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Introdução à Web 2.0

Em linguagem simples e direta, este tutorial te ajudará a distinguir os fatos do hype

Esther Schindler

11/06/2007 às 20h25

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Não é fácil ignorar buzzwords de tecnologia. Mesmo quando o assunto é digno de mérito, máquinas de hype entram em ação rapidamente, tornando difícil distinguir entre a moda passageira e a promessa original. Profissionais de relações públicas, ansiosos para associar seu novo produto a uma “nova tecnologia quente”, apropriam-se do termo mesmo quando ele não se aplica realmente. Artigos em publicações especializadas sentenciam que a nova tecnologia mudará para sempre a face da computação. Você até começa a esperar que um dia algum bebê será batizado com o nome da tecnologia ou ela acabará sendo culpada pelo aquecimento global.
O fenômeno certamente é observado na família de tecnologias e serviços reunidos sob o “guarda-chuva” Web 2.0. Este artigo resume os pontos principais com o objetivo de esclarecer o que é — e o que não é — Web 2.0 para que você possa utilizá-la em benefício do seu negócio.

Por que a Web 2.0 é tão importante?
Vamos começar com a visão macro. Para muitos, a Web 2.0 representa uma grande mudança de paradigma da computação, já que a própria Internet se torna a plataforma de computação. Uma aplicação Web 2.0 “genuína” seria indistinguível de uma aplicação desktop. Como um programa desktop, a aplicação Web 2.0 teria feedback imediato e atualizaria informação sem uma renovação deliberada. Neste contexto, às vezes você verá tais aplicações sendo chamadas de RIAs (Rich Internet Applications).
Mas a Web 2.0 não pretende ser uma substituta direta das aplicações normalmente  usadas no desktop. A nova geração de aplicações, que roda principalmente em servidores de Internet e intranets de empresas, é dinâmica (o conteúdo é atualizado automaticamente) e colaborativa (alimenta-se de informação de múltiplas fontes e da contribuição de usuários), tem escopo abrangente (atrai nichos menores da comunidade, não apenas a audiência mais ampla) e, ainda por cima, é simples e intuitiva.
Talvez seja útil traçar uma linha divisória entre as tecnologias de desenvolvimento de software associadas à Web 2.0 e a funcionalidade que os usuários obtêm com elas. As tecnologias são, simplesmente, ferramentas que permitem aos programadores criar um website que aprimora a experiência do usuário. Se os programadores conseguirem atingir a mesma meta utilizando uma “velha” tecnologia, não deixa de ser um “site Web 2.0”.
Não vou inundar você com referências para leitura adicional, já que veio até aqui para ter uma visão geral, mas acho importante dar uma olhada na definição básica da Web 2.0, pelo menos sob o ponto de vista de uma das pessoas que cunharam este termo e definiram a Web 2.0 como “o novo senso comum”.
Em What Is Web 2.0, Tim O'Reilly, fundador e CEO da O'Reilly Media, explica seus princípios e suas práticas. Recentemente, ele disse que “a Web 2.0 é, em última instância, um ponto de virada, não um ponto de partida. E gira em torno de modelos de negócio e de índices de adoção social, tanto quanto de tecnologia”.

Quais são as tecnologias Web 2.0?
Para muitos gerentes, a surpresa maior é que a Web 2.0 não se baseia em uma tecnologia nova, recém-inventada, mas em uma reembalagem inteligente de tecnologias antigas, associadas a um “Aha!” de satisfação.
Este “Aha!” foi exclamado pela primeira vez por Jesse James Garrett em fevereiro de 2005 e imortalizado online em seu ensaio “Ajax: A New Approach to Web Applications”. Neste ensaio, Garrett explicou que Ajax (acrônimo de asynchronous JavaScript and XML, ou JavaScript e XML assíncronos), uma coleção de técnicas de desenvolvimento para web, era uma maneira de criar aplicações web interativas.

