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Você é uma pessoa realizada?

Para o mestre em filosofia oriental Del Pe, não basta ter sucesso. Para ter uma vida plena, é preciso saber equilibrar os diferentes aspectos da vida, aprender a administrar o tempo e exercitar a mente

Rachel Rubin

29/08/2006 às 19h04

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Nem sempre pessoas bem-sucedidas são pessoas realizadas. Muitos executivos descobrem que, mais difícil do que conquistar aquele cargo tão almejado, é sentir realização quando já estão no topo, pois percebem que podem ter relegado outras áreas importantes: família, saúde, vida social e espiritual. Essa é uma das conclusões do mestre em filosofia oriental Del Pe. Autor de livros como O Caminho do Sucesso à Realização, Os Perigos Ocultos da Meditação e da Ioga e Os 8 Tipos de Liderança que Todo Líder Deveria Saber (todos pela editora QualityMark, e o último com lançamento previsto no Brasil em novembro), Del Pe já foi executivo de negócios em uma multinacional norte-americana e professor de artes marciais e meditação. Hoje, é consultor de empresas como Sony, IBM e Coca-Cola. “Procuro unir o que há de melhor no funcionamento da mente ocidental com a oriental”, define. 
Del Pe esteve no Brasil em agosto e deu uma entrevista exclusiva à CIO sobre o conceito de realização pessoal e suas bases: desenvolver as inteligências que levam à liderança e sincronizar o tempo para não deixar de lado nenhum aspecto fundamental da vida pessoal e profissional.

CIO: Qual é a diferença entre sucesso e realização?
Del Pe: Sucesso acontece quando alguém atinge o que quer na vida; realização é uma é mais do que isso, é ter o que quer e gostar do que tem. Muitas pessoas são bem-sucedidas materialmente mas falham na vida pessoal. Os valores da mente e do coração têm de estar incluídos na vida dessas pessoas. A vida é melhor quando se tem integridade.

CIO: E o conceito de felicidade, é o mesmo que realização?
Del Pe:
Não, felicidade é uma parte pequena da realização. Você pode estar feliz, que é um estado momentâneo, mas não realizado, sensação mais duradoura. Ao ver um filme de comédia, você ri, fica feliz por um instante, mas aquele momento acaba. Satisfação é uma condição mais interna, e felicidade é mais aparente e passageira, uma satisfação externa. Muitos cientistas não parecem felizes porque têm natureza mais melancólica, mas podem ter alto nível de satisfação, fizeram seu trabalho, cumpriram uma missão, contribuíram com a vida. Seus nomes estarão ligados às suas invenções, mesmo depois de morrer.

CIO: Quais conselhos o senhor daria a uma pessoa que quer mudar de vida? Por exemplo, a um CIO que quer alçar novos vôos na empresa, passar para o lado dos negócios?
Del Pe:
Para assumir um novo desafio, passar para um nível acima, é preciso buscar um tipo diferente de inteligência, mais relacionada à liderança. Muitas pessoas ficam estressadas quando são promovidas porque passam a ter mais responsabilidades mas não sentem que têm as habilidades necessárias para lidar com essa nova situação. O que eu digo a alguns dos meus clientes é: busque desenvolver uma inteligência de liderança que o faça sentir-se seguro e realizado quando estiver no próximo nível. Uma coisa é chegar ao topo; outra, mais difícil, é permanecer lá; e outra ainda mais difícil é alcançar a verdadeira realização nessa posição.

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CIO: E como é essa inteligência que leva à liderança?
Del Pe
: Há diferentes tipos de inteligência: uma é instintiva, de bons gestores, bons decisores que não precisam pensar muito nem ter tantas informações de apoio. A outra é a inteligência emocional: a forma como você usa o coração e os sentimentos para agir. Há também a inteligência concreta, que depende da mente lógica para discernir e racionalizar. CIOs e pessoas mais habituadas com o mundo da tecnologia, por exemplo, costumam ter esse tipo de inteligência bem-desenvolvida: eles usam bastante o lado esquerdo do cérebro. São pessoas boas de números. Outra inteligência é a do tipo empreendedora, mais aventureira, que ajuda a lidar com pessoas e desafios de uma maneira mais equilibrada. Por fim, temos a inteligência espiritual, de quem sabe usar bem a intuição. A maioria das pessoas tem um tipo de inteligência mais bem-desenvolvida. Se elas procurarem desenvolver todas essas inteligências, serão melhores líderes e mais capazes de alcançar a realização em suas vidas.
No mundo dos negócios, é preciso tomar riscos, pensar rápido, saber lidar com pressões. Deve haver um equilíbrio entre intuição e racionalidade, que não se aprende na escola, nem na faculdade ou no MBA. Geralmente, pessoas com maior inteligência emocional buscam trabalhar com recursos humanos, ou trabalho social. Muitos dos meus clientes são ótimos técnicos, têm desenvoltura para lidar com acionistas, mas não querem ir a festas, a eventos sociais e ser mais sociáveis.
 
