Home > Gestão

A palavra de ordem é integração

TI pode criar vantagem competitiva? Pode, mas para isso são necessárias mudanças. Alinhar TI ao negócio já não basta

Letícia Costa*

21/09/2006 às 14h45

Foto:

(este artigo é parte da reportagem Inovar é preciso)

Que a Tecnologia da Informação deve ser direcionada pelas necessidades do negócio para que efetivamente esteja entre os condutores da estratégia da empresa, auxiliando na criação de vantagens competitivas, já se sabe há tempos.
A implementação dessa prática -- alavancando TI de forma eficaz e efetiva --, entretanto, tem se mostrado desafiadora. Pesquisas globais de múltiplas fontes comprovam: cerca de 51% das empresas não têm processo estruturado para garantir o alinhamento de TI ao negócio; a grande maioria – mais de 65% – não faz acompanhamento sistemático dos benefícios potencialmente gerados por iniciativas de TI; finalmente, um número significativo de empresas – cerca de 42% -- não tem metodologia para auxiliar na priorização dos investimentos. 
Para que se possa, de fato, ter TI entre os condutores da estratégia é preciso, inicialmente, reconhecer que tecnologia em si não traz vantagem competitiva, uma vez que não permite criação de assimetrias, fonte principal de diferenciação. A vasta maioria dos desenvolvimentos de TI pode ser copiada e, portanto, dificilmente será fonte de diferenciação de maneira sustentável. Neste contexto, TI pode gerar vantagem competitiva e auxiliar o negócio se suas iniciativas estiverem intimamente relacionadas às estratégias de negócio. Este relacionamento mais íntimo de TI com o negócio requer mudanças expressivas nos processos da área, na governança de TI e nas metodologias e perspectivas usualmente empregadas no desenvolvimento de um plano e de prioridades da área de TI.
A primeira grande mudança refere-se ao modelo de governança e aos processos de planejamento de TI. Em nossa experiência, apenas uma parcela pequena das empresas desenvolve seu plano de TI simultaneamente ao seu plano estratégico. Na maioria dos casos, o plano de TI é desenvolvido de forma “bottom up”, ou seja de acordo com os requerimentos das áreas, fazendo apenas referências ao plano estratégico. Para que TI contribua efetivamente na criação de diferencial competitivo é fundamental que seu planejamento seja feito de forma mais integrada e simultânea ao do negócio. O fato de que a grande maioria das empresas acredita que a inovação tecnológica é conduzida por áreas que não TI, simplesmente confirma a necessidade de integração – e não somente alinhamento. Esta maior integração, por sua vez, requer que as discussões de TI sejam realizadas junto ao top management e o board das empresas, e implica no re-desenho do processo de planejamento.

++++

A segunda grande mudança está relacionada em como TI avalia e gerencia seu portfolio de iniciativas. O ponto de partida desta discussão é o reconhecimento de que iniciativas em TI podem ter três papéis distintos:
- Inovação, ou seja, iniciativas que visam criar vantagem competitiva ao mudar as regras do jogo de uma indústria ou um segmento
- Transformação, isto é, iniciativas que visam alinhar TI com o negócio e entregar projetos de transformação voltados a desenvolver uma operação “classe mundial”
- Excelência Operacional, que se refere a iniciativas voltadas ao desenvolvimento de uma área de TI de “classe mundial”para suportar a empresa e minimizar os custos de TI
Nossos estudos e experiência mostram que, caso as empresas avaliassem seu portfolio de investimento em TI à luz dos três papéis descritos acima, verificariam que os investimentos em inovação são baixos. Neste contexto, é fundamental que as empresas passem a gerir suas iniciativas de TI com uma visão mais abrangente, em que os três tipos de iniciativa estejam contemplados. Além disso, sob o prisma organizacional, dependendo da natureza do negócio, a função de inovação deveria estar mais explicitamente destacada na estrutura de TI. Várias empresas nos EUA e na Europa já criaram a posição de Chief Technology Officer (CTO), cuja responsabilidade é focada em inovação. Em vários casos, o CTO não se reporta ao CIO, evidenciando que inovação é direcionada pelo negócio, e não pela tecnologia.
Uma terceira mudança importante para viabilizar o papel de TI como suporte efetivo da estratégia e do negócio diz respeito à propensão das empresas em adotar tecnologias de ponta. A grande maioria das empresas prefere investir em tecnologias que já sejam ou estejam se tornando maduras. Somente uma minoria é early adopter. Todavia, estudos mostram que os early adopters são aqueles que apresentam um portfolio de projeto de TI claramente determinados pelo negócio. Mais do que isto, boa parte das empresas realmente inovadoras tem seu planejamento de TI integrado ao de negócio. A questão central no que tange a adoção de uma nova tecnologia diz respeito à estratégia de adoção, que deve pesar as capacitações existentes, bem como os benefícios potenciais para definição da melhor abordagem (ex: piloto, spin-off etc).
Por fim, para que as medidas discutidas acima sejam eficazes é importante que se passe a mensurar o impacto das iniciativas de TI, reconhecendo que a métrica depende da natureza da iniciativa. Por exemplo, iniciativas voltadas à Excelência Operacional têm, em geral, métricas como ROI, TCO e NPV. Por outro lado, iniciativas de inovação devem ser mensuradas com indicadores mais voltados ao negócio, tais como participação de mercado, share of wallet etc.
Em resumo, para que TI possa ser substancialmente mais eficaz no suporte ao negócio, as empresas devem procurar um planejamento de TI integrado ao do negócio, gerir mais pró-ativamente o portfolio de iniciativas e tornarem-se mais propensas a adotar novas tecnologias, ainda que não maduras. Somente com medidas desta natureza as empresas, e suas áreas de TI, poderão evoluir do estágio de criação de valor com TI para o estágio de criação de vantagem competitiva.

*Letícia Costa é presidente da Booz Allen Hamilton Consultores do Brasil

Além da tecnologia, por Ítalo Flammia
Inovar: a força de uma organização, por Laércio Cezar
No papel de educadores, por Mauro Negrete
Valorize a tecnologia. Pense menos nela, por Roberto Agune
CIO, o agente da inovação, por Edson Fregni
Informaticidade se escreve com "i", de inovação, por Sílvio Meira
O lego da infra-estrutura de TI, por Sílvio Genesini

Junte-se a nós e receba nossas melhores histórias de tecnologia. Newsletter Newsletter por e-mail