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Provavelmente você já está um pouco familiarizado com cada um destes componentes, pelo menos o suficiente para aquiescer com a cabeça quando sua equipe de desenvolvimento os menciona. (Caso contrário, está na hora de fazer um curso rápido de atualização, que não daremos aqui.) CSS e HTML (ou XHTML) são usadas para controlar a apresentação de dados em uma página da web.
A linguagem de scripting do lado do cliente, em geral JavaScript ou JScript, dinamicamente exibe e interage com a informação apresentada. A chave é o objeto JavaScript XMLHttpRequest, que possibilita que os desenvolvedores façam uma página trocar dados de forma assíncrona com o servidor web. (Alguns frameworks Ajax empregam um objeto IFrame ao invés de um XMLHttpRequest, mas não se deixe confundir – o objetivo é o mesmo.) Na função de gerente, você não precisa conhecer as entranhas do XMLHttpRequest; o importante é entender que ele permite que uma página mantenha os dados sincronizados com a informação armazenada em um servidor da empresa, utilizando um Web service do parceiro de negócio ou através de qualquer entidade online pública que disponibilize a informação.
Em geral, os dados são armazenados e trocados em XML, freqüentemente junto com Web services. Outros formatos de troca de dados vão funcionar contanto que suportem alguma forma de scripting do lado do servidor.
Os desenvolvedores podem trabalhar com Ajax ou outras ferramentas de desenvolvimento para web através da força bruta. Ou usar um número cada vez maior de ferramentas e frameworks que lhes permitem acrescentar recursos Web 2.0 ao ambiente de desenvolvimento existente. É provável que as ferramentas de desenvolvimento utilizadas em sua empresa já sejam suportadas.
Outro elemento do esquema de desenvolvimento Web 2.0 é o uso de application program interfaces (APIs) abertas. O código subjacente talvez não seja open source em qualquer acepção verdadeira deste termo, mas as APIs fornecem acesso às dinâmicas de sistemas e aos dados subjacentes de um site. É isso que possibilita que um desenvolvedor crie, por exemplo, uma visão única dos dados de vendas de um livro. Ele pode explorar Amazon Web Services via API associada.
Se estas tecnologias lhe soam novas e você vem de uma era mais antiga de processamento de dados, talvez se sinta mais confortável com outra visualização. Pense na Web 2.0 nos velhos termos do UNIX -- pipes e redirects conectando a saída de um grande número de processos e ferramentas menores  -- e na web como uma coleção gigantesca de shell scripts, digamos.
Está até parecendo uma aula sobre técnicas ministrada a programadores. Se você não lida pessoalmente com desenvolvimento de software, talvez esteja começando a perder a concentração. Não tenha medo: não usaremos mais linguagem de programador. A Web 2.0 não se define realmente pelo uso de Ajax. O mais importante é o que ela possibilita que você realize.

O que estas tecnologias permitem que você faça?
Ajax é a chave de fenda que os programadores utilizam para adicionar determinados comportamentos a um website. Os elementos comuns que ajudam a definir um site como Web 2.0 — pelo menos superficialmente — incluem mashups, feeds de dados em tempo real, tagging, conteúdo gerado pelo usuário e compartilhamento de recursos.

