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Para além do vista

O plano da Microsoft para dominar a empresa Web 2.0 – e continuar sendo a empresa de tecnologia mais importante do planeta

Ben Worthen

05/03/2007 às 19h06

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A cada década surge uma nova plataforma capaz de reduzir a tal ponto o custo de gerenciar um departamento de TI que a única opção dos fornecedores é adotá-la ou morrer. Nos anos 90, PCs com sistemas operacionais poderosos decretaram o fim do desenvolvimento de mainframes e introduziram a era cliente/servidor. Hoje, servidores baratos e conexões com internet de alta velocidade estão provocando uma migração do tradicional software de PC desktop para software como serviço, hospedado por terceiros e disponibilizado via internet.
Nenhuma empresa tem tanto a perder com esta mudança quanto a Microsoft, que dominou a era cliente/servidor esteada na força de seu sistema operacional Windows. A Microsoft é o centro das atenções no momento graças ao Vista (a recente versão do seu sistema operacional), fruto de mais de cinco anos de desenvolvimento e que o COO da  Microsoft, Kevin Turner, chama de maior investimento em P&D na história da Microsoft e, indiscutivelmente, na história corporativa. Mas o Vista não faz parte da tendência de software como serviço e toda a pompa e circunstância em torno de seu lançamento mascara uma preocupação crescente da Microsoft, que transparece em condutas, comunicações internas e conversas de executivos sobre como será o mundo de TI dentro de cinco anos: software como serviço é uma ameaça diferente de qualquer outra enfrentada pela Microsoft, que precisa fazer mudanças drásticas se quiser continuar sendo a empresa de tecnologia mais importante do planeta.
A Microsoft começou a desenvolver uma estratégia de software como serviço no ano passado. As primeiras ofertas — os programas Windows Live e Office Live — envolvem miniaplicativos baseados na web. Mas estes serviços são um pequeno elemento da visão grandiosa do CEO Steve Ballmer, do COO Kevin Turner, do Chief Software Architect Ray Ozzie e de outros executivos para tornar a Microsoft tão indispensável na empresa Web 2.0 quanto foi na empresa cliente/servidor. Em uma série de entrevistas exclusivas com CIO, executivos da Microsoft explicam que as aplicações web estão apenas engatinhando e que o futuro da empresa reside no desenvolvimento das ferramentas que os CIOs vão precisar para gerenciar o ambiente de software como serviço. “É fácil desenvolver um aplicativo web, colocá-lo online e dizer que ele se destina às empresas”, observa Ozzie. “Mas é uma visão ingênua daquilo que os CIOs têm que enfrentar.”
No modo de pensar da Microsoft, o mundo dos web services vai tornar a vida dos CIOs confusa e difícil. Embora cada serviço de software que uma empresa assine seja mais barato e fácil de operar do que sua contrapartida cliente/servidor, coletivamente estes serviços vão tornar a corporação exponencialmente mais complexa, a menos que os CIOs tenham ferramentas para fornecer e gerenciar estes serviços como um pacote. A Microsoft promete desenvolver as ferramentas de gerenciamento e transformá-las no eixo de seu negócio corporativo.
Quando as ferramentas forem criadas e implementadas, segundo a Microsoft, não importará se os aplicativos que um departamento de TI suporta são serviços baseados na web hospedados por um terceiro externo, software cliente/servidor hospedado internamente ou uma combinação dos dois. “Os CIOs precisam ter uma maneira de provisionar uma conta, a conexão inicial e a interface com o usuário”, independente da origem do aplicativo, diz Ballmer. “Pelo menos esta é a nossa visão.”
Mas até Ballmer admite que, no momento, não passa de uma visão. A Microsoft,  tendo aceitado e internalizado a idéia de que o mercado de software mudou, inevitavelmente, para serviços, detectou uma oportunidade crítica de evoluir. Mas, de acordo com analistas, para conseguir mudar sua estratégia corporativa, sua identidade e seu DNA, a Microsoft tem que superar barreiras igualmente críticas de tecnologia, estratégia e cultura.

