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Avalie seu poder de expressão

Habilidades verbais e escritas não são o forte dos profissionais de TI. Mas para conseguir uma vaga no mercado é preciso utilizá-las, mesmo que sejam raras

Luiza Dalmazo*

24/04/2007 às 11h13

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Você chegou 15 minutos antes da hora marcada, conforme as famosas dicas de comportamento para processos seletivos. Sentado, um pouco apreensivo, reage à indicação da secretária, que autorizou sua entrada. Depois de diversas etapas, chegou a hora da verdade: se aprovado nesta entrevista, o cargo é seu. Ao entrar na sala, você novamente lembra das sugestões dos amigos e aperta forte a mão do interlocutor, sorri e mostra-se seguro.
Mas não é de hoje que comunicação está fora da lista de pontos fortes dos profissionais da área de TI. Quando o presidente lança a pergunta “qual foi o principal projeto que realizou”, você começa seguro, mas não consegue ser sucinto, atrapalha-se. As palavras escolhidas não são as de negócios e antes de destacar como a iniciativa mudou a realidade da companhia, ele muda de pergunta.
A freqüência com que a cena acontece diminuiu muito nos últimos anos, reflexo da aproximação dos profissionais de tecnologia com as outras áreas da empresa. Apesar de ainda ligados à linguagem técnica, muitos executivos fizeram progressos em relação ao uso do vocabulário, o que reduz suas dificuldades comunicativas durante os processos seletivos – e no dia-a-dia da corporação. Mas os obstáculos ainda existem, até mesmo na elaboração do currículo.
Segundo Fátima Zorzato, country manager da consultoria Russell Reynolds, o maior problema dos executivos de TI quando sentam para concluir a primeira dessas duas grandes tarefas – a criação do currículo e a entrevista – é querer terminar logo a empreitada, ou ainda “terceirizar” sua preparação.
A dica da headhunter é: apesar da eventual dificuldade de expressar suas idéias por escrito – comum entre profissionais de TI, naturais da área de exatas –, é fundamental refletir e realizar um apanhado de tudo o que realizou ao longo da profissão antes de colocar o histórico no papel.
"Depois é hora de estruturar as informações e organizá-las, para valorizar o que precisa de fato receber atenção", indica. Uma falha comum na elaboração dos currículos, segundo ela, é dedicar muita atenção a projetos em que houve algum “envolvimento afetivo”, ao invés daqueles que realmente fizeram a diferença para o negócio – e mais interessam aos selecionadores.
Além disso, Fátima diz que é muito comum observar profissionais que enumeram adjetivos em seus currículos. “Ao contrário, o ideal é relatar resultados, como por exemplo ‘a empresa cresceu 20% ou aumentou o faturamento em 1 milhão de reais’ e outros dados que mostrem como você mudou a organização”, destaca, lembrando que essa dica vale também para a entrevista.

Visão holística
Segundo Paulo Feliciano, diretor da Panelli Motta Cabrera, a sugestão que atende de fato às duas etapas anteriores à contratação é a elaboração do SWOT, método utilizado para fazer análise de cenário corporativo. De acordo com o executivo, quando o candidato faz a observação das forças, fraquezas, oportunidades e ameaças (palavras que em inglês compõem a sigla SWOT), ele tem claro como pode colaborar com uma empresa e sabe o que destacar para evidenciar suas qualidades.

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“Quando ele tem claro esse cenário de mercado, sabe o que precisa dizer na entrevista e no currículo para chamar a atenção dos avaliadores”, garante.
Feliciano afirma que, em sua opinião, os profissionais de TI continuam calcados em bits e bytes e isso se reflete até na linguagem verbal, que permanece técnica. “Se o candidato tem foco nessa questão e não observa o negócio, não entende o funcionamento do mercado”, critica. Se fizer adequadamente o SWOT, o possível contratado pode se sair bem em uma entrevista, por exemplo, com Emílio Vian Vieira, CIO da AGF Seguros.
O executivo diz que é vital ao candidato ser consistente e eficiente em passar sua mensagem. “Bom é quando eu paro a entrevista, mas sinto que o profissional tem condições de continuar falando daquilo por muito tempo”, resume.
O CIO explica que ainda encara situações em que conversa com pessoas com dificuldade extrema de comunicação, que repetem informações e adeptas do tecniquês em excesso, mas lembra que isso já foi mais comum. “No alto escalão isso ocorre com menos incidência, porque líderes de carreira têm menos propensão a ser técnicos”, destaca. E acrescenta: “A idéia de a TI estar alinhada ao negócio é batida, mas quem vive essa onda se libertou um pouco da linguagem técnica”, avalia.
Quando se trata de currículos, Gilberto Silva, diretor de recursos humanos da Sun, diz que poucos candidatos têm a habilidade de passar o que ele realmente quer ver. “Em geral falta síntese, os documentos não são muito organizados e há muita coisa repetida”, resume. Em sua opinião, o ideal é apresentar de forma clara o que pretende e saber dosar informações para que a empresa fique com vontade de chamá-lo para uma entrevista.
No encontro com a empresa, candidatos a trabalhar com TI costumam esbarrar no momento da composição de redações, quando propostas. “Como a oferta é maior do que a procura (em alguns cargos), procuramos privilegiar aqueles que, além das competências óbvias, consigam se expressar bem”, conta o diretor da Sun, que recebeu só em 2006 mais de 2 mil currículos.
De acordo com Silva, o mais importante, entretanto, é que os profissionais de TI mostrem avidez por inovação. “Isso sim é algo que os candidatos deveriam aprender – que a inovação deve ser um desejo constante e que precisam mostrar isso na entrevista e em currículos”, sugere.
O panorama geral é positivo e indica que o profissional de TI tem se afastado cada vez mais do estereotipo do “geek” – excessivamente técnico, tímido e com dificuldades de comunicação e relacionamento. Claramente a abordagem de negócios da área de tecnologia favoreceu os profissionais a romper essas barreiras.
Conforme comenta Vieira, da AGF, que há pouco mudou de empresa e viveu mais uma experiência de seleção, o ideal para crescer na área é equilibrar habilidades de exatas e humanas, assim como de consistência e concisão. Com essa desenvoltura, o crescimento profissional tende a ficar mais fácil.

*Luiza Dalmazo é repórter do ComputerWorld

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