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Mashup é um termo relativamente novo para uma função da web que existe há algum tempo: agregar elementos de várias fontes online em uma única página. Se sua homepage pessoal inclui automaticamente um quadro com a previsão de tempo local, tecnicamente seu site é um mashup (embora um tanto tosco).
Em geral, porém, os mashups se destinam a ser um elemento essencial do valor do site, não um adendo conveniente ou fortuito. Além disso, os mashups combinam dados existentes de uma maneira nova e útil – por exemplo, o Google Maps é conectado a listagens de aluguéis da Craigslist para ajudar um visitante do site a localizar uma nova residência; ou um gráfico associa dados demográficos disponíveis publicamente a códigos de endereçamento postal; ou, ainda, um localizador de restaurantes, usando endereços, é conectado a listagens de restaurantes do Yahoo.
Feeds de dados em tempo real fornecem um fluxo contínuo de informação. Os dados costumam ser de uma fonte externa, como um quadro de texto que muda continuamente para exibir as últimas notícias ou o elemento de um site que vincula às fotos mais populares. Mas o feed de dados também pode mostrar, com igual facilidade, dados corporativos, como o status da versão do software mais recente, o tempo de atividade da rede ou outros recursos tipo dashboard.
Os websites padrões utilizam a estrutura de um designer, chamada de taxonomia, para organizar o modo como a informação é encontrada e exibida em um website. Os sites Web 2.0, ao contrário, costumam usar  tags, que são palavras escolhidas pelo criador do conteúdo para descrever o item. Um usuário pode, por exemplo, classificar a foto como “gato, cola, Boston” para identificar o assunto, a situação ou o lugar da imagem. Ou um blogueiro pode identificar sua entrada com palavras-chave que descrevem um tópico: “política, Academy Awards, Golden Gate”. Os usuários não têm que decidir se o novo conteúdo deve ser classificado em “animais de estimação” ou “turismo”, que podem ter sido as categorias de taxonomia predeterminadas.
Quando funcionam, tags permitem que os usuários organizem dados de maneiras que fazem sentido para eles. Além disso, quase que instantaneamente tornam-se um tipo de feed de dados em tempo real. Os sites Web 2.0, com freqüência, exibem os tags mais populares com um tamanho de fonte indicando a popularidade do tópico (“nuvem de tags”). É uma ótima maneira de descobrir coisas interessantes ou detectar tendências. Como tudo o mais relacionado a pesquisa, porém, tags não são perfeitos, já que se apóiam na escolha, por parte dos usuários, de palavras-chave que outras pessoas vão reconhecer. Se alguém clicar em um tag San Francisco verá automaticamente o item Golden Gate? Este é apenas um exemplo do bom senso que ainda precisa ser desenvolvido.

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O uso de tags levanta outro ponto-chave da Web 2.0, que é a criação de um site baseado em conteúdo gerado pelo usuário. A participação online não é um fenômeno novo -- comunidades virtuais existem desde que os bulletin board services se popularizaram em meados dos anos 80 e empresas como a CompuServe montaram todo o seu negócio em torno de fóruns de discussão criados e mantidos por usuários. Com a Web 2.0, entretanto, as contribuições da comunidade assumem o papel principal e o site existe apenas para criar e servir estas contribuições.
Certamente é o caso do incontável número de sites de compartilhamento de fotos, por exemplo. Se não há pessoas postando fotos do “meu cachorro e eu”, não há nada para ver. Também é o caso das dezenas de websites onde as pessoas compartilham links para artigos e páginas que consideram interessantes.
Antigamente, a interação com o usuário era feita, sobretudo, através da conversa. Com a 2.0, grande parcela da experiência está centrada no compartilhamento de dados (arquivos, música, artigos interessantes, vídeo), de preferência de maneira “remixada”, com “interatividade rica” — expressões intencionalmente vagas e, portanto, sujeitas tanto ao menosprezo quanto à inovação.

Como a Web 2.0 muda a experiência do usuário?
A essência de todos os princípios de tecnologia e design é, obviamente, aprimorar o modo como as pessoas interagem entre si e com seus sistemas de computador. Idealmente, sites Web 2.0 (construídos para uso interno na empresa ou para consumo público) facilitam que as pessoas se conectem e aprendam umas com as outras. O resultado do conteúdo gerado pelo usuário é a “inteligência coletiva”, o bom senso advindo da tomada de decisão em consenso. (Observadores de buzzwords vão se lembrar de quando o festejado termo para isso era “colaboração”.)
Seja para trivialidades como críticas de filmes ou para decisões capazes de transformar o negócio, a vantagem é que as pessoas podem trabalhar e se divertir melhor, e tomar decisões mais inteligentes coletivamente.
Um efeito colateral de uma Rich Internet Application baseada na web, que roda em um servidor hospedado (embora os elementos da interface com o usuário rodem no navegador do cliente), é promover a noção de “software como serviço”. Indiscutivelmente, com estas tecnologias, quer tenham sido criadas para utilização interna ou adquiridas de fornecedores de serviços, fica mais fácil atualizar e manter aplicações, lidar com problemas de segurança e beneficiar-se das capacidades da  arquitetura orientada a serviços (service-oriented architecture -- SOA) em que sua empresa investiu. Os desenvolvedores podem criar aplicações que se apóiam em Web services disponíveis publicamente, tratando a Internet como um sistema operacional planetário.

