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Concorrência desleal

Por que a fuga de talentos rumo à China e à Índia não chega aos CIOs brasileiros?

Cláudia Zucare Boscoli

12/04/2007 às 12h32

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Chegar à Índia e à China, meninas-dos-olhos de qualquer um que deseja estar onde as coisas acontecem e ter um currículo irrecusável, é um sonho para poucos – só para os “creme de la creme”, como define Fátima Zorzato, country manager da empresa de executive search Russel Reynolds. “Não me atrevo a dizer para os CIOs brasileiros tirarem o cavalinho da chuva, mas é preciso muita vontade, muita dedicação. Uma coisa é demanda, outra é desejo. São tantas as diferenças culturais e, mais do que isso, é muito forte a cultura de repatriação nesses países. Basta olhar a quantidade de orientais nas melhores universidades, nos melhores MBAs do mundo. Eles vão, estudam e voltam”, explica. “Principalmente na Índia a mão-de-obra é muito boa. Uma vez ouvi que quando você vai à China, só vê gente com sacolas de compra. Lá, a cultura é comprar, comprar, comprar. Na Índia, o que se vê são livros, estudantes para cima e para baixo”, completa.
Para Zorzato, o Brasil só terá chances de igual para igual com esses mercados quando der atenção à educação e isonomia nas questões tributárias, para que as empresas daqui possam entrar na briga e, como conseqüência, os profissionais acompanharem a evolução. Opinião semelhante tem o analista do Gartner Donald Feinberg, que defende que a falta do “ir além” no dia-a-dia das empresas é o que limita o profissional. “Há ótimas instituições de ensino de tecnologia. O acesso é difícil, é verdade, mas não é isso o que mais afasta o funcionário daqui do americano, por exemplo. Lá, ele tem onde trabalhar, há cobrança por reciclagem, novos desafios a cada dia. Aqui, a limitação se dá por conta do baixo crescimento, do baixo investimento”, avalia.
O cenário, no entanto, não é de todo ruim. Em primeiro, porque é grande o número de multinacionais que levam profissionais daqui para as filiais espalhadas pelo mundo. (leia mais sobre executivos globais aqui) Em segundo, porque o trabalhador brasileiro é bem-visto. “As empresas estrangeiras adoram os brasileiros pela capacidade de entrega, de adaptação. Vi pouquíssimas pessoas que não deram certo. Mas é preciso ter em mente que o esforço será maior do que o exigido de alguém de outra nacionalidade, porque a concorrência é desleal”, diz Zorzato.
Uma boa notícia é que, hoje, os headhunters não buscam mais profissionais com nacionalidade específica. “Quando me pedem um CIO, pedem um cidadão global, não importa de onde, desde que seja o melhor”, conta. Ela diz, inclusive, que nunca trouxe nenhum CIO de fora para trabalhar no País: “Encontrei o que procurava aqui mesmo”. E revela que, atualmente, este profissional tem sido mais buscado no mercado financeiro, por ter mais “jogo de cintura”. “O mundo financeiro é o que mais investe em tecnologia, tem volume, complexidade, mudanças a toda hora e muitas situações críticas. Esse funcionário é capaz de entender o negócio e intervir até no faturamento da empresa. Ninguém mais quer o tecnólogo. O CIO tem que entender de negócios, de gerenciar pessoas e projetos, mesmo porque grande parte do serviço é repassada a terceiros”, sentencia. “Basta olhar quem eram os 50 melhores CIOs há alguns anos. Eram senhores com mais de 47 anos, formados em engenharia da computação. Agora, são jovens, advogados, administradores, enfim, pessoas com múltiplas capacidades e qualidades pessoais treinadas para o cargo”, finaliza.

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