Home > Carreira

Domine a etiqueta secreta do golfe

Tiger Woods talvez não tenha motivo para temê-lo, mas, mesmo assim, você precisa conhecer as regras (não escritas) do jogo

07/12/2006 às 19h34

Foto:

Você pode ser um grande jogador de golfe. Ou, talvez, seja o expert em atirar pedaços do gramado pelos ares. Uma coisa, porém, é certa: você já jogou ou, pelo menos, já foi convidado para uma partida. Hoje, os encontros de golfe são parte tão integrante da vida empresarial quanto as reuniões do board e as festas de confraternização.
Mas, se quiserem participar, os CIOs têm de estar por dentro das sutilezas do jogo — não necessariamente conhecer as regras ou as técnicas básicas, mas saber se comportar no campo e evitar os pecados capitais condenados pela etiqueta do golfe.
Entre os erros mais chocantes está a mentira. As pessoas mentem sobre seus resultados, mentem sobre seus handicaps, mentem sobre suas mentiras. Também existe a grosseria: movimentar-se enquanto alguém dá a tacada inicial, falar quando outro se prepara para um swing ou projetar sua sombra justamente no alvo de um putt (tacada final). E existem os erros por omissão: não aplainar os obstáculos de areia, não consertar o impacto da bola no green ou não repor a grama retirada por uma tacada no fairway.
Na realidade, aquele campo de golfe tranqüilo pode ser um campo minado, onde a carreira do CIO vai deslanchar ou acabar, se ele acredita — como fazem muitos golfistas — que o esporte revela o verdadeiro caráter de uma pessoa. “O golfe não mente”, sentencia Suzanne Woo, fundadora da BizGolf Dynamics, empresa que ajuda executivos a entender melhor as nuances do jogo. “É uma atividade que coloca você sob pressões e expectativas, e de maneira competitiva”, diz Woo.
Francisco Açakura, CIO da Ripasa, concorda. “Eu uso muito o golfe para conhecer melhor as pessoas”, afirma. “Por ser um esporte com muitas regras e sem juiz, qualquer coisa ilegal que o jogador faça é a sua consciência que vai dizer. O golfe é muito ético.” Persistência, capacidade de concentração, perseverança e otimismo são outras características avaliadas pelo CIO durante uma partida. “O jogador tem de superar todos os desafios impostos pelo campo.”
Nesta panela de pressão, os CIOs precisam estar preparados para todos os tipos de situação, incluindo estratégias para lidar com um CEO trapaceiro, que faz um aceno com a cabeça e pisca um olho para você, ou um fornecedor agressivo, que quer monopolizar a conversa falando de negócio. “Você aprende mais sobre uma pessoa em quatro horas no campo de golfe do que apenas participando de reuniões de negócio”, afirma David Guzman, ex-CIO da Owens & Minor e atual chief research officer do The Yankee Group. “Por mais que você se esforce para se comportar bem, sua verdadeira personalidade vai emergir no campo de golfe.”
Assim, os CIOs também têm de vigiar a si mesmos. Eles são representantes de suas empresas e qualquer comportamento pouco profissional pode prejudicar futuros negócios ou atrapalhar seus planos de carreira. Se você agir como um tolo ou trapacear, a notícia vai se espalhar. E isso não será bom para você ou sua empresa.
A questão mais discutida entre executivos golfistas é se devem ou não falar de negócio. CIOs e especialistas em golfe executivo aconselham que isso seja resolvido por outro membro da sua partida de golfe — seja o profissional de vendas de um fornecedor, o chefe, o maior cliente ou o CEO. “Seu cliente pode usar o campo de golfe para lhe fazer uma pergunta que é muito importante para ele, e é igualmente importante para você não gaguejar”, exemplifica Guzman. Obviamente, os CIOs devem responder, mas a resposta deve ser curta. “Mesmo quando houver esta abertura, não a use para passar um caminhão de negócios através dela”, aconselha Guzman. “Apenas responda e retome imediatamente o clima de camaradagem.”

++++

Muitos CIOs acham que o campo de golfe não é lugar para se falar de negócios, mas sim para conhecer melhor as pessoas que podem – ou não – ser seus futuros parceiros. Para Geraldo Antunes, CIO da Klabin, a falta de bom senso pode inverter o objetivo do encontro e prejudicar os negócios. “Se insistir em um discurso muito pesado [sobre produtos ou serviços], o fornecedor vai acabar tornando-se um chato e afastando o CIO.”