Oportunidade vislumbrada pela Microsoft
O evangelho do software como serviço prega aos quatro ventos que as empresas dispostas a abrir mão do controle advindo de rodar uma aplicação internamente vão economizar dinheiro por não ter que manter e hospedar este aplicativo e, ao poupar estes recursos, serão mais ágeis e produtivas. Os CIOs que optam por serviços não têm que comprar e operar farms de servidores ou pular de desktop em desktop atualizando software, prossegue o evangelho. Ao contrário de um modelo que estimula longos e onerosos ciclos de upgrade (o mesmo modelo no qual a Microsoft baseou para construir seu império corporativo), software como serviço permite aprimoramentos incrementais pequenos e constantes. Só isso já bastaria para acabar com o apetite dos CIOs por software cliente/servidor tradicional como o da Microsoft.
Além do mais, tudo que um usuário precisa para acessar uma aplicação baseada na web é um browser — não um sistema operacional robusto fortemente integrado com o aplicativo. Portanto, diferentemente das guerras anteriores com a Netscape e outras empresas, a Microsoft não pode apoiar-se na força do Windows para salvar a pele. E, ao mesmo tempo em que argumenta com convicção que seria tolice não se beneficiar de toda a potência de processamento oferecida por um PC, a Microsoft se prepara para um futuro que irá estear-se em dispositivos de computação móvel menos potentes e conexões com a internet em alta velocidade onipresentes.
A dura verdade é que a Microsoft não tem outra opção a não ser encarar o software como serviço. Ao invés de combatê-lo, cavou uma oportunidade. E diz tê-la encontrado.  “Algumas pessoas dizem que software como serviço é uma panacéia e que todo mundo deveria deixar para trás imediatamente tudo que tem e entrar neste mundo”, observa com sarcasmo Andy Lees, vice-presidente de marketing de servidor e ferramentas da Microsoft. “Mas vejo um problema nisso: o primeiro serviço que você tem é lindo, o segundo serviço que você tem é bom e, a partir daí, você enfrenta os mesmos problemas de antes.”
Em outras palavras, o CIO continua tendo que gerenciar muitos aplicativos. Só que, agora, eles estão hospedados em outro lugar. É um problema do qual os CIOs estão cientes, ainda que o senso comum (e o entusiasmo) em torno do software como serviço ignore-o com freqüência. “Gerenciar múltiplos aplicativos de serviços — e as coisas que você mesmo roda —  será um desafio”, diz Joseph Devenuto, CIO da Norton Healthcare, cadeia de hospitais em Kentucky. “É um mundo de complicações.”
Quando alguém sai de uma empresa (por exemplo um funcionário de contas a pagar insatisfeito é demitido por conduta imprópria), ao invés de remover a conta deste funcionário dos sistemas internos, um CIO em um ambiente de serviços tem que garantir que todos os fornecedores de software — desde e-mail a CRM — façam a mudança em seus sistemas, explica Lees. Tendo em vista que o ex-funcionário insatisfeito pode acessar aplicativos hospedados através de um browser em qualquer dispositivo, os riscos se multiplicam. “Você precisa reunir rapidamente todo o pessoal de TI e acessar aqueles seis, sete, 15 sistemas diferentes que não possui mais”, adverte Lees.
Obviamente, você pode fazer isso, diz Ballmer, mas vai gerar um consumo desproporcional de tempo e recursos. A visão da Microsoft é oferecer produtos e serviços que permitam aos CIOs gerenciar aplicações web — bem como aplicativos cliente/servidor internos — a partir de um único lugar. Além de disponibilizar um local central para provisionamento, a Microsoft, segundo Lees, permitirá que os CIOs estabeleçam regras e apliquem diretivas: todos os pedidos têm que ser processados às 15:30 h, por exemplo. E recursos de workflow vão ajudar os CIOs a gerenciar exceções automaticamente. “Os CIOs de hoje passam o tempo todo configurando, mudando e monitorando”, acrescenta Lees. “O custo e a complexidade sobrecarregam os CIOs”, aponta Ballmer. “Quero assegurar que estamos eliminando este custo e complexidade e permitindo que os CIOs se concentrem em usufruir inovações e coisas que possam agregar valor à empresa.”

