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Informaticidade se escreve com “i”, de inovação

Da mesma forma que a energia tornou-se eletricidade disponível na tomada, processamento de informação vai virar “informaticidade”

Silvio Meira*

21/09/2006 às 14h47

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(este artigo é parte da reportagem Inovar é preciso)

A era da informação, segundo Peter Drucker, não começou com a internet, mas bem antes, ao fim da segunda guerra mundial. Até então, vivíamos a era da energia, ao redor da qual estavam centrados os negócios e as atividades científicas, tecnológicas e inovadoras. As palavras de ordem eram “mais forte”, “mais rápido”, “mais potente”, num universo de “pressões”, “temperaturas” e “velocidades”. O domínio da tecnologia nuclear e a possibilidade de simular processos estelares deram um ar de fim-da-história ao mundo da energia.
Temos meio século, pois, de era da informação. Isto coincide com a idade das máquinas computacionais, digamos, modernas, inauguradas com o ENIAC, em 1946. Os primeiros processadores eletrônicos de informação eram tão complexos que as organizações que os tinham em casa foram obrigadas a criar departamentos de tecnologia, populados por gente que entendia de sistemas computacionais – os computadores propriamente ditos e sua infra-estrutura de software – e que fosse capaz de fazer as máquinas produzir os resultados exigidos pelos negócios. Da mesma forma como, em determinado momento, as indústrias de sucesso tinham seu próprio departamento de energia (e algumas o têm até hoje), os negócios mais inovadores destes sessenta anos de era da informação foram aqueles que melhor souberam tirar proveito dos computadores, usando para isso a competência tecnológica interna e de tantos parceiros quantos foi possível.
Os computadores e seu uso nos negócios foram inovações radicais do século XX, mudando o mundo e criando possibilidades que, manualmente, seriam impensáveis. Mas toda inovação é incompleta, imperfeita e perene. Então, sempre chega, de novo, a hora de inovar. Não que informática tenha se tornado commodity e qualquer um, em qualquer lugar, possa provê-la.
Mas, da mesma forma que a energia se tornou eletricidade, disponível na tomada, processamento de informação vira “informaticidade”. Suas propriedades são mais complexas do que os fluxos de corrente (da "energia elétrica") que produzem calor, luz e movimento.  Mas, uma vez a par dos significados por trás das interfaces e tendo acesso remoto, confiável, de alta performance e barato, não precisamos, para usar tal “informaticidade”, de departamentos de tecnologia do lado de cá da rede.

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E isso é uma boa notícia para todos. Primeiro, para o pessoal de tecnologia, que vai trabalhar onde os problemas tecnológicos estão e onde é mais interessante e divertido estar: lugares como Amazon s3 [armazenamento on-line], Netvibes.com [ecologia de informação] e Salesforce.com [cadeia de valor de processos de automação de negócios]. Todos são exemplos de “informaticidade”, atrás do conector, sem que o usuário pense em segurança, performance, updates, backup. Problemas do pessoal de tecnologia.
Software-como-serviço é outro nome que se dá à “informaticidade”; mas esta é ainda mais sofisticada: inclui hardware-como-serviço, rede-como-serviço e, quase de brincadeira, serviço-como-serviço, quando não temos que fazer o serviço que deveríamos, pois tal poderia ser realizado compondo outros, já disponíveis na rede.
Por outro lado, quem ficar do lado de cá do conector terá de se concentrar no que é essencial para o negócio: informação. Durante muito tempo – quase todos estes 60 anos – os interesses informacionais dos negócios estiveram subjugados às competências, humores e modismos de seu pessoal de tecnologia. Apesar de o chefe atender pelo título de Chief Information Officer, que significava, de fato, Chief Information Technology Officer. Com a tecnologia escondida na “informaticidade”, o pessoal de tecnologia que restar será o que der conta, enfim, da informação.
A agenda dos novos CIOs será pautada na criação, manutenção, implantação e operação de políticas e estratégias de informação, cobrindo o ciclo de vida de informação no negócio, de criação ou captura até terminação, passando por  processamento, armazenamento, preservação e apresentação. Para isso, precisarão desenhar sistemas de informação, sendo que parte da funcionalidade dos quais, em breve, será provida pela “informaticidade” da rede, oferecida por muitos fornecedores. O resto, que terá de ser definido e escrito internamente, serão complementos e conexões de coisas que outros irão nos fornecer como serviço.
Em algum lugar estarão, a suportar tudo, as tecnologias de informação. Gozando pela primeira vez, em sua curta história, da imunidade do anonimato. Algo me diz que, neste novo mundo, as coisas serão muito mais calmas e que, por isso mesmo, poderemos inovar muito mais.

*Silvio Meira é cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR)

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