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Desempenho controlado

Ferramentas de gestão da performance corporativa auxiliam as empresas a tomar decisões diárias sem perder de vista o planejamento estratégico

Thais Aline Cerioni

16/10/2006 às 18h45

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A forma de mensurar a saúde de uma empresa está mudando. E a tecnologia da informação tem tudo a ver com isso. Foi-se o tempo em que a única maneira de saber se uma companhia está tendo ou não sucesso era analisar seu balanço financeiro em busca de lucro ou prejuízo. Na era da transparência corporativa, analistas e acionistas querem saber mais do que isso – é decisivo adotar um planejamento de longo prazo, sustentável, com base em uma estratégia corporativa sólida. E, mais do que isso, é preciso cumpri-lo.
Entretanto, quem tem uma posição executiva e vivencia o dia-a-dia no comando de uma empresa sabe que tomar decisões hoje pensando na visão do que a companhia pretende ser daqui a alguns anos não é tão simples. Especialmente quando as pressões por resultados de curto prazo são cada vez mais incisivas.
Prova disso é que, de acordo com pesquisa realizada pela Symnetics, consultoria especializada em gestão de performance, ligada ao BSC Collaborative, 90% das empresas falham na implementação de suas estratégias. Rogério Caiubí, diretor da consultoria, esclarece que o fato não significa o fracasso da companhia, mas um gap entre o que foi pensado e o que foi realizado.
Garantir que cada uma de suas atitudes esteja alinhada ao planejamento estratégico da corporação e acompanhar o impacto das mesmas no atingimento de metas pré-estabelecidas é uma tarefa complexa. O que representa uma excelente oportunidade para a TI mostrar seu valor.
Surgidas há alguns anos como as sucessoras dos softwares de business inteligence, as ferramentas de gestão da performance corporativa – Corporate Performance Management (CPM), Business Performance Management (BPM) ou Enterprise Performance Management (EPM) – têm como premissa auxiliar na definição, na implementação e no acompanhamento de metas estratégicas. Ou seja, tornar menos árduo o trabalho de trazer para o cotidiano a visão traçada pela diretoria da corporação.

Tecnologia é complemento
Se a utilização de ferramentas de gestão de performance ajudam a realizar o que foi planejado pelas empresas, não está nas mãos de TI a decisão de mudar o modelo de gestão corporativa. Ao contrário, as soluções tecnológicas são, na maior parte dos casos, usadas para apoiar os processos depois que a mudança conceitual já foi consolidada.
Implementado no final de 2003, o conceito de Balanced Scorecard ajudou a Suzano Petroquímica a mensurar e acompanhar as diretrizes apontadas no planejamento estratégico. Mesmo utilizando planilhas e apresentações por um ano, a empresa estava satisfeita com os resultados.
A adoção da suíte Hyperion Performance Scorecard, no inicio de 2005, tornou mais simples a interação dos usuários. “Com a ferramenta, fica mais fácil ver as prioridades e os problemas”, comenta Edílson Teixeira, gerente da área de desempenho e processos da petroquímica. Talvez por isso, dos cerca de 50 usuários do aplicativo – entre os quais estão gerentes e diretores do alto-escalão da empresa –, 85,5% tiveram aceitação positiva da ferramenta.

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Com o objetivo de analisar mais detalhadamente seus resultados financeiros, a Vonpar Refrescos, franqueada Coca-cola que atende os mercados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, usa, desde 1998, o modelo contábil conhecido como ABC. Para apoiá-lo, a companhia adotou o software Oros, que durante sete anos satisfez suas necessidades em relação a alocação e apropriação de custos, apesar de não ser muito amigável em termos visuais e de extração e manipulação de dados.
Em busca de uma ferramenta mais ágil e com funcionalidades mais sofisticadas, em 2005, a empresa adquiriu a solução ABM, da SAS. Com ela, a Vonpar conseguiu uma melhor apuração dos resultados, além de oferecer a alguns usuários-chave a possibilidade de montar as visões de seu interesse. “Em vez de ver o quanto eu gastei, vejo como eu gastei e quais os resultados dessas ações para a empresa”, exemplifica o gerente de suporte financeiro, Ricardo Leal.
O novo aplicativo ampliou também o campo de visão das análises da companhia. “Inicialmente, tínhamos foco financeiro, mas acabamos tendo também oportunidades operacionais”, conta o gerente. Como exemplo, ele cita a possibilidade de identificar a excelência operacional de uma unidade em relação a outra em determinadas atividades. Além disso, como levou ao mapeamento de todos os processos internos, o uso da nova tecnologia preparou a empresa para olhar os negócios sob a ótica do cliente. “Saímos de uma visão de produtos, passamos por uma visão por processos e chegamos, hoje, à visão por cliente”, comemora Leal.