CIO: Como aumentar a inteligência emocional?
Del Pe:
Há varias técnicas para isso. Se a pessoa é “geek”, “nerd”, precisa se casar com alguém ao estilo “Madre Teresa” (ri). Ela deve ser contaminada pela atitude de amar. Ou ter uma amiga como a Madonna, expansiva, corajosa. Na verdade, o primeiro passo é praticar a meditação. Meditar faz diminuir o stress, a raiva, o medo, a ansiedade, abrindo o coração. Porque inteligência emocional, que envolve o amor, não pode ser desenvolvida se a pessoa tem esses sentimentos negativos. Se você tem um nível de stress alto, o amor desaparece. É preciso remover o antídoto do amor do coração para desenvolvê-lo em toda a sua potencialidade. A meditação mexe com a mente, com a respiração: cinco minutos diários já são suficientes para uma mudança significativa em sua vida. O aeroporto de Nova York, por exemplo, já tem uma sala de meditação. Eu diria que num futuro próximo a meditação vai se tornar hábito das pessoas em posições-chave nas empresas. Porque, para tomar decisões, é preciso estar centrado.
 
CIO: O senhor poderia citar exemplos de executivos top realizados?
Del Pe:
Bill Gates é um bom exemplo. Sabe o porquê? Ele deixou aos poucos seu trabalho com desenvolvimento de software, de inteligência concreta, e que lhe proporcionou enorme sucesso, para dedicar-se ao trabalho social. Imagine esse executivo brilhante, feliz, rico, trabalhando, junto com sua mulher, no terceiro setor. Ele ajuda e seu coração se abre. A filantropia permite essa abertura. Esse é um empreendedor que não trabalha agora apenas pelo dinheiro. Aqui no Brasil, há muita gente rica, pessoas que vão para Miami passar o fim de semana. Mas elas precisam trazer de volta para o Brasil o compromisso com o desenvolvimento social, com o meio ambiente.
 
CIO: Como organizar melhor o tempo para conseguir equilibrar os aspectos da vida?
Del Pe:
Não há tempo suficiente para fazer tudo o que se quer na vida. Primeiro, elabore uma lista do que é essencial. Faça um check list dessas coisas e vá realizando-as. O ideal é procurar envolver as pessoas queridas em suas atividades. Por exemplo, você pode ir para o parque com um amigo, cuidando da sua saúde e de sua vida social. Ou pode levar seus filhos para fazerem, juntos, trabalho social. Você não fará apenas o bem como estreitará os laços familiares. Muito diferente de uma situação “full time” que não há envolvimento algum, como quando você viaja com os filhos, dirige pela estrada, já preocupado com a hora de voltar ao trabalho, e eles estão lá atrás, escutando música, com headphone, sem conversarem durante todo esse precioso tempo. Nesse caso, não está havendo sincronia de tempo.
Outra providência importante: apoie um projeto social, adote uma causa. Empregue seu dinheiro ou seu tempo em algo que você acredite e contribua para a elevação de seu espírito. isso pode até mesmo ser terapêutico, se você não estiver gostando de seu trabalho ou de sua carreira.
E faça as coisas agora. Quando você guarda em sua mente coisas a fazer, elas se acumulam e você fica com aquela sensação de frustração, de culpa. Isso impede a realização pessoal. Se você analisar hoje como divide a vida nas áreas mais importantes - família/lar, saúde, vida social, contribuição ao meio ambiente/vida espiritual e trabalho/carreira – vai notar que esta última lhe toma, no mínimo, 60% do seu tempo. O restante do tempo é dividido de forma desigual, sendo que algumas áreas podem não ter nem mesmo 1% desse total. Peço a meus clientes para desenharem um círculo e imaginarem como querem dividir o tempo num horizonte de seis meses. E então, comecem a solucionar, no dia seguinte, seus problemas, com base nessa divisão ideal.

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