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Use e jogue fora

Tecnologias descartáveis prometem conveniência e economia... mas há custo

John Edwards

08/06/2006 às 18h44

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No século 18 e início do século 19, os pregos forjados manualmente eram tão preciosos que, quando uma casa incendiava, o dono e seus amigos vasculhavam as ruínas para recuperá-los. Hoje, graças a técnicas modernas de produção em massa, pregos são itens descartáveis.

A tecnologia moderna está exercendo um efeito similar no modo como as pessoas vêem muitos produtos eletrônicos. Os aparelhos eletrônicos exóticos e altamente valorizados de ontem, de uma maneira geral, são tratados com indiferença pelos usuários de hoje. “Vivemos em uma sociedade descartável”, observa Randi Altschul, inventora do primeiro – e ainda malogrado - telefone móvel descartável do mundo, feito de papel. "Queremos tudo rápido e no curto prazo."

Antigamente, preços de compra altos e custos de reparo relativamente baixos incentivavam as pessoas a tentar estender a vida útil até de dispositivos razoavelmente triviais. Hoje, com a inversão entre preços de produtos e custos de reparos, freqüentemente sai mais barato jogar fora um dispositivo quando ele quebra ou se torna obsoleto, do que tentar consertá-lo ou atualizá-lo. Como resultado, um conjunto surpreendente de produtos, incluindo tags RFID, monitores,telefones celulares, câmeras digitais e impressoras, passou a fazer parte da categoria “use e jogue fora”.

Com mais tecnologias descartáveis inundando o mainstream, os CIOs enfrentam um dilema. Por um lado, gadgets descartáveis baratos poupam o dinheiro das empresas ao reduzir ou eliminar os custos de reparo e manutenção. Por outro lado, tecnologias descartáveis carregam sua própria bagagem, como preocupações com segurança e ambientais significativas. Equilibrar os riscos e os benefícios da descartabilidade é um dos desafios-chave que os CIOs vão enfrentar nos próximos anos.
 
Rastreando a Descartabilidade
Produtos são descartáveis quando se tornam tão baratos que o comprador tem pouca preocupação com o preço de compra. Isso, por sua vez, leva ao uso mais disseminado. No setor de RFID, por exemplo, preços de etiquetas em queda incentivam a rastrear itens cada vez menos importantes.

No momento, os preços de etiquetas ainda são altos o suficiente – em torno de 20 centavos de dólar cada – para impedir o rastreio de artigos de baixo custo como os gêneros alimentícios. Jeff Woods, analista-chefe da Gartner, acredita que, quando as etiquetas atingirem o patamar de 5 centavos de dólar, “RFID será uma tecnologia de consumo descartável”.

Mas RFID já pode ser considerada uma tecnologia descartável em se tratando  de alguns produtos de alto custo, como uma TV de plasma ou uma bolsa Prada. Pessoas são outro tipo de “ativo de alto valor” que pode ser rastreado por RFID. A Precision Dynamics fabrica uma pulseira com tecnologia de chip RFID da Texas Instruments que pode ser usada por pacientes em hospitais, alunos em colégios, visitantes em parques temáticos e torcedores em eventos esportivos.

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No parque aquático Hyland Hills Water World, pulseiras RFID podem tomar o lugar de cartões de débito e crédito (o parque fez um teste beta das pulseiras no ano passado e cogita instalar o sistema em meados deste ano). As pulseiras funcionam como cartões de débito que as pessoas vestem, permitindo que elas gastem dinheiro passando os pulsos na frente de leitoras localizadas em lanchonetes, lojas de lembranças e outros locais do parque. No fim do dia, as pulseiras são descartadas ou guardadas como lembranças. Os dispositivos RFID, embora mais caros do que as pulseiras com código de barras impresso, não são vulneráveis a danos causados por produtos químicos para piscina, sol ou esgarçamento. “Como as pulseiras são descartáveis, não precisamos nos preocupar com a integridade física delas no longo prazo”, diz Bob Owens, gerente assistente do parque. 

