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O lado verde da tecnologia

Conforme cresce a preocupação com a proteção ambiental, aumenta também a pressão por áreas de TI ecologicamente responsáveis

Thais Aline Cerioni

04/05/2007 às 16h30

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Há pouco mais de um mês, o presidente e CEO global da Royal Philips Eletronics, Gerard Kleisterlee, participou de um evento em São Paulo no qual falou para cerca de cem líderes de grandes empresas brasileiras. Durante as quase duas horas de apresentação, o discurso teve um só tema: a importância de empresas e indivíduos tomarem consciência do impacto de seus atos no meio ambiente.
Com o gancho da visita de George W. Bush, no início de março, para discutir a questão dos biocombustíveis com o governo brasileiro, Kleisterlee falou sobre a supremacia local quando o assunto refere-se às fontes alternativas de energia e elogiou a população brasileira por seu espírito de colaboração e consciência em situações de crise, como o "apagão" do início da década. “Um estudo realizado pela Philips mostra que 43% dos consumidores brasileiros estão comprometidos e conscientes sobre a questão da economia de energia”, destacou o executivo.
Ao colocar de lado os interesses comerciais e de marketing que uma fabricante de lâmpadas possa ter em fortalecer a discussão sobre a importância da consciência ecológica e da redução do consumo de energia elétrica, a apresentação de Kleisterlee para uma platéia formada por alguns dos principais empresários do Brasil pode ser vista tanto como um empurrão quanto como um reflexo de uma tendência clara do mercado mundial. Os negócios estão tornando-se cada vez mais “verdes”.
No mundo da tecnologia da informação, a tendência se repete, aparentemente, com ainda mais força que nas demais áreas. E não é para menos. Em seu estudo "Questões-chave para uma TI ecologicamente sustentável", o Gartner toma como base informações como número de PCs e servidores em operação, consumo médio por unidade, emissão média de dióxido de carbono por quilowatt-hora, entre outras, para lançar a estimativa de que servidores e PCs sejam responsáveis, hoje, por cerca de 0,75% da emissões globais de dióxido de carbono. O número cresce rapidamente e surpreende quando comparado ao fato de as companhias aéreas serem responsáveis por aproximadamente 2% das emissões anuais em todo o mundo. Já um estudo da Universidade de Stanford (EUA) aponta que a energia consumida por data centers em todo o mundo dobrou entre 2000 e 2005. Há dois anos, 1,2% da energia consumida nos Estados Unidos foi destinada a manter servidores e equipamentos de rede funcionando.

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A indústria de TI vem respondendo a números como esses com uma avalanche de produtos “ecologicamente corretos” ou que, ao menos, prometem reduzir os danos que causam ao meio ambiente. Também na onda da “TI verde”, foi criado no fim de fevereiro o "The Green Grid", consórcio sem fins lucrativos formado por grandes fornecedores de TI (APC, Dell, HP, IBM, Intel, Microsoft, Sun Microsystems e VMWare, entre outras), que tem como objetivo desenvolver e ampliar a eficiência energética em data centers e ambientes computacionais corporativos.

De olho nas verdinhas
É inegável a necessidade de se abrir os olhos para a situação do planeta, mas dificilmente um acionista irá concordar em fazer grandes investimentos apenas com o objetivo de garantir qualidade de vida para as próximas gerações. O que está por trás da conscientização coletiva repentina é a oportunidade de, além de proteger o meio ambiente, utilizar o ‘selo verde’ como um reforço de marketing – capaz não só de impulsionar as vendas, como de melhorar a imagem da companhia.
Os mesmo objetivos que levaram as fabricantes de tecnologia a partir para uma postura ecologicamente sustentável vêm sendo usados para convencer os CIOs – e, especialmente, seus superiores – a adotar práticas de TI com preocupação ambiental.
O argumento pode funcionar. Independente do impacto ambiental, a eficiência dos data centers é um dos principais assuntos na agenda dos CIOs há algum tempo, especialmente por concentrarem grande parte dos custos de manutenção de tecnologia. O Gartner avalia que grandes corporações, com departamentos de TI também grandes, gastam, em média, 5% de seu orçamento de TI com energia – e prevê que esse número pode duplicar ou triplicar nos próximos cinco anos. Para aumentar a eficiência operacional dos data centers, os executivos de TI podem partir para uma série de iniciativas, como troca do parque de equipamentos (normalmente, dispositivos antigos e/ou de baixo custo consomem mais energia), melhorar a distribuição espacial para reduzir a necessidade de ar-condicionado, investir em virtualização ou adotar softwares para gestão de energia. O desafio ainda consiste em conseguir o budget necessário para tais projetos – já que, na maior parte das empresas, iniciativas cujos resultados têm impacto direto em TI, e não nos negócios, vão para o fim da lista de prioridades.
Na Califórnia (EUA), os CIOs interessados em partir para consolidação e virtualização de seus data centers têm uma aliada na própria empresa de distribuição de energia. A Pacific Gas and Eletric Company anunciou no fim do ano passado um programa em parceria com a fornecedora de soluções de virtualização VMWare e a fabricante de processadores Intel por meio do qual as empresas que consolidam seus data centers conseguem reembolso do capital investido. Os interessados devem se inscrever no programa antes de começar o projeto e o reembolso varia de acordo com volume de economia de energia gerado – não podendo ultrapassar quatro milhões de dólares.
A PGE pode até estar realmente preocupada com o futuro do planeta, mas, certamente, o que levou a empresa a unir-se à Intel e à VMWare neste programa foi o risco que o desperdício de energia pode causar para o seu negócio.  Proibida de criar novas formar de produzir energia na região, a empresa viu-se a ponto de não conseguir atender à demanda de seus clientes. Para não faltar, melhor economizar, certo? Assim surgiu o programa de reembolso.

