Home > Tendências

A eterna promessa do RFID

O RFID vem enfrentando sérios problemas para decolar. Mas ainda há muito potencial a ser explorado

Thais Aline Cerioni

19/03/2007 às 20h21

chip1_int.jpg
Foto:

Há dois ou três anos, não se falava de outra coisa. Tendência apontada e repercutida por analistas e pela mídia especializada em todo o mundo, a identificação por radiofreqüência (RFID) ocupou lugar de destaque na cabeça e nas discussões de executivos de tecnologia. O tempo passou e, mesmo permanecendo na maior parte das listas de tecnologias mais promissoras para os próximos anos, o RFID ainda não decolou. Algumas centenas de projetos-piloto pipocaram aqui e ali, mas não houve nenhuma aplicação que causasse adoção massiva das etiquetas inteligentes.
Os problemas, segundo especialistas e usuários, são vários. O mais relevante, sem dúvida, é o custo da aplicação. Como na história do ovo e da galinha, o RFID não deslancha por seus projetos demandarem altos investimentos, já que as etiquetas ainda são muito caras – resultado da falta de escala de produção. É verdade que esse custo vem caindo gradativamente, mas ainda não chegou ao ponto de incentivar as empresas a apostar em projetos de grande porte.
Outro fator que impacta negativamente na expansão do uso de RFID é a complexidade das iniciativas. Por trás das etiquetas e dos sensores, há muitos outros elementos, como servidores, middlewares e aplicações que tornam a implementação desafiadora – especialmente do ponto de vista de integração e tratamento dos dados coletados. Além disso, dependendo do tipo de adoção, o projeto pode influenciar não apenas a infra-estrutura da companhia, mas também de seus parceiros, clientes e fornecedores. Talvez por isso a maior parte dos pilotos realizados não tenham chegado ao back office.
Por se tratar de uma tecnologia que, na maior parte das aplicações, envolve mais de uma empresa, a questão da padronização ganha destaque. A falta de um consenso sobre a criação de um padrão de uso das etiquetas (como hoje acontece com os códigos de barras), somada ao fato de sua adoção envolver muitos elos da cadeia, torna o processo mais lento e complicado.
Um estudo realizado pela Associação da Indústria de Tecnologia da Computação (CompTIA) nos Estados Unidos mostra ainda que há uma forte carência por profissionais especializados. Segundo a pesquisa, 75% das empresas de tecnologia norte-americanas não possuem número suficiente de pessoas treinadas para o mercado de RFID.

Fadada ao fracasso?
Apesar de todos os problemas, as promessas de sucesso e as previsões positivas continuam. Um levantamento do site UsingRFID.com mostra que, até meados de 2006, 76 países eram usuários da tecnologia – um crescimento considerável em relação aos 49 que usavam as etiquetas um ano antes. No Brasil, as previsões também são otimistas, apesar dos números atuais serem tímidos. De acordo com o Cenário do Supply Chain no Brasil, realizado pela Associação Brasileira de eBusiness, apenas 9% das companhias entrevistadas já utilizam esse tipo de solução, enquanto outras 7,5% possuem projetos-piloto na área. No entanto, 64% das companhias pretendem implementar o sistema nos próximos dois anos.
Otimista, porém mais conservadora do que no auge do hype da tecnologia, a ABI Reasearch reduziu em 15% sua previsão de receita gerada pelo segmento em 2007, ficando em 3,1 bilhões de dólares. Já a Frost&Sullivan é ainda mais cautelosa e prevê movimentação de 2,9 bilhões de dólares até 2012.