Como acontece com qualquer tecnologia que contém informação pessoal ou financeira, em especial um produto descartável, a segurança é crítica. Dados financeiros e de identificação armazenados na pulseira são criptografados, impedindo que usuários não autorizados leiam as informações. Embora os usuários possam comprar coisas no parque com seu cartão de crédito, os dados da conta do cartão não são armazenados na pulseira. “Esta informação é mantida no nosso servidor”, explica Owens.

Com o sistema, o parque não tem que transportar grandes somas de dinheiro para um banco no fim do dia. “Esta tecnologia oferece muita conveniência”, salienta Owens. O parque também se beneficia com o crédito não utilizado que permanece na pulseira quando os visitantes vão embora do parque.

Circuitos Descartáveis
Ao contrário de tags RFID, que só fornecem capacidade de rastreio, circuitos de monitoria baratos permitem que as empresas monitorem cuidadosamente as condições de ativos essenciais. A Cypak, por exemplo, desenvolveu uma tecnologia de monitoria baseada em sensor destinada à vigilância e ao controle de entrega de produtos. Usando tintas condutivas especiais, a Cypak imprime um circuito, sensores ambientais e uma antena, e monta a micro-eletrônica diretamente sobre os pacotes a serem remetidos. A tecnologia SecurePak da empresa armazena uma ID exclusiva que pode ser programada com informação inalterável sobre a origem, o destino e o conteúdo de um pacote. O SecurePak registra se o pacote ao qual a informação está anexada foi aberto, fechado novamente ou manuseado de alguma outra forma durante o envio e pode revelar aos remetentes e destinatários do pacote quando e onde tais incidentes ocorreram. O sistema de circuito acrescenta cerca de US$2 ao custo do pacote, observa Jakob Ehrensvärd, CEO da Cypak. "Trata-se, basicamente, de um chip em uma etiqueta." A leitora custa aproximadamente US$10.
O serviço postal sueco testou o SecurePak recentemente para remeter itens de alto valor e confidenciais, como equipamento de computador, obras de arte e documentos do governo. Segundo Thord Axelsson, chief security officer do serviço postal, a tecnologia permite que funcionários do correio determinem rapidamente quando e onde um pacote foi aberto, tornando-se mais barato e fácil para autoridades postais detectar pontos fracos da segurança. Sem a tecnologia, descobrir a origem de uma violação em um pacote exigiria de uma a duas semanas de investigação. Com SecurePak, a informação está disponível quase que instantaneamente.

O SecurePak até informa ao seu usuário exatamente como um pacote foi mexido -- se ele foi aberto indiretamente ou com uma faca, por exemplo, explica Axelsson. Um cliente que rasga um pacote com uma faca pode violar as instruções do transportador para proteger a mercadoria. O sensor do SecurePak também revela se as cargas foram expostas a ambientes potencialmente danosos, como calor ou frio extremo ou manuseio bruto.

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A tecnologia é barata o suficiente para ser descartável, mas resistente o bastante para ser reutilizada várias vezes, diz Axelsson. Embora no início Axelsson tenha duvidado que uma tecnologia tão pequena e barata pudesse fornecer tanta informação, os testes recentes, na sua opinião, provaram o valor do SecurePak.

Axelsson não está preocupado que pacotes equipados com SecurePak caiam nas mãos erradas. O sistema traz um mecanismo de criptografia embutido para impedir usuários não autorizados de remontar os sensores ou bisbilhotar informação sobre a remessa, mesmo depois que o material da embalagem contendo os circuitos SecurePak foi descartado. “A informação é protegida mesmo depois que ela sai do nosso sistema”, ressalta Axelsson.

Descartado, Mas Não Esquecido
O número crescente de dispositivos descartáveis que encontra seu espaço na vida cotidiana está deixando algumas pessoas preocupadas com o impacto ambiental. A indústria de tecnologia lutou durante anos com o problema de resgatar e reciclar eficazmente um "eflúvio digital" cada vez maior. Muitas pessoas agora receiam que uma enxurrada de futuros dispositivos descartáveis como celulares, PDAs, câmeras digitais e tocadores de MP3 sature de vez depósitos de lixo que já estão transbordando.

