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Negócios e TI do mesmo lado da mesa

Quando isso não acontece, quem perde é a empresa. Para evitar prejuízos, o CIO precisa transformar esta percepção negativa em uma crença positiva, mostrando TI como parceira estratégica

Spehanie Overby e Rachel Rubin*

23/08/2005 às 14h40

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“O cínico sabe o preço de tudo e o valor de nada”, escreveu Oscar Wilde. Hoje, esse aforismo descreve com muita propriedade o problema da percepção da tecnologia da informação em muitas empresas. Os que duvidam do valor de TI (e reclamam de seu custo) estão em toda parte, na sala do conselho, entre os CXOs que chefiam unidades de negócio e em meio aos usuários finais.
É bem verdade que os CIOs estão fazendo grandes avanços para aumentar a credibilidade de TI. Muitos mantêm um portifólio equilibrado de trabalho e praticam uma boa gestão de projetos. Alguns encontraram uma maneira de administrar as instalações como uma empresa disciplinada. E um punhado deles ocupa um assento à mesa executiva.
Mas dados da pesquisa “Convertendo Descrentes de TI em Fiéis”, realizada pela revista CIO, indicam que a opinião do negócio sobre a área de TI está longe da ideal. Mesmo em empresas com sólida reputação na comunidade de TI, a percepção do negócio sobre o seu valor é, em média, de inexpressivos 6,05 em uma escala de 1 a 10, em que 1 é extremamente negativo e 10 é extremamente positivo.
As maiores queixas? TI é cara demais. Demora demais para fornecer benefícios ou nem os fornece. É commodity, não proporciona diferenciação. Não está alinhada com a estratégia de negócio.
Em muitos casos, estas percepções são errôneas, baseadas em falta de entendimento ou de conscientização. Não que isso importe. “Quando você atinge um determinado nível em uma organização, percepção é sinônimo de realidade”, diz George Tillmann, vice-presidente e CIO da Booz, Allen & Hamilton, consultoria de gestão e TI de 3,1 bilhões de dólares. “Você pode argumentar até ficar roxo, mas isso não vai levá-lo a lugar algum.”
Letícia Costa, presidente da Booz, Allen no Brasil, concorda. Mas ressalva que a situação pode ser mais crítica ou amena dependendo do segmento de mercado ou mesmo de empresa para empresa. “A pressão é grande. Existe a visão de que a TI está sempre devendo tudo para todo mundo, e esse déficit nunca diminui”, diz. “A verdade é que tanto as equipes de negócios quanto as de tecnologia se esforçam para chegar a um entendimento mas, no fundo, a situação não mudou”.
Considerando-se que as pessoas agem sob influência de suas percepções, sejam elas válidas ou não, uma visão negativa de TI pode ter conseqüências reais para uma organização. Segundo os entrevistados da pesquisa, as empresas que menos valorizam TI perdem oportunidades de inovação e crescimento e, ironicamente, gastam dinheiro em tecnologia de maneira ineficiente. “Se uma empresa não acredita em TI e que investir nessa área vai gerar resultados, pode colocar-se em desvantagem competitiva, comparada a empresas que acreditam e investem”, diz Michael Gerrard, vice-presidente da Gartner.
A boa notícia é que o CIO pode mudar o modo como a empresa percebe TI e seu valor. Empregando uma combinação de práticas de mensuração e comunicação, acompanhada de iniciativas de melhoria do alinhamento, há como transformar adversários em aliados e converter descrentes em fiéis — executivos que vêem TI como parceira estratégica capaz de fornecer alto valor para a corporação. O sucesso do CIO depende disso. “Indiscutivelmente, você precisa ter pessoas que acreditam em você”, afirma Dave Holland, CIO da Genesys Health System.
Não será fácil. Líderes de negócio talvez relutem em comprometer tempo ou recursos envolvendo-se com TI e a falta de uma estrutura clara para avaliar TI pode atrapalhar o CIO que busca melhorar a reputação da área. Além disso, as percepções, principalmente as mais arraigadas, não desaparecem da noite para o dia, nem após um ou dois casos de sucesso. Mudar mentes requer um esforço consistente não apenas em termos de fornecer o valor de TI, mas também de medir, fornecer e comunicar este valor.
