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Seu trabalho ou sua vida

Como superar a conspiração corporativa que te mantém atrelado ao trabalho

Susan Cramm

23/08/2005 às 12h52

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Se você quer que sua vida seja mais do que uma série de reuniões, e-mails e viagens de negócios, não está sozinho. Meu objetivo em quase todos os relacionamentos de coaching é ajudar o cliente a encontrar um equilíbrio entre responsabilidades de trabalho e vida pessoal. O poderoso Jack Welch, ex-CEO da General Eletric e amigo pessoal de Bill Clinton,  disse em entrevistas recentes que acredita que os grandes diretores não tratam de assuntos sobre balanço de vida e trabalho porque têm os “sistemas” necessários no lugar. Este é um comentário ridículo, mesmo para aqueles que têm uma esposa em casa e legiões de assistentes pessoais. Os únicos diretores que não fazem este equilíbrio são os que já doaram suas vidas para a empresa.
Welch explica que o seu chefe quer fazer “seu trabalho tão interessante até que sua vida pessoal se torne menos estressante”. Você pode querer que seu chefe te veja por inteiro (e não ver seus filhos como concorrentes), mas a maioria dos executivos pensa que em lar e família como algo a ser lidado – como um apoio emocional e físico. Segundo Welch, o chefe típico sabe “acomodar desafios pessoais e de trabalho se você conseguir isso sem perder desempenho.“ Em outras palavras, você hipoteca sua vida à empresa no presente e então espera pode tê-la em um futuro incerto.  
Infelizmente, esta estratégia não funciona realmente porque com o passar do tempo você percebe que seu trabalho e vida estão fora de esquadro, bem como seus hábitos, expectativas, responsabilidades e relacionamentos (ou a falta deles).  Você já criou seu próprio “sistema” – que seria a combinação de sua cultura de organização, seu cargo e seus hábitos de trabalho – que funciona desde que você considere seu trabalho em primeiro lugar e tudo o mais em segundo plano, terceiro ou nem considere. Este sistema demanda longas horas longe de casa. Eventualmente, sua esposa, filhos, amigos, igreja e comunidade se acostumam à sua ausência e desenvolvem rotinas que requerem sua presença mas fazem o seu envolvimento do dia-a-dia desnecessário.
É importante perceber que o balanço não se limita a ter tempo livre, mas viver uma vida mais rica e intensa – e que seja mais agradável e significativa. Isso implica que você tem que ter o trabalho na perspectiva de uma das muitas coisas em que você quer se destacar, mas não o que define quem você é. O equilíbrio também não significa necessariamente que você tem que trabalhar menos horas – todos, incluindo o CEO, trabalham para os outros e respondem às demandas através do controle delas – mas balanço significa ganhar controle sobre quem, onde e como o trabalho é feito.
Se você é um dos muitos cuja visão estreita do mundo consiste em trabalho e sono, o processo de recalibrar seu sistema para se autodefinir pelo seu trabalho é difícil. A chave para o equilíbrio é ter compromissos externos que aparecem em sua agenda e tratá-los com o mesmo nível de dedicação que você dá ao trabalho. Welch diz a verdade quando lembra que na maioria das empresas “o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho é o seu problema a ser resolvido”, e que “as pessoas que se esforçam publicamente (com isso) ficam aprisionadas, ambivalentes, rotuladas, não compromissadas e incompetentes”.
Em vez de deixar o trabalho tomar todo o seu tempo, imponha limites. Ganhe vantagem com o fato de que as empresas e diretores valorizam os resultados mais do que um esforço: descubra como trabalhar de forma mais esperta – e como gerenciar o seu tempo. Quando alguém tenta ter um compromisso externo, adota o mantra: “Não reclame; não justifique”. Apenas faça com que saibam quanto tempo você tem, e trabalhe a partir daí.
Os que estão nos vinte e poucos anos têm a oportunidade de estabelecer um equilíbrio em sua agenda pessoal e de trabalho desde o começo. Continue ou incorpore as atividades extracurriculares que você gostou nos tempos de faculdade. Se você eventualmente se casou e tem filhos, terá de esquecer algumas dessas atividades, mas terá codificado um sistema que não deverá exigir que mude de empresa, cargo ou carreira para se tornar o marido e pai que deseja. Fique atento, entretanto, que se você fizer isso, afetará as empresas que escolher e os cargos que aspira.
Uma vida equilibrada pode dar uma leve ofuscada em seu brilho como gerenciador, ou até ativar a percepção de que você está na função errada ou na empresa errada. Mas qual é a alternativa? Por toda a paixão que você dedicou ao trabalho e a alegria que você adquiriu criando e colaborando com outros, no fim do dia, é apenas um emprego. Ele não te abraça quando você está triste, e certamente não irá cuidar de você quando você ficar mais velho.
A maioria de nós não está destinada a ser e não quer se tornar o próximo Jack Welch. Boa coisa, porque ele soa um tanto melancólico quando afirma “meus filhos foram criados quase totalmente pela mãe deles” e nos adverte que quando se trata deste equilíbrio, devemos que fazer como ele diz, e não como ele fez. 

Susan Cramm é fundadora e presidente do Valuedance, uma empresa de executive coaching em San Clemente, Califórnia. E-mail  susan@valuedance.com.

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