Home > Carreira

CIOs vivem transição para cargos de negócios

Profissionais de TI notaram como a tecnologia pode impulsionar a atuação em novas frentes e por isso adicionam responsabilidades à rotina ou mudam totalmente de área

Luiza Dalmazo*

06/06/2007 às 16h19

Foto:

Os canivetes nasceram com a função básica de ser um objeto de fácil transporte que armazena uma pequena lâmina, para cortes simples. Entretanto, a ferramenta evoluiu de tal maneira que hoje combina funções. Os novos elementos – abridor de garrafas, lixa, chave de fenda, agulha e outros – são às vezes mais usados do que o próprio cortador. No mundo da TI alguns CIOs têm seguido um caminho semelhante.
Com a aproximação do negócio, muitos deixaram de se dedicar exclusivamente à tecnologia e acumulam cargos, assumindo diferentes áreas da empresa. Outros, inclusive, já abandonaram por completo as tarefas de TI.
Dois executivos estão vivendo essa situação. Um deles é Paulo Franceschini, da Ceva Logistics, que há seis meses, além de atuar como CIO da organização no Brasil e Argentina, passou a responder pela operação de logística de 10 clientes, que representam 20% do faturamento total da empresa.
Segundo ele, a mudança não ocorreu por acaso. “Sempre busquei isso e, portanto, direcionei a atuação em TI para a área de negócios”, explica o executivo. Com esse foco, a experiência no cargo foi conduzida em busca de soluções para logística, que gerou um grande conhecimento do setor.
Assim, quando houve uma reestruturação na empresa, Franceschini estava preparado para novas responsabilidades, fora de TI. Segundo ele, isso aconteceu porque a atuação do CIO voltada ao negócio resulta em fluidez para a empresa, pois proporciona ao executivo uma visão global de operações, projetos, o que acaba sendo um diferencial.
O executivo da Ceva acredita que os profissionais de TI que se tornam “multifunção” têm mais chances de chegar ao posto de CEO. “A análise crítica das soluções, o trabalho em equipe e o entendimento amplo do processo da empresa dão elementos para que isso aconteça”, argumenta.

++++

Enquanto Franceschini responde por mais de uma área – ele pretende deixar totalmente a TI em 2008 –, conta que toma um cuidado especial para não parecer que dá privilégios a sua área de negócios entre as prioridades do setor de tecnologia. Como exercício, ele procura reforçar com freqüência para si que toda a companhia depende de tecnologia, e não só os seus clientes.
De forma bastante semelhante, Marcelo Brandão, gerente de projetos e pesquisas da Columbia, traçou seu plano de carreira e hoje divide seu tempo entre funções em TI e negócios.
Depois de atuar com tecnologia na unidade de Curitiba da empresa – especializada na comercialização de produtos para o setor cafeeiro e algodoeiro – o executivo veio para São Paulo e assumiu o departamento de todas as 15 filiais.
Nesse intervalo de quatro anos, em que trouxe projetos da unidade do sul do País para a matriz, pode aproximar a tecnologia dos negócios, o que gerou a oportunidade de assumir a área de logística da empresa.
“Considero que o aprendizado que me rendeu o convite esteve ligado ao entendimento da atividade da companhia, mas principalmente das operações, que são regidas pelas soluções que implementamos”, afirma.
Brandão comenta ainda que, durante a atuação somente com TI, percebeu que a metodologia da condução de um projeto tecnológico e análise de sistemas são as tarefas mais complexas, mas também as que mais contribuem para o crescimento profissional e para o trabalho com o negócio diretamente.
Assim como Franceschini, Brandão conta que sempre planejou sua passagem pelo setor de tecnologia como uma etapa do desenvolvimento profissional. Por isso buscou cursos na área de gestão, já que sua formação é técnica e direcionou o aprendizado.
Segundo ele, o mais importante para isso é sempre pensar TI como uma ferramenta para impulsionar os negócios. “Quem consegue fazer isso e possui o perfil de administrador tem muita chance, inclusive, de ser o CEO”, pontua.
Um passo a frente

++++

Eliane Maria Aere, a Lia, da Ticket Serviços, já passou por essa fase de transição. No começo de 2005, além de diretora de TI, a executiva passou a responder pela área de recursos humanos. Mais adiante, em 2006, deixou a tecnologia para trás e, além do RH, hoje é também a responsável por duas unidades de negócios da companhia: a Ticket Seg, consultoria especializada em benefícios de recursos humanos e da Build Up, parceira da Ticket na administração de pessoas.
Apesar de não receber mais ligações por causa de sistemas que estão com falhas e nem de vivenciar a rotina frenética do setor de TI, Lia diz que sente saudades e que não foi fácil deixar o cargo de CIO. “Tecnologia é envolvente e tem tudo a ver com futuro e presente – é essencial para quem quer progredir, até mesmo como pessoa física”, acredita.
Segundo ela, que esteve em contato com TI nos últimos seis anos, é difícil deixar o segmento, porque é uma área ativa, com muitos eventos, universidades especializadas e veículos direcionados. O que mais a ajudou a crescer, porém, é o modo que se aprende a conviver com um modelo diferente de comunicação, já que os profissionais de TI têm uma forma particular de agir, incomum quando se pensa em executivos de outras divisões, que Lia diz que conhecia bem da área contábil, sua origem.
Depois de deixar o posto de CIO, Lia conta que acredita que o que mais colaborou para sua ocupação atual foi o conhecimento profundo do negócio e seus processos. “Isso é bárbaro em TI, pois a gente passa a entender operações, sistemas, tudo a fundo”, afirma. A executiva também avalia que os profissionais de tecnologia são mais estruturados, porque trabalham em projetos de longo prazo e possuem um olhar sobre várias perspectivas da empresa. Além disso, são pessoas que precisam ter planos alternativos, porque toda a companhia depende deles. “Essas características ensinam o CIO a pensar a frente, com antecedência e a se antecipar às reações”, comenta. Segundo Lia, todas as áreas têm muito a ensinar, mas alguns aspectos de TI são essenciais ao bom executivo de negócios.

++++

Ao contrário de Brandão e Franceschini, a executiva da Ticket não planejou sua carreira dessa forma. A única percepção clara que tinha de carreira é a de que gostaria de conduzir uma unidade de negócios e o caminho surgiu naturalmente “mais por ‘culpa’ do chefe”, como ela mesma diz. Unanimidade, portanto, é que a experiência em TI, se bem aproveitada, pode gerar um candidato em potencial para a área de negócios e até mesmo para o cargo de CEO. A essência do conhecimento adquirido na área de TI é uma lição que eles não esquecem, pois a visão prospectiva, antecipada e planejada, conforme defendem, é fundamental para qualquer bom profissional de negócios.

Estratégia de carreira
A consultora da Fesa Global Recruiters, Karla Alcidez, diz que a iniciativa de acumular funções e migrar para a área de negócios é mais um meio encontrado pelos CIOs para aumentar seus conhecimentos e habilidades do que interesse das empresas. Os empregadores, no entanto, vêem com bons olhos a mudança, porque recebem em diversos setores pessoas que tem uma visão global da companhia.
As áreas em que mais têm chances de atuar, segundo ela, são as de serviços, porque usam a experiência adquirida com projetos. Além disso, Carla acredita que a mudança de foco é uma evolução natural, porque TI deixou de ser suporte e se aproximou de negócios. “Acredito que essas iniciativas de transição são produto do amadurecimento do mercado”, conclui.

*Luiza Dalmazo é repórter do ComputerWorld

Junte-se a nós e receba nossas melhores histórias de tecnologia. Newsletter Newsletter por e-mail