Qual é a resposta? Steven? Kevin? Ray?
A Microsoft é uma empresa de produtos. Na década passada, seus produtos Windows e Office mantiveram-se superiores aos de todas as outras empresas. Historicamente, estas duas unidades de negócio têm sido responsáveis por quase todo o lucro da Microsoft. Mas isso mudou nos últimos anos. A receita combinada do Windows e do Office permaneceu relativamente inalterada, enquanto a divisão de servidor e ferramentas apresentou crescimento de receita de dois dígitos por 16 trimestres consecutivos. Hoje, a divisão de servidor e ferramentas é quase tão grande quanto os grupos veteranos, gerando 22% da receita de 44 bilhões de dólares da Microsoft, em comparação a 29% e 25% das unidades de negócio Windows e Office, respectivamente.
Se a Microsoft reinventar seu negócio corporativo em torno de uma das suas unidades, esta é a opção, afirma Rick Sherlund, analista que cobre a empresa para a Goldman Sachs. Mas é um desafio técnico e estratégico criar ferramentas que permitam aos CIOs gerenciar, configurar e provisionar um pacote de aplicativos diferentes. E ninguém, dentro ou fora da empresa, é capaz de dizer exatamente como a Microsoft vai chegar lá.
De acordo com Ballmer, a Microsoft tem muitas ferramentas. “Mas certamente elas estão longe de serem suficientes”, diz o executivo. Ele acrescenta: “nenhum produto sozinho representa esta visão”. Ballmer acredita, entretanto, que a Microsoft possui a combinação certa de experiência corporativa e em web para concretizá-la. Os pacotes de produtos Oracle e SAP têm escopo limitado, argumenta Ballmer. A IBM reinventou a si mesma em torno de serviços de consultoria. “Só a Microsoft combina tanta experiência corporativa e em web com um rico entendimento de processo de negócio”, diz Ballmer.
Para os analistas, a posição competitiva da Microsoft talvez não seja tão fácil quanto seu CEO descreve. Para começar, a Microsoft sempre deixou a cargo de parceiros a tarefa de gerenciar recursos de computação de clientes. Segundo John Rymer, analista da Forrester Research, a Microsoft sabe ajudar os CIOs a gerenciar seus próprios produtos, mas incorporar produtos de outras empresas é um salto e tanto.
O salto maior, sem dúvida, é o fato da visão da Microsoft exigir que a empresa “abrace” um ambiente de computação heterogêneo. Mas seus executivos, historicamente avessos a trabalhar com qualquer coisa que eles mesmos não tenham criado, parecem unidos no compromisso de suportar outras tecnologias.  “Queremos fazer isso; quer você desenvolva aplicativos ou consuma-os, quer nós os forneçamos ou outra empresa os forneçam”, explica Lees.
Um fator poderia facilitar o trabalho da Microsoft de suportar este grande número de aplicações: todos os aplicativos do tipo software como serviço têm o mesmo mecanismo de entrega, a internet, o que requer que sejam criados com um conjunto específico de padrões. Estes padrões — XML, SOAP, WSDL e UDDI — são os mesmos que a Microsoft e a IBM ajudaram a estabelecer através de organismos de normatização como o W3C e o Oasis no início da década. A Microsoft terá mais facilidade para usar estes protocolos padrões para integração com serviços baseados na web do que com um aplicativo cliente/servidor mais tradicional que utiliza um padrão proprietário, diz Dwight Davis, analista da Ovum Summit.
Provavelmente existe um mercado para a visão da Microsoft, acredita Dave Girouard, gerente geral da divisão corporativa da arqui-rival Google — e talvez não seja tão difícil alcançá-lo, já que os fornecedores de software como serviço vão querer que seus aplicativos funcionem com a infra-estrutura existente do CIO. Mas provisionamento e single sign-on são uma coisa; a integração mais profunda (portar dados de um sistema CRM online para um pacote ERP legado, por exemplo) será complexa, prevê Girouard.
E, afinal, integração superficial não bastará para seduzir os CIOs. As empresas vão adotar um software como serviço específico porque seus recursos oferecem uma boa adequação, de acordo com Roger Kay, presidente da empresa de consultoria Endpoint Technologies. Dar aos CIOs um único local onde possam gerenciar seus serviços de software é uma ótima idéia, contanto que a interface de gerenciamento preserve o conjunto de recursos que levaram uma empresa a escolher um serviço de software em especial, diz Kay.
Será que a Microsoft é capaz de fazer com que todos os tipos de aplicativos web se comuniquem e funcionem bem? “É um projeto realmente muito ambicioso”, observa Kay, acrescentando que a Microsoft precisará interagir com todos os tipos de formatos de arquivo proprietários. “Não significa que ela não possa, mas será difícil.” Se realmente quiser ser a fornecedora à qual as empresas recorrem para gerenciar seus ativos de TI, a Microsoft terá que aprender a suportar todos os ativos de TI de uma organização. “A Microsoft tem que estar disposta a aderir a cross-platform, o que, historicamente, não tem acontecido”, ressalta Sherlund, da Goldman Sachs. “É uma estratégia ousada que exigirá amplo suporte de outras plataformas e conhecimento de outros sistemas.”
No momento, tudo que a Microsoft está oferecendo é conversa. Mas, pelo menos, é uma conversa que os CIOs adeptos do open source querem ouvir. “A realidade é que muitas empresas são formadas através de aquisição”, diz Ron Markezich, CIO da Microsoft. “Quando você cria uma empresa através de aquisição, você tem muitas plataformas diferentes e o CIO nem sempre tem poder ou budget para padronizar.” Caberá à Microsoft aprender a trabalhar com os outros sistemas. “Veja open source. Interagimos com ele agora, embora seja difícil. Mas é algo que temos que fazer”, diz Markezich. Para um executivo da Microsoft, usar open source em uma frase sem uma introdução depreciativa é o primeiro passo do que promete ser uma longa batalha.