Além dos números
O movimento da Vonpar em direção à analise do impacto de aspectos operacionais no desempenho da companhia marca um novo momento das soluções de CPM. Apesar de pretenderem alterar as métricas usadas para avaliar a performance corporativa, os primeiros projetos estavam totalmente concentrados nos resultados financeiros. As ferramentas chegavam a cumprir o objetivo de dar mais agilidade à tomada de decisão – pois, em vez de relatórios trimestrais analisando o passado, traziam indicadores em tempo-real. Porém, ainda estavam longe de oferecer aos líderes corporativos os subsídios necessários para construir uma estratégia de longo prazo.
Hoje, a situação começa a mudar. Cada vez mais, as empresas têm incluído indicadores operacionais em seus planejamentos, o que permite mensurar o efeito de determinados processos e ações no cumprimento dos objetivos. E, mais do que isso, dão mais poder aos gestores de cada área, graças à tão sonhada distribuição da estratégia por toda a corporação.
A necessidade de incluir indicadores operacionais em suas análises levaram o Grupo Martins, atacadista com faturamento anual de aproximadamente dois bilhões de reais, a substituir as ferramentas desenvolvidas em casa por uma solução de mercado, fornecida pela Cognos. Vivaldo de Assis, gerente de custos e orçamento, conta que a realização de orçamentos matriciais – ou seja, que considerassem outros aspectos além dos financeiros – demandava muitos dados operacionais que a companhia não possuía.
Então, o primeiro passo do projeto, em outubro de 2004, foi a criação de um datawarehouse “parrudo”, nas palavras do executivo. Ao longo do ano seguinte, a empresa dedicou-se à adoção das funcionalidades de business intelligence e planejamento, e, mesmo com a iniciativa ainda em andamento, conseguiu aproveitar o novo sistema para a criação do orçamento 2006.

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A Soddexho Pass, prestadora de serviços que atua no segmento de cartões e vouchers de benefícios, não precisou se dedicar à criação do datawarehouse quando decidiu apostar em uma solução de gestão de performance. Alceu Santucci Bravo, diretor de tecnologia da empresa, comemora o fato de a empresa já possuir um repositório de informações organizadas e com histórico, utilizando ferramentas Business Objects e banco de dados Oracle. Assim, quando o diretor-geral da companhia pediu um instrumento que permitisse acompanhar a direção que a empresa estava tomando, o primeiro passo foi contratar uma consultoria e, junto com os executivos de negócios, definir os indicadores que formariam o painel.  Depois de muita discussão, workshops com a diretoria e três meses de trabalho, foram definidos 10 indicadores.
Além dos apontamentos financeiros clássicos, a Soddexho passou a analisar indicadores de mercado – como o índice de cross selling –, de processo – como o volume de demanda nos call centers – e de organização – como o tempo que a diretoria dedica a clientes e afiliados. “A interação do usuário com a ferramenta é muito simples. Ele bate o olho no painel e já vê como sua área está e qual a tendência de evolução”, garante Bravo.
Hélio Siqueira, controller do Grupo Martins, também destaca a simplicidade e a agilidade desse tipo de ferramenta. “O gestor consegue ver o que esta acontecendo [com a empresa], direcionar suas ações e acompanhar se o que executa está trazendo o resultado esperado”, detalha.
O executivo revela que há expectativa de retorno do investimento realizado no projeto em cerca de cinco anos, mas garante que os benefícios já estão sendo vistos no dia-a-dia. “Como você consegue espalhar mais a informação, passa a ter mais pessoas alinhadas ao objetivo. Isso ajuda a companhia a alcançar a estratégia”, resume Siqueira.
Levar a estratégia corporativa a todos os funcionários da empresa é uma das premissas do Balanced Scorecard e, por isso, é também um dos objetivos do projeto da Soddexho. Bravo conta que uma das metas da companhia para o próximo ano é desdobrar os indicadores para outros níveis da organização. “Pretendemos olhar os números com a mesma tônica, sem inventar nada, mas desdobrados por filiais e talvez para algumas outras áreas que possam achar interessante”, antecipa.
Na prática, os novos modelos de gestão corporativa e as ferramentas de CPM buscam desmistificar os relatórios financeiros e trazer a estratégia e o desempenho da empresa para cada uma de suas células, por meio de uma linguagem mais simples e acessível. Porém, a adoção de uma solução de gestão de performance não irá mudar o rumo da companhia ou impactar diretamente em seus resultados financeiros. “Mas você consegue fazer o alinhamento das ações à estratégia. E isso paga qualquer investimento”, conclui Edílson, da Suzano Petroquímica.

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