O poder de TI
No Brasil, os CIOs parecem não estar tão atentos aos gastos com energia quanto norte-americanos e europeus. Talvez pela oferta excessiva e pelo custo ainda não tão alto deste ativo, executivos de TI e negócios concentram esforços em outras áreas antes de começar a pensar em como consumir menos energia. E, quando têm esta preocupação, dificilmente conseguem aprovar o orçamento para tais projetos com o discurso ecológico – a chave é a redução de gastos que a iniciativa (talvez) irá trazer.

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Exceções acontecem em empresas em que a cultura da proteção ambiental já está arraigada e que a ordem para redução do impacto no meio ambiente vem de cima – seja por consciência da alta-diretoria ou por regras legislativas impostas a determinados segmentos. Ou ainda pela mesma razão que vem mudando o discurso de dezenas de fornecedores de tecnologia em todo o mundo: marketing. Afinal, em tempos de Novo Mercado, no qual questões como responsabilidade social e sustentabilidade contam pontos com investidores e podem mudar o valor dos papéis de uma companhia, a preocupação ecológica ‘pega bem’.
Com a discussão sobre o aquecimento global cada vez mais acalorada, as crescentes cobranças da opinião pública por empresas mais comprometidas e o bombardeio de informações sobre a responsabilidade de TI no impacto ao meio ambiente (não se esqueça que os data centers emitem quase tanto dióxido de carbono quanto os aviões e, apenas nos Estados Unidos, consumiram 1,2% da energia gasta no país), mais cedo ou mais tarde os CIOs serão cobrados por seus chefes por uma mudança de postura. Antecipar-se a isto e levantar o tema pode não apenas evitar estresse futuro, como melhorar a imagem de TI perante a companhia. Não que realmente seja verdade que está apenas nas mãos dos CIOs o futuro do planeta – ou sequer a mudança da visão corporativa sobre o assunto. Longe da prepotência, cabe à TI identificar de que forma pode ajudar a companhia a ser mais verde – com a utilização de ferramentas de BI para gestão dos impactos ambientais, sistemas de controle de consumo de energia nos prédios corporativos e sistemas de gestão de ativos para gerenciar o descarte e a reciclagem de equipamentos. Ou ainda, mostrar ao board como a postura ecologicamente correta pode trazer benefícios financeiros para a empresa, com a redução de gastos com energia e papel.

Cabeças verdes
Entretanto, hoje, poucas empresas vêem partir do departamento de tecnologia qualquer iniciativa de proteção ambiental. “Quando parte do board é sempre melhor, você consegue comprometimento maior quando [a decisão] vem do presidente”, garante Teresa Sacchetta, diretora de tecnologia da informação do Fleury Medicina e Saúde. Ela sabe do que está falando. Na instituição, a preocupação ambiental vem de cima e permeia toda a companhia, que é, inclusive, certificada com ISO 14000 (série de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas). “Existe uma preocupação muito grande com isso. Por conseqüência, o assunto faz parte das metas de todos os profissionais da empresa”, explica.
A executiva conta que, em 2006, o objetivo foi a redução do consumo de papel, iniciativa que contou com forte apoio de TI. “Avaliaram alguns processos e perceberam que a informatização reduziria o uso de papel. Conseguimos uma bela economia com isto”, garante Teresa. A gestão eletrônica de documentos, especialmente dos exames de diagnostico por imagem, é outra iniciativa com a meta de diminuir o consumo de papel. “Há, ainda, resistência dos médicos na leitura dos exames, porque eles não estão acostumados a receber em CD. Para incentivar, passamos a oferecer mais imagens em mídia digital que nos filmes.” Finalmente, o Fleury acaba de firmar um contrato com a Simpress/Ricoh para terceirização de impressão, medida que, segundo Teresa, visa a melhorar a gestão do uso de papel. “Poderia ser feito internamente, mas o terceiro é um facilitador”, explica.