Saiba administrar expectativas
Um pouco de comunicação antes de uma rodada pode ajudar os CIOs a definir e administrar as expectativas do grupo naquele dia. Quer você seja o anfitrião ou convidado, conheça as expectativas e as habilidades dos outros membros do seu grupo antes de dirigir-se ao primeiro tee. Eles têm handicap? Quais são? Levam o jogo a sério ou apenas apreciam a vida ao ar livre? Se o profissional de vendas inicia um papo de venda no primeiro buraco, o CIO pode muito bem dizer: “vamos nos concentrar no golfe e falar de negócio no 19o buraco”, em alusão ao bar do clube. E um bom profissional de vendas deve estar sempre em harmonia com seu convidado CIO. “Não é uma ciência”, diz David Collins, jogador profissional da Professional Golfers’ Association of America (PGA). Porém, se o representante de vendas só quer falar de negócio, não é um bom sinal para o CIO.
Para Antonio Fonseca, CIO da KPMG, o golfe é um esporte envolvente e capaz de desenvolver uma série de habilidades pessoais, além de fortalecer relacionamentos. “O jogo é uma oportunidade de conhecer pessoas com quem você toma cerveja, encontra interesses comuns e troca cartões. E com quem, depois, você pode fazer negócio.”

Como jogar com o chefe
Um CIO que é convidado pelo CEO, CFO ou outro executivo-sênior para passar o dia no campo de golfe tem de estar preparado para tudo. Afinal, estes executivos podem estar pensando em promovê-lo ou testando seu estado psicológico; ou, talvez, simplesmente queiram conhecê-lo melhor. “Se você é convidado a ir e jogar com o chefe, é uma entrevista de emprego”, afirma Roger Ham, ex-CIO do Departamento de Polícia de Los Angeles e participante veterano de muitos encontros executivos. “Aquela tacada final, de apenas 90 centímetros, vai mostrar a eles suas habilidades, sua tenacidade, se você tem espírito esportivo e se é capaz de perder com elegância ou ganhar com elegância.”
No Brasil, o campo de golfe também está ganhando status de sala de entrevistas de emprego. Muitos headhunters preferem conversar com o candidato durante uma partida. Com isso, conseguem observar, na prática, vários aspectos da personalidade do entrevistado – o que é muito mais eficiente que uma entrevista convencional. Um velho provérbio do golfe diz que partidas são ganhas e perdidas no primeiro tee. Tradução: percepção é tudo no campo de golfe. Os CIOs têm de estar conscientes de sua linguagem corporal, se eles estão tendo o melhor ou pior dia de suas vidas. “As pessoas formam opiniões sobre outras no campo de golfe”, diz Guzman. “Elas estão confiantes e à vontade com elas mesmas? Estão excepcionalmente nervosas ou calmas em uma situação tensa? São rigorosas demais com elas mesmas?”

++++

Todos os especialistas em golfe executivo, sem exceção, desaconselham que se perca o jogo de propósito para cair nas boas graças do chefe. “Se você for pego cedendo o jogo, será mais constrangedor para si mesmo e prejudicial à sua carreira”, observa Bill Storer, presidente da Business Golf Strategies, empresa que promove encontros e seminários para executivos. “Você tem que estar preocupado com o que seu CEO está pensando o tempo todo.” Além disso, acrescenta Storer, se você for um ótimo jogador de golfe, mais pessoas vão querer jogar com você e vê-lo ganhar — contanto que seja humilde em relação a isso.
A humildade é um ponto observado também por Antunes, da Klabin, não só em relação às vitórias, mas também em relação aos adversários e ao caddie. “Sempre observo como a pessoa trata o caddie”, conta. “Além de, claro, perceber sua reação às pressões, ao sucesso e ao fracasso e comportamento nos momentos decisivos.”