Para quem consegue extrair fiéis da área de negócio, vale a pena. Os benefícios são uma verdadeira lista de desejos para maioria dos CIOs: maior credibilidade na empresa, alinhamento mais estreito com objetivos do negócio e maior influência nesse negócio.
No Bradesco, maior banco privado brasileiro em ativos que no primeiro semestre lucrou 2,6 bilhões de reais – mais que o dobro em relação ao mesmo período do ano passado -, a crença em TI teve um incentivo especial: o do diretor vice-presidente Laércio Albino Cezar, que em 45 anos na instituição já passou por diversos departamentos – inclusive o de inspetoria de informática, onde atuou por dez anos.
“É preciso ser polivalente. Conheço o banco por inteiro e sei que tecnologia da informação é essencial tanto para oferecer produtos de qualidade quanto para suportar iniciativas como aquisições”, diz o executivo, que hoje comanda as áreas de TI, patrimônio e serviços. “O que seria de nós sem TI em compras vultosas como as do Mercantil, BBV e BCN, significando centenas de novas agências, com sistemas diversos, a serem incorporadas? Por outro lado, como analistas e programadores formavam um mundo à parte, foi preciso abrir um canal de comunicação urgente”, conta.
O executivo sempre manteve entre as suas prioridades promover o alinhamento de TI a negócios para responder à demanda pela justificativa de investimentos na área. Afinal, diz, quem paga a conta é a área de negócios.
A chegada de Laércio no cargo de VP fez quase desaparecer as velhas queixas em relação à area, segundo o diretor de TI da instituição, Aurélio Conrado Boni. “Reclamações sobre demoras na entrega dos projetos e em relação a seus custos diminuíram muito. Ele [Laércio] entende a importância estratégica da TI para o banco e promoveu a compreensão entre as áreas. Estamos do mesmo lado”, testemunha Boni.
Juntamente com diretores de outras áreas e membros do conselho e da cúpula do banco, Boni faz parte de um comitê, idealizado por Laércio, que se reúne semanalmente para discutir processos de adoção e implementação de tecnologias, melhorando o entendimento dos homens de negócios sobre esses processos e dos técnicos sobre o que querem as outras áreas. Hoje, TI conta com 3,4 mil funcionários e um orçamento para 2005 que faz inveja a muita empresa grande: 1,5 bilhão de reais.
Para Laércio, o entendimento acontece quando TI deixa de falar em “bites e bytes” e desmistifica a tecnologia ao usuário, levando o conhecimento adiante sem o temor típico de que, com isso, poderá perder poder. “Todos só têm a ganhar quando se coloca a transparência em primeiro lugar.”
Além do comitê, outra iniciativa voltada especificamente a esse alinhamento foi a da criação da unidade de Tecnologia do Negócio, em 2001, para fazer a interface das áreas de negócios com a de TI. São mais de 100 funcionários, de diferentes formações, dedicados a entender como a tecnologia se aplica às necessidades de negócios do banco. “Tecnologia do Negócio é, aliás, um termo que pode substituir o de Tecnologia da Informação, assim como este substituiu o de informática conforme novas necessidades surgiram”, acredita Laércio.
Segundo ele, os resultados do maior alinhamento são visíveis: “por exemplo, no recente lançamento do Bradesco Consórcio, a TI conseguiu agir rapidamente, ajudando a lançar o produto em um prazo de apenas 90 dias”.
Quer dizer então que, com um chefe tão compreensivo, fica mais fácil aprovar projetos de TI? Nem tanto; as regras são claras. “Aqui tudo é muito estudado. Além das justificativas dos projetos perante as áreas de negócios, as tecnologias devem ser balizadas por nossa unidade de pesquisas e, claro, passar por licitações. TI é, sim, indispensável ao negócio, mas não decide o negócio”, deixa claro o vice-presidente do Bradesco. 

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