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Comece já a olhar para 2020 e a preparar a sua empresa

O pensamento futuro passa a ser fundamental se quisermos criar efetivamente novas fontes de valor

Cezar Taurion *

07/01/2016 às 7h45

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Transformação digital já não é mais uma discussão sobre o futuro. Está presente no dia a dia, afetando empresas e a sociedade, criando novos modelos de negócio. Participando de diversos eventos com CIOs ficou claro que a maioria, embora ciente dos desafios impostos pela transformação digital, por várias razões, inclusive pressão pelo curto prazo e a crise econômica, não dedica o tempo adequado a se preparar e preparar a sua empresa.

Recomendo enfaticamente aos CIOs e demais C-level olhar pelo menos cinco anos à frente e investir 5% de seu tempo, pelo menos, se preparando para este desafio. Afinal, como diz Peter Drucker, “In times of change the greatest danger is to act with yesterday´s logic”.

Devemos olhar o cenário dos próximos cincos anos, até 2020, com a consciência de que a transformação é exponencial e não linear. Isso significa que, para entender a amplitude do que vem pela frente, devemos voltar o olhar, no mínimo, para dez ou quinze anos atrás, e ver o presente à luz das mudanças comparadas com este passado recente.

Em 2005 não havia iPhone ou tablets, o internet banking era incipiente (mobile banking, nem pensar...), o e-commerce estava começando, Facebook, Twitter, WhatsApp, Skype, Waze, Uber, Airbnb ou não existiam ou estavam dando seus primeiros passos e mal imaginávamos o que seriam hoje e como mudariam nossos hábitos. A recente crise do bloqueio WhatsApp aqui no Brasil mostrou isso. Ficar doze horas sem ele foi um stress imenso. E o app surgiu apenas em 2009, com o seu uso começando a se alastrar no país  a pouco mais de 2 a 3 anos.

Ao pensarmos de forma linear diante de uma evolução exponencial corremos o risco de cair na terrível armadilha de subestimar o impacto das transformações em curso. No início dos anos 80s, a conceituada consultoria McKinsey aconselhou a AT&T a não entrar no mercado de telefonia a móvel, prevendo que em torno do ano 2000 este mercado não chegaria a um milhão de aparelhos, devido ao seu alto custo. No ano 2000 o mercado já chegava a 100 milhões de celulares. O erro de 99% fez com que a AT&T perdesse a grande onda da mobilidade. Este fato está documentado neste artigo da The Economist, de 1999: “Cutting the cord”.

Outros exemplos de previsões de futuro baseados no pensamento linear estão por toda a parte. Em 2009 o Gartner previu que, em 2012, o sistema operacional móvel mais popular seria o Symbian, com Market share de 39%, e o Android não chegaria nem a 15%. A realidade? No fim de 2012 o Symbian saiu do mercado e o Android já era o líder do setor. Vale a pena ler o texto “Why are analyst predictions always so wrong?” e refletir também sobre o artigo “The Case For Intelligent Failure To Invent The Future". O risco de mantermos nosso pensamento linear diante de uma evolução exponencial, que dobra a cada poucos anos, é que cada erro de previsão é de 50%. Se errarmos em poucas provisões, simplesmente não teremos mais condições de nos mantermos no mercado. Já estaremos sendo ultrapassados e nos tornando obsoletos.

Para olhar à frente quebrando o paradigma da visão linear sugiro ver também o excelente vídeo do futurista Gerd Leonhard no YouTube. É longo, cerca de 75 minutos, mas extremamente instigante. Um excelente investimento de tempo.

Alguns comentários sobre a apresentação dele. Um ponto que chama atenção é que as mudanças não podem ser impedidas por legislação ou lobby protecionista.  Gerd Leonhard cita o caso da indústria da música, que teve o modelo de negócios baseado em CDs simplesmente destruído. Lembra que os vencedores da indústria em seu momento atual, streaming, não são as poderosas gravadoras que dominavam a indústria, mas empresas de tecnologia recentes como Apple, Facebook e Spotify. Aborda o cenário dos veículos autônomos, que devem se disseminar em ritmo muito mais intenso e acelerado que as primeiras estimativas, o que vai afetar muitas profissões e industrias, da própria indústria automotiva, passando por seguros de veículos, chegando aos motoristas e taxistas.

Gerd Leonhard chama atenção para o fato de o Google se tornar um “global operating system”, uma empresa de AI (Artificial Intelligence). No futuro, segundo ele, nós não vamos precisar fazer buscas como hoje, porque os assistentes pessoais (como o Google Now) já saberão antever o que queremos. E vislumbra uma verdadeira guerra entre os assistentes pessoais, como o Siri, da Apple, Google Now, o Moneypenny, do Facebook e o Echo, da Amazon pela preferência do mercado. Estes assistentes farão com que o usuário escolha uma ou outra plataforma.

Segundo  Gerd Leonhard, automação, robótica, assistentes inteligentes e IA irão transformar a sociedade, cultura e negócios. O crescimento da IA vai afetar muitas profissões. É provável que pelo menos 50% das assessorias financeiras prestadas hoje por bancos e especialistas serão feitas automaticamente, self-service, por algoritmos. 

Os impactos transformadores virão da combinação do que Gerd Leonhard chama de 7-actions: Digitization, Dematerialization, Automation, Virtualization, Optimization, Augmentation e Robotization. Os desafios são muitos. O pensamento futuro passa a ser fundamental. Se quisermos efetivamente criar novas fontes de valor, temos de entender para onde todas estas mudanças estão nos conduzindo. E infelizmente, há muito pouco da experiência coletiva que possa nos ajudar a trilhar o caminho, pelo tipo de mudanças disruptivas que vemos à frente. Nos basearmos em best practices, é, portanto, impossível, pois elas simplesmente ainda não existem.

Um exemplo de como a mudança exponencial é subestimada é o Human Genome Project. Foi lançado em 1990, com estimativa de ser concluído em 15 anos a um custo de US$ 6 bilhões. Em 1997, portanto na metade do prazo, apenas 1% do genoma humano tinha sido sequenciado. Pelo planejamento linear que nós adotamos, supondo 1% em 7 anos, levaríamos 700 anos para concluir o sequenciamento. Parece lógico não? A pressão para encerrar o projeto foi imensa, mas quando perguntaram ao futurista Ray Kurzweil, ele disse “1% significa metade do caminho. Vamos em frente!”. Ele pensou exponencialmente. 1% dobrando a cada ano significa chegar aos 100% em 7 anos. O projeto foi concluído em 2001, quatro anos antes do planejado e custando muito menos dinheiro que o estimado. O pensamento linear, tradicional, errou o alvo por 696 anos!

As disrupções estão à nossa volta. Imaginarmos que só vai ocorrer com os outros setores e que o Brasil estará imune, não vai impedi-las de chegar aqui. Podemos ter até um certo espaço de tempo entre as mudanças ocorrendo lá fora e aqui no país, mas que irão chegar, é inevitável. Willian Gibson escritor futurista criador do termo cyberspace, costuma dizer que “"o futuro já chegou, só não está uniformemente distribuído".

Bem, para terminar, uma frase conhecida, mas extremamente aplicável aqui, de Alan Kay:  “The best way to predict the future is to create it”.

Portanto, a pior decisão é ficar esperando as coisas acontecerem. Ou imaginar que o futuro só afetará os outros negócios, porque o seu é sólido hoje...

 

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, CEO da ThinPost e autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data