O caminho pode ser a força
Um dos mais conhecidos casos de adoção da tecnologia de identificação por radiofreqüência foi capitaneada pela gigante do varejo norte-americano Wal-Mart. A empresa aproveitou sua influência para exigir dos cem principais fornecedores a adoção das etiquetas inteligentes até o final de 2005. Apesar de não ter alcançado os resultados esperados pela rede, o projeto conseguiu impulsionar, ainda que parcialmente, o uso da solução.
Alguns especialistas acreditam que a postura adotada pelo Wal-Mart seja o melhor caminho para o desenvolvimento da tecnologia. Alguns usuários concordam. É o caso do CIO do Bank of Tokyo-Mitsubishi, Ross-Trevor, que afirma que só adotaria a solução se fosse uma imposição legal como a Sarbanes-Oxley.
No Brasil, a postura tem sido diferente. Assim como o caso Wal-Mart no mundo, o projeto-piloto encabeçado pelo Pão de Açúcar em parceria com os fornecedores Gillette e Procter&Gamble, com a empresa de paletes CHEP e com a consultoria da Accenture é emblemático por aqui. A intenção, entretanto, não é obrigar parceiros a adotar a tecnologia, mas incentivar sua disseminação ao demonstrar os benefícios que ela pode trazer aos negócios e à operação.  Finalizado no início de 2005, o piloto do Pão de Açúcar deixou claro aos participantes que os benefícios realmente existem, mas que o sucesso da utilização comercial da tecnologia depende de padronização e de revisão dos processos corporativos de toda a cadeia. Ou seja, se uns acreditam na força, outros apontam para a colaboração.
Enquanto o uso na gestão da cadeia logística de bens de consumo – vista como principal oportunidade de uso do RFID – não decola, alguns setores despontam como potenciais usuários massivos das etiquetas inteligentes.
Entre eles, destacam-se os exemplos da indústria farmacêutica e das companhias de transporte aéreo. Em ambos os casos, não se tratam de adoções imediatas. Mas são situações em que o business case pode se provar mais rapidamente. Pressões legais por maior controle dos medicamentos combinadas à perda de receita ocasionada pelas falsificações são fortes apelos para que a indústria farmacêutica aposte no RFID.

++++

As etiquetas garantiriam o “pedigree” dos produtos e permitiriam o acompanhamento dos mesmos ao longo de toda a cadeia de valor, evitando – ou, ao menos, possibilitando a identificação – de possíveis fraudes.
Um estudo realizado pela consultoria Bearing Point mostra que o uso da identificação por radiofreqüência nesse segmento é viável e traz uma série de benefícios – inclusive financeiros. No entanto, a consultoria alerta para a necessidade de algumas transformações estratégicas no setor, entre as quais estão reengenharia de processos, mudanças organizacionais e um novo tipo de gestão de relacionamentos.
As companhias aéreas também são apontadas como possíveis propulsoras do sucesso das etiquetas. Diversos pilotos e testes já foram realizados em todo o mundo para utilização da tecnologia no controle de bagagens e de cargas. Viável tecnicamente, o grande empecilho é, mais uma vez, a falta de padronização. Para que aeroportos e companhias aéreas optem pela substituição dos códigos de barra (adotados, hoje, como padrão da indústria) pelo RFID, é necessário que essa decisão seja tomada pela International Air Transportation Association. “Enquanto não houver um padrão, a solução ficaria restrita à própria empresa e a aeroportos que não controlam o embarque de bagagens (operação chamada de conciliação de bagagem)”, explica Wilson Maciel, CIO da Gol Linhas Aéreas. Segundo ele, a tecnologia está nos planos da empresa, mas, por enquanto, a conta não fecha, já que os benefícios ficam restritos.
Enquanto o boom do RFID não acontece, o crescimento da tecnologia se dá em aplicações pontuais encontradas por algumas corporações, nas quais a tecnologia é usada para lidar com questões específicas. E, cada vez mais, a integração automática entre as máquinas e o mundo dá o tom para o futuro da tecnologia, que ruma para o que Kevin Ashton, co-fundador do Auto-ID Center, do MIT, e um dos criadores do padrão global do RFID, chama de “era dos sensores”. Apesar da demora, é unânime a opinião de que é uma questão de tempo para que as etiquetas estejam em todo lugar.

Junte-se a nós e receba nossas melhores histórias de tecnologia. Newsletter Newsletter por e-mail