Esta preocupação não é infundada. Muitos produtos descartáveis já são desenvolvidos levando em conta a proteção ambiental. O design do celular de papel descartável de Altschul, por exemplo, é mais amigável ambientalmente do que suas contrapartidas plástica e metálica. “Nossos telefones serão feitos para se desintegrar com os elementos da natureza ao longo do tempo”, promete ela. Organic light-emitting diodes (OLEDs) -- que poderão ser aspergidos sobre itens descartáveis como caixas de cereais para criar displays coloridos e animados – também estão sendo considerados ecologicamente amigáveis. “Os novos OLEDs são comestíveis”, observa Peter Harrop, chairman da IDTechEx, consultoria em RFID. Dispositivos descartáveis emergentes também podem ser integrados com êxito a programas de reciclagem existentes. “Temos muita consciência ecológica na Suécia e já adotamos programas especiais para embalar materiais”, revela Axelsson.

Alguns tipos de tecnologia descartável poderiam ajudar a preservar o meio ambiente. O papel digital, que pode ser impresso várias vezes até se desgastar, reduziria o número de árvores derrubadas por ano para produzir a avalanche de papel que faz os escritórios funcionarem. Tags RFID inalteráveis ou circuitos sensores embutidos em produtos perigosos permitiriam que as autoridades rastreassem itens descartados ilegalmente por seus donos. RFID também poderia ser usado para localizar e recuperar itens etiquetados contendo material valioso despejado em depósitos de lixo.

Nível Molecular
À medida que o tamanho dos componentes digitais diminuir, eles serão cada vez mais integrados a objetos do dia-a-dia, como máquinas de escritório, eletrodomésticos e até roupa. Pessoas e empresas poderão começar a não ver mais necessidade de reciclar. Pouca gente pensa em reciclar os botões de uma camisa ou o zíper de uma calça jeans que vão jogar fora, por exemplo. O vestuário como um todo pode ser reciclado, mas nem todos os componentes.

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Ainda assim, é improvável que a necessidade de reciclar desapareça totalmente. Tecnologias altamente integradas, como o vestuário inteligente que está sendo desenvolvido por Sundaresan Jayaraman, poderão tornar a reciclagem de tecnologia muito mais complexa. Jayaraman, professor de engenharia têxtil do Georgia Institute of Technology, está trabalhando em vários tipos de vestuário inteligente, incluindo vestimentas que incorporam funções de computação e comunicação.

A empreitada de descobrir como reciclar o vestuário inteligente promete ser assustadora. “O vestuário inteligente descartável será um desafio porque envolverá muitos materiais diferentes, todos muito próximos uns dos outros”, diz Edwin Thomas, professor de ciência de materiais e engenharia do MIT que também pesquisa vestuário inteligente.

Para reciclar produtos eletrônicos com eficácia e eficiência, tecnologias de recuperação terão que começar a simular processos naturais trabalhando em um nível molecular. “No momento, há esta caixa de cereais, e achamos que ela tem que ser reciclada em mais papel”, diz Christine Peterson, presidente do Foresight Institute, um centro de altos estudos de tecnologia. “É o que sabemos fazer agora e o que é barato fazer agora, mas, certamente, não tem que ser assim”, ressalta. A reciclagem molecular permitiria que produtos descartados, como uma camisa com um rádio transceptor e uma tela OLED, fossem reciclados sem antes serem divididos em seus componentes: algodão, metal, plástico e assim por diante. “Precisamos melhorar muito a prática de pegar arranjos de átomos e moléculas e transformá-los no que queremos”, diz Peterson.

Neste meio tempo, acredita Thomas, os fabricantes deveriam começar a trabalhar juntos para produzir dispositivos com materiais similares facilmente recicláveis. Ele observa que os fornecedores de tecnologia poderiam se espelhar nos fabricantes de ketchup. “Os frascos de ketchup costumavam ser feitos de sete tipos de plástico diferentes”, explica. “Eram garrafas fantásticas, exceto pelo fato de mesclarem sete plásticos diferentes, e não havia como separá-los.” Agora, graças a um padrão unificado, os frascos são facilmente recicláveis. Como os fabricantes de ketchup, os fabricantes de dispositivos poderiam colaborar usando materiais similares em gabinetes, placas de circuito e outros componentes importantes. “É uma maneira de pensar ecologicamente”, resume Thomas. 

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