Serão capazes de concretizar?
À parte os desafios tecnológicos, existem outras razões para duvidar da capacidade da Microsoft de concretizar sua visão. “A abordagem da empresa sempre foi fomentar os produtos dela”, diz Rymer, da Forrester. Qualquer coisa diferente disso exigiria uma grande mudança cultural de uma empresa que tem mais de 71.000 funcionários e está prestes a perder seu visionário líder – o chairman e co-fundador Bill Gates anunciou em junho que vai deixar a empresa em 2008.
Outro desafio para a Microsoft é cumprir esta mudança cultural ao mesmo tempo em que promove o Vista e o Office, dois produtos apenas tangencialmente relacionados à estratégia de longo prazo da empresa. No ano que vem, é improvável que um CIO possa ligar uma TV ou ler uma revista sem ver um anúncio do Office ou do Vista. Os departamentos de marketing e vendas da Microsoft vão ficar focados diretamente no velho modelo de negócio orientado a produto. Na verdade, apesar de toda a conversa sobre a iniciativa Live na imprensa especializa em negócio e TI, é muito difícil tentar descobrir sobre ela junto ao departamento de vendas da Microsoft. Barbara Gordon, vice-presidente de vendas corporativas diz que não vende nada “Live” e não sabe quando Microsoft venderá. Estão concentrados em vender o Vista.
Os clientes também estão testemunhando esta realidade. “Não acho que o Vista seja o elo entre o ambiente atual e o ambiente de web services”, afirma Devenuto, da Norton Healthcare, usuário beta do Vista para a Microsoft. Denuto define o Vista como um sistema operacional mais seguro e não uma ferramenta transicional.
Ao mesmo tempo em que reinventa sua linha corporativa, a Microsoft enfrenta Google e Yahoo na área de aplicativos de consumo e Sony e Apple na área de dispositivos de consumo, como consoles de games e tocadores de música. “Se eu fosse CIO, questionaria se o investimento em MSN e Xbox é uma dispersão que os impedirá de concretizar sua estratégia corporativa”, argumenta David Yoffie, professor da Harvard Business School. “Qualquer empresa, por maior que seja, tem um número limitado de equipes classe A. Você dedicaria estas equipes à busca, ao Xbox ou à visão que descreveu?”
A Microsoft rebate que não comenta sobre a constituição de suas equipes de projeto, mas que o número de pessoas que trabalham na ferramenta de gerenciamento de software como serviço vai aumentar à medida que os esforços de desenvolvimento do Vista e do Office desacelerar. Mas, mesmo que a Microsoft consiga redirecionar energia significativa para a área corporativa, a nova visão requer que a empresa saia da tradicional zona de conforto. “As soluções de gerenciamento da Microsoft, como Microsoft Management Console e Active Directory, mostraram-se historicamente instáveis”, diz Davis, analista da Ovum Summit. “Por isso, a empresa não está chegando com credibilidade total.”
Todos os executivos da Microsoft estão dizendo mais ou menos a mesma coisa sobre a necessidade de “abraçar” um ambiente de TI heterogêneo e a oportunidade que gerenciar software como um serviço representa. E isso tem que continuar assim para que a Microsoft reinvente a si mesma. “Conversar é o primeiro passo quando você está tentando mudar a cultura”, sentencia Laraine Rodgers, consultora em gerenciamento de mudança.
Mas, embora executivos da Microsoft estejam pregando o evangelho, sua linguagem às vezes denuncia a cultura notoriamente fechada da empresa. Lees, por exemplo, introduziu o conceito de suportar aplicativos baseados em plataformas não-Microsoft dizendo: “é isso que se denomina interoperável”. Fala isso como se ninguém na sala tivesse ouvido este termo antes. Lapsos deste tipo demonstram como é grande a mudança que a Microsoft está tentando fazer.
Ozzie diz que suportar um ambiente de web services é simplesmente uma extensão lógica do expertise que a Microsoft adquiriu na era cliente/servidor. No fim das contas, segundo Ozzie, as mesmas habilidades que fizeram da Microsoft a fornecedora mais importante na época — entendimento de questões corporativas como segurança, gerenciabilidade e compliance, além de experiência em ferramentas de desenvolvimento como .Net — serão os fatores mais importantes no mundo do software como serviço.
A Microsoft possui a experiência necessária para criar as ferramentas que vão tornar gerenciável a era dos serviços, vislumbra Ozzie. “Não é excitante, mas é o que fará com que os serviços hospedados sejam tão importantes quanto são hoje as tecnologias existentes no data center, aposta o Chief Software Architect da Microsoft – e o homem que está substituindo Gates como visionário-chefe.

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