Como a Web 2.0 pode beneficiar meu negócio?
Aos olhos do observador casual, a Web 2.0 é, basicamente, uma tendência de consumo. Mas é mais difícil identificar os benefícios “óbvios” para as empresas tradicionais.

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Sem dúvida, a Web 2.0 é importante se você está criando um website para compartilhamento de fotos digitais. Também tem implicações para o negócio se você está criando recursos online business-to-consumer, como um site de reserva de hotéis que permite ao usuário mudar dinamicamente os critérios de busca e que incentiva conteúdo gerado pelo usuário, como análises de hotéis. Mas a Web 2.0 é igualmente importante para TI business-to-business.
Nas empresas, a Web 2.0, com freqüência, acaba entrelaçada a SOA e outras tecnologias de Web services. (Veja mais sobre o assunto no tutorial de CIO, “ABC da SOA”.) A chave é associar a flexibilidade da Web 2.0 aos princípios da orientação a serviços: acoplamento frouxo, encapsulamento e reutilização de código.
A Web 2.0 cria mídia rica ao integrar fontes de dados e serviços fornecidos pela Internet (e pela intranet). Isto significa que a Web 2.0 pode atuar como uma interface com o usuário flexível e leve, apoiada em serviços de rede que tomam SOA como base. A interação entre os dois permite que as empresas criem e gerenciem processos de negócio com maior flexibilidade. Os usuários podem criar mashups corporativos ao coletar, montar e compartilhar conteúdo corporativo existente, seja para simplificar os esforços de integração do negócio ou para fornecer portais que monitoram e aprimoram fluxos de transação e informação de sistemas.
Tudo isso se traduz em benefícios para as corporações. Afinal, os mesmo elementos que tornam a Web 2.0 atrativa para consumidores — capacidade de fornecer informação pessoal contextualizada e usar conexões sociais e de comunidades para aprimorar a comunicação — também são importantes no contexto corporativo.

Qual é a linha divisória entre o hype e a promessa?
Uma das primeiras barreiras a superar é o próprio termo. Alguns veteranos mal-humorados (entre os quais às vezes me incluo) acham o termo “Web 2.0” um pouco presunçoso. Por outro lado, alegam os sarcásticos, o verdadeiro ponto distintivo na evolução da web não teria sido quando conteúdo e apresentação foram separados — o que se chamou de cascading style sheets (CSS)? Eles também observaram que cabe à história dizer quando uma indústria evoluiu para outro nível, e o que chamamos de Web 2.0 pode não ser uma mudança suficientemente expressiva no longo prazo.
Ainda assim, Web 2.0 tem algum significado, embora difícil de quantificar, até mesmo para quem cunhou o termo. De acordo com O'Reilly:
Muitas pessoas estão vestindo o manto da Web 2.0 hoje, mas grande parte delas não a entende. Se alguém diz que estava trabalhando com JavaScript e XML (isto é, Ajax), isso não significa que estava trabalhando com Web 2.0. Web 2.0 tem a ver com explorar a Internet como uma plataforma, usando os recursos da rede para aprimorar a aplicação à medida que sua utilização aumenta.
O que quer que seja a Web 2.0, indiscutivelmente, representa o próximo estágio do que será possível fazer com tecnologia.

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