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No papel de educadores

Inovação pressupõe tirar as pessoas de suas zonas de conforto e expor a organização a maiores riscos

Mauro Negrete*

21/09/2006 às 14h37

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(este artigo é parte da reportagem Inovar é preciso)

Na última década vivemos uma das maiores mudanças já ocorridas na história da humanidade. O mundo está passando por um grande processo de padronização e os comportamentos, hábitos e culturas regionais estão dando lugar a padrões globais únicos. No cerne dessas mudanças nas quais nós, profissionais de TI, temos sido protagonistas, encontra-se a grande evolução das tecnologias, principalmente as de telecomunicações e a internet, que viabilizaram a produção e troca de informações em tempo real entre os locais mais distantes do planeta, a ponto de alguns especialistas já estarem falando em “internet interplanetária”.
Essas tecnologias permitiram que as organizações tivessem acesso a recursos e mercados, que há anos atrás para serem acessados demandavam muitos investimentos e exigiam a necessidade do envolvimento de intermediários, o que elevava significativamente os custos operacionais e inviabilizava, na maioria das vezes, a realização das operações com esses mercados. Além desses pontos, um outro importante aspecto que desencorajava as corporações a desenvolver operações nos mercados distantes era a dificuldade de gestão, ocasionada principalmente pelas incertezas decorrentes da falta de informações e das dificuldades de integração das operações entre as subsidiárias e suas matrizes. Essas tecnologias também ajudaram a solucionar esses problemas.
Com o uso das novas tecnologias que processam e conduzem informações, as corporações puderam atender os mercados antes esquecidos e tornar suas operações globais. Para viabilizar esse processo, as organizações também lançaram mão de ferramentas como fusões e aquisições de concorrentes que atuavam regionalmente, o que permitiu uma expressiva redução no tempo de acesso aos mercados não atendidos e minimizou os riscos decorrentes do não conhecimento dos hábitos e costumes dos consumidores e das legislações locais. Com tudo isso, as organizações dominantes puderam impor as suas culturas organizacionais sobre as adquiridas ou incorporadas, e também puderam desenvolver produtos e/ou serviços padronizados mundialmente. Esses lançamentos estão sendo apoiados por campanhas publicitárias que, na maioria das vezes, se utilizam de uma forma única de comunicação, o que tem “catalizado” a padronização dos hábitos e costumes dos consumidores – e também levado o mundo a uma globalização dos comportamentos.
Por conta desses fatos, as últimas décadas foram marcadas por um forte aquecimento da concorrência nos diversos segmentos de mercado. Muitas organizações que não elevaram seus níveis de eficiência perderam participações nos mercados e até morreram. Nas três últimas décadas, assistimos às principais organizações de todas as partes do mundo adotar o modelo japonês de gestão, baseado na produção enxuta, na qual a busca da vantagem competitiva está alicerçada nas melhorias de custo e de qualidade. Ou seja, nas últimas três décadas a grande preocupação dos executivos das organizações esteve voltada para a eficiência operacional e não para a inovação dos produtos e processos. Certamente, houve exceções e existem organizações que se destacaram nesse período por serem inovadoras, mas o grande movimento do mercado foi centrado na eficiência.

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Hoje, a obtenção da vantagem competitiva através das melhorias de custo e qualidade está cada vez mais difícil. O uso do benchmarking, e de outras técnicas para adoção das melhores práticas de mercado baseadas em modelos de maturidade, fizeram com que as organizações que ainda se encontram vivas nos seus segmentos já tenham atingido um nível de eficiência operacional que beira a chamada fronteira de produtividade. A partir de agora, para destacar-se, as organizações deverão buscar a vantagem competitiva pela diferenciação dos produtos e/ou serviços, ou ainda pela diferenciação na forma de produzir e entregar os seus produtos e/ou serviços. A eficiência operacional passou a ser um requisito básico para que as organizações sobrevivam. As empresas para serem bem sucedidas e ganharem destaque em seus mercados terão que inovar. Considerando que nos dias de hoje a tecnologia da informação encontra-se embarcada na maioria dos processos de negócios, torna-se impossível inovar sem o apoio de TI.
Um outro aspecto a ser citado é que o grande desenvolvimento da tecnologia da informação se deu nas últimas três décadas, quando o principal objetivo da maioria das organizações era a busca da eficiência operacional. Por esta razão, temos hoje como característica marcante da maioria dos profissionais que atuam aplicando TI dentro das corporações, um viés de que a tecnologia da informação é uma ferramenta para ser utilizada para obter eficiência. Eles foram formados com o paradigma de que TI é um instrumento para otimização e redução nos custos.
Tanto os currículos dos cursos das universidades, como os próprios desenvolvimentos feitos dentro das corporações baseados nas formas de atuação das organizações de TI, direcionaram os profissionais para uma posição mais técnica, formando profissionais com deficiências em processos de negócios e com poucas competências em gestão.  Na sua grande maioria, os profissionais de TI têm uma enorme dificuldade em enxergar oportunidades e aplicar a tecnologia da informação como um instrumento voltado para a inovação.
Um outro fato que ratifica esse raciocínio é que nos últimos anos o principal foco das organizações de TI dentro das corporações tem sido a implementação de soluções como ERPs, cuja principal finalidade é a automação de processos operacionais, com base nas melhores práticas de mercado.
Essa realidade deve mudar nos próximos anos. Os investimentos intensivos que a indústria da tecnologia da informação vem fazendo na área de softwares, possibilitarão que as aplicações tenham muito mais tecnologia embarcada, que sejam mais flexíveis e, certamente, permitirão que suas implementações sejam feitas de forma muito mais diferenciada, criativa e inovadora.
A partir de agora, um dos principais desafios dos CIOs será mudar o paradigma de que TI é um instrumento para a obtenção de eficiência e eficácia. Os CIOs deverão mudar completamente a forma de atuação das organizações de TI dentro das corporações. Uma das principais preocupações do CIO deverá ser a formação de equipes multidisciplinares, com profissionais com alguma profundidade técnica, mas principalmente, com extensos conhecimentos de processos de negócios, com competências em gestão e forte habilidade em liderança. As organizações de TI deverão liderar os processos de inovação dentro das corporações, através do uso das tecnologias disponíveis e emergentes. Inovação pressupõe mudança, e ela implica em tirar as pessoas de suas zonas de conforto e expor a organização a maiores riscos. Os profissionais de TI deverão exercer o papel de educadores, atuando como principais agentes de inovação nas corporações, persuadindo as pessoas sobre a importância das mudanças, transformando as bases de informações produzidas pelos sistemas transacionais em conhecimento e disponibilizando os instrumentos necessários para o gerenciamento dos riscos associados ao processo de inovação.
Nesse novo contexto, o CIO deverá entender o novo papel de TI, formar e conduzir equipes multidisciplinares, e principalmente, assumir o papel de líder de uma equipe de “educadores”, que deverão liderar a organização no processo da busca da vantagem competitiva pela inovação.

*Mauro Negrete é diretor de TI  da Cotia Trading

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