Se você trapaceia, é um trapaceiro
Tudo bem se você exagerar ou subestimar suas habilidades no golfe, mas trapacear é errado. Muitos jogadores de golfe experientes têm uma percepção de quantas tacadas você deu por buraco e são capazes de detectar um mentiroso logo no começo. “As pessoas acham que estão sendo sutis em relação à trapaça”, diz Guzman. E trapacear pode ser um indício de como elas vão se comportar em outras circunstâncias. “Já descobri, no campo de golfe, pessoas com que passei a conviver e fazer negócios. Ao mesmo tempo, já joguei com pessoas com quem decidi que não iria mais me relacionar”, relembra Açakura.
Os CIOs que testemunharem uma trapaça de um membro de seu grupo não devem hesitar em apontá-la para os outros, contanto que este grupo seja formado por pessoas com o mesmo nível profissional. Entretanto, os CIOs devem pensar duas vezes se o trapaceiro em seu meio for um CEO, CFO ou outro executivo sênior. Trapaça é indicativa de algum grau de desonestidade e os CIOs podem se perguntar até que ponto seus chefes são dignos de confiança.
O tema mais quente no mundo do golfe, hoje, é a tecnologia móvel. Embora alguns clubes de golfe tenham banido o uso do telefone celular no campo, muitos jogadores ainda recebem e fazem ligações entre as tacadas. “Se você encara como uma reunião de negócio, é incrivelmente grosseiro”, diz Woo. Pode ser que você precise dar um telefonema importante, principalmente se está jogando durante o expediente. Neste caso, a melhor solução é avisar outros jogadores no seu grupo que talvez você precise usar seu telefone celular e tentar fazê-lo quando for mais conveniente — no snack bar que costuma estar localizado no nono buraco, por exemplo. Acima de tudo, a boa educação manda desligar o som do telefone celular para que ele não toque em momentos inoportunos, como quando seu CEO está tentando dar um putt para ganhar a partida.
Scott Hicar, CIO da Maxtor, fornecedora de storage, acha outros dispositivos, como os BlackBerrys, igualmente perturbadores. Certa vez, em um torneio beneficente, ele ficou espantado ao ver um parceiro de jogo, um executivo de TI, passar a maior parte do tempo usando o BlackBerry. “Na área do tee, ele ficou apertando botões para mandar e-mails e seus dedos batucavam enquanto estávamos dando tacadas”, conta Hicar. Se você está tão ligado ao seu BlackBerry — e ao escritório — que sentido há em jogar? Seu dia lamentável vai arruinar a experiência de todos os outros.
A chave para o sucesso de qualquer encontro de golfe executivo está nos participantes e em sua disposição de usar o tempo para solidificar amizades e usufruir relações sociais em uma atmosfera relaxada. Mas não presuma que você alcançará o nirvana do negócio simplesmente porque está em um pitoresco campo de golfe às custas da empresa. “Nunca pense ou se comporte como se devessem fazer negócio com você só por causa de um encontro de golfe”, diz Guzman. “Trata-se de um investimento nas suas relações, independente de qualquer resultado comercial imediato.”
Relacionamento é a palavra-chave. O golfe permite que você trabalhe mais seu networking, conheça mais as pessoas, ganhe a confiança e passe a confiar mais em possíveis parceiros. “Graças ao golfe, já estreitei relacionamentos com pessoas de quem já era cliente e também já conheci novos prestadores de serviços. Às vezes, no meio de uma conversa, alguém comenta sobre outra empresa e acaba criando um relacionamento indireto”, diz Antunes.
Mas, se você detesta o jogo, não se incomode com ele só porque você ouviu dizer que negócios são fechados no campo de golfe. O investimento psicológico e o tempo que terá de dedicar a isso são grandes demais. “Você não conseguirá escapar impunemente dizendo que ama se, na verdade, odeia cada minuto”, diz Woo. É por isso que o golfe une homens de negócio como poucos tipos de interação são capazes. As pessoas conhecem os sofrimentos e as vitórias umas das outras.

++++

Para quem está pensando em jogar

Golfe não é fácil. Demanda prática, tempo e muita paciência. É vital ter uma ou duas aulas com um profissional, que poderá ensinar-lhe os princípios básicos antes de você pisar no campo de golfe. Ainda acontece ver pessoal de vendas ir a um encontro de golfe executivo sem tacos e sapatos de golfe.
Suzanne Woo, fundadora da BizGolf Dynamics, trabalha com muitos principiantes e mulheres de negócio que estão interessados em aprender o jogo. Entre seus clientes estão Merrill Lynch, Bank of America e National Car Rental. Ela acredita que, antes de tudo, é preciso definir expectativas de golfe realistas para seus clientes. “Se os CIOs não forem realistas quanto às suas habilidades, talvez não sejam realistas quanto às suas relações de negócio”, ensina Woo, o que pode erguer uma bandeira vermelha para outros executivos. Se um CIO exagera em suas habilidades no golfe, como os outros vão saber que ele não está exagerando nos seus projetos?
A preocupação maior dos principiantes deve ser não jogar muito lentamente, ou seja, manter o ritmo de jogo. Uma tática eficaz para um novato é contar a todo mundo, logo no primeiro tee, que ele é um principiante, mas vai acompanhar o ritmo de jogo. Usar algumas palavras típicas do golfe vai deixá-lo à vontade. Se o iniciante também conhece seu handicap ou comenta que vai praticar a regra das dez tacadas (parar de jogar em um buraco depois de dar dez tacadas), isso mostra aos outros que ele leva a sério o encontro de golfe.
David Guzman, ex-CIO e atual chief research officer do The Yankee Group, não se importa de jogar com principiantes, contanto que eles acompanhem o ritmo e não se aborreçam demais com eles mesmos. “Se você estiver se sentindo desprezível, não choramingue”, ensina. “Todos nós já passamos por este estágio e existe a fraternidade da paciência. Não se desculpe o tempo todo, isso cansa.”

++++

Como Respeitar o Jogo
Boas maneiras no campo são tão importantes quanto regras básicas. Eis 10 mandamentos da etiqueta aplicadas do tee ao green.

- Nunca fale enquanto um jogador dá a tacada inicial
- Faça apenas um swing de treino na área de saída
- Permaneça na área de saída até todos do grupo terem dado a tacada inicial
- Sempre reponha a grama revolvida com uma tacada no fairway
- Não bata seu taco no chão
- Esteja sempre preparado para jogar (isto é, jogue um golfe rápido)
- Aplaine o campo de areia após a tacada
- Conserte a marca do impacto da bola no green
- Não ande nem projete uma sombra na linha de putt de outro jogador.
- Recolha sua bola quando fizer um double bogey (der duas tacadas acima do número estipulado de tacadas)

Junte-se a nós e receba nossas melhores histórias de tecnologia. Newsletter Newsletter por e-mail