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Satisfeito com os resultados alcançados no ano passado – de maio a dezembro de 2006, o consumo de papel foi 10,66% em toneladas e 10,62% em valor, proporcionalmente ao tamanho da operação –, o laboratório foca, agora, a redução do consumo de energia. A área de TI vem colaborando por meio da criação de um manual para os usuários (sobre em que situações deixar o computador e o monitor ligados, por exemplo), utilização de melhores práticas de programação para reduzir o uso de CPU e revisão no data center para controle do uso de ar-condicionado.
Com a meta de reduzir custos operacionais, ganhar agilidade, flexibilidade e aumentar a disponibilidade dos aplicativos – e o benefício secundário da redução do consumo de energia –, o projeto de consolidação e virtualização de servidores reduziu o número de máquinas de 84 para 66. “A meta é chegar a 57”, garante Fadi Hanna, gerente de infra-estrutura de TI do Fleury. Mesmo na instituição com alto nível de preocupação ambiental, o projeto, cujo retorno do investimento deve acontecer em um ano, teve motivações muito mais operacionais que ecológicas. “O principal resultado foi o significativo ganho de agilidade para atender às crescentes demandas de um negócio em constante crescimento. A partir de um padrão pré-determinado, um novo servidor virtual é "criado" em poucos minutos. Antes, a tarefa levava, em média, 30 dias”, comemora.
Negócios muito relacionados ao meio ambiente também impulsionam posturas corporativas mais engajadas e, conseqüentemente, ações de suporte do pessoal de tecnologia da informação. Na Faber Castell, as questões ambientais fazem parte do DNA da empresa, pioneira a plantar suas próprias árvores para fabricação de lápis, na década de 50. A postura responsável reflete nas operações de tecnologia desde a aquisição de produtos até o processo de descarte de hardware obsoletos e resíduos seguindo normas e princípios de não-agressão. “No contexto de TI, existem projetos para consolidação de servidores, sistemas de proteção e recuperação de desastres, racionalização de impressão, o que gera economia de energia elétrica e papel”, detalha José Rodrigues, gerente de informática da Faber Castell. Ele destaca ainda o uso de produtos ecologicamente corretos e utilização de tecnologias "limpas" ou menos poluentes.
“Não existe uma iniciativa formalizada de TI em relação ao assunto. Mas há uma estratégia da empresa em direção ao desenvolvimento sustentável, porque o nosso negócio está calcado nisso”, afirma Mario Dobal, CIO da Aracruz Celulose. Com 3,1 milhões de toneladas de celulose produzida em 2006 e receita líquida de 3,7 bilhões dólares, a Aracruz intitula-se a única empresa no mundo do setor de produtos florestais e papel que integra o Índice Dow Jones de Sustentabilidade (DJSI World) 2007, o qual destaca as melhores práticas em sustentabilidade corporativa, além de ser uma das 34 empresas que compõem o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bovespa.
Apesar da imagem muito ligada à questão ambiental, Dobal garante que, na Aracruz, as ações de TI têm a preocupação com o planeta como pano de fundo. O projeto de consolidação de servidores, por exemplo – que reduziu o número de equipamentos em 30% para chegar a cerca de cem máquinas –, nada teve de “verde”. “O projeto não foi motivado pela questão ambiental, mas pela redução de custos e ganho de desempenho”, confessa. O que não significa que a preocupação seja apenas fachada. O executivo explica que não poluir, não gastar energia em excesso, não agredir o meio ambiente e escolher fornecedores de TI que sigam as mesmas práticas faz parte da visão da companhia há mais de dez anos. “É um assunto da moda, mas, na maioria das empresas, vejo muito pouco no dia-a-dia e dificilmente TI vai resolver esse problema. Quem disser que está fazendo isso só em TI está fazendo jogo de cena. Lógico que tudo ajuda, mas TI é uma gota d’água”, conclui o executivo.

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Use o marketing a seu favor
Na onda do ecologicamente correto, os executivos de TI podem sentir-se afogados com as promessas de redução do impacto ambiental nos mais impensáveis projetos de tecnologia. Que tal pensar em adotar ferramentas de colaboração não para ganhar produtividade ou reduzir os custos com viagens, mas para não contribuir para o aumento da emissão de dióxido de carbono pelos meios de transporte? A mesma razão poderia motivar, também, a implementação de soluções de gestão de supply chain, certo?
Não se deixe abalar pelos exageros de marketing que podem ser cometidos por alguns fornecedores mais afoitos. A preocupação com o futuro do planeta vale muito e o departamento de TI deve fazer o que estiver ao seu alcance para colaborar com a corporação nesta cruzada por um mundo melhor.
Mais que isso, os argumentos “verdes” podem ser grandes aliados dos CIOs no processo de aprovação de projetos que até então não conseguiam emplacar por trazerem resultados focados em tecnologia. Está difícil convencer o board a liberar o budget para consolidar e virtualizar servidores? Quem sabe mostrando que, além de redução de custos e da complexidade de gestão, um projeto como esse pode reduzir significativamente a conta de luz e, de quebra, colocar um “selo verde” na imagem da companhia o seu orçamento acaba sendo aprovado.

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