, antiga TNT Logistics, ganhou um depósito de 13 mil metros quadrados (construído pela Ceva exclusivamente para a GM), de onde saem e chegam diariamente peças controladas por um sistema WMS, com registros ordenados por rádio freqüência. “Qualquer carregamento é imediatamente identificado com um código de barras, que corresponde a um arquivo no qual constam todas as informações necessárias, como número da nota fiscal, data de entrega, quantidade, procedência”, explica Paulo Oppermann, gerente do projeto na Ceva. De lá até a linha de montagem, são 500 metros percorridos de carreto. O WMS também avisa, com antecedência, quando os estoques estão perto do fim. “Num processo de manufatura complexo como este, você precisa de uma seqüência, tem de haver rastreabilidade dos produtos para que nada saia errado, nada falte”, enfatiza.
Funcionando desde setembro de 2006, o armazém vem apresentando bons resultados: “Nosso indicativo é o cliente satisfeito", diz. Outra inovação é que a Ceva montou no mesmo espaço uma pequena linha de produção, onde são montados os componentes básicos do motor – uma maneira de agregar valor ao serviço e fidelizar o cliente.

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TI para coibir o roubo de cargas
Quando se fala em cadeia de suprimentos, um tema recorrente é o roubo de cargas, que chega a ameaçar até a saúde pública quando os produtos em questão são alimentos ou medicamentos que pedem obediência a regras de armazenamento e prazo de consumo. Para coibir o roubo e, mais do que isso, diminuir os prejuízos à marca que o uso inadequado dos remédios pode causar, a Roche lançou mão do uso da tecnologia. Agora, cada caixa de Herceptin, MabThera e Xeloda (para tratamento de oncologia e hematologia) vem com um código único, uma espécie de RG, além do número de lote. Com o código em mãos, os responsáveis por drogarias, hospitais e centros de distribuição podem entrar no site da indústria e consultar se o medicamento foi devidamente entregue em seu destino. Caso contrário, fica o registro de que o produto foi roubado ou perdido e, portanto, sua eficácia não é 100% garantida. A técnica também pretende inibir falsificadores.
 “Sabemos que acabar com estes crimes é difícil, mas acreditamos que vamos, ao menos, coibi-los”, diz o gerente de distribuição e serviços ao cliente da Roche, Fabio Bellucio. Ele conta que o RG das caixas foi o melhor custo-benefício entre as alternativas possíveis. “Chegamos a cogitar o RFID, mas abandonamos diante do preço. Precisaríamos de uma etiqueta ativa com comunicação via celular ou via satélite, o que seria inviável”. O investimento feito, revela, representa apenas 10% do que a farmacêutica gastou em 2006 com danos provenientes de roubo e falsificação. “Acreditamos que, até o fim deste ano, iremos ter 50% de economia", aposta. O projeto, nascido no Brasil, foi tão bem recebido que já está sendo exportado para a Argentina e, em breve, deve constar de mais remédios da marca.

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