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Fintechs da China, EUA e Brasil têm algo em comum?

Olhar esse cenário com uma lente mais aberta, observando potências globais, nos faz ter uma análise mais concreta

Caroline Capitani *

28/06/2018 às 6h42

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A
China, o país mais populoso do mundo, tem dominado o cenário de
fintechs global. E o comércio eletrônico é um dos grandes responsáveis
por isso. Os EUA, por sua vez, especialmente o Vale do Silício e Nova
York, representados pelo pólo tecnológico e a capital financeira do
planeta, respectivamente, também têm contribuições importantes quando o
tema é revolução da indústria financeira. E o Brasil, país que passa por
uma crise política e econômica, que tem uma indústria financeira
madura e extremamente regulamentada e oligopolista, está vivendo um
período de ascensão de fintechs, abarcando o maior número de empresas
nascentes nessa área na América Latina.

Falando
especificamente da China, era um setor de demanda reprimida, com espaço
para novos serviços bancários digitais. Quem acabou ocupando este
grande mercado mundial foram empresas que já possuíam milhares de
usuários e, para elas, criar novos serviços financeiros era apenas uma
camada comoditizada que seria usada para evoluir seu produto principal.
Estou falando da Baidu, que conecta pessoas com informação; o Alibaba,
que conecta pessoas com produtos; e a Tencent (dona da WeChat),que
conecta pessoas com outras pessoas. Esses big players foram
responsáveis por puxar o bilionário mercado de fintechs na Ásia,
investindo pesado em tecnologias emergentes para prover os melhores
serviços financeiros para a próxima geração, como soluções de
blockchain, machine learning e inteligência artificial. Esse movimento
não ocorreu da mesma maneira na América e Europa, visto que a Google, a
Amazon, o Facebook e a Apple – que juntas formam a sigla GAFA – não
levantaram fundos para criar spin-offs para desenvolverem suas fintechs
como as gigantes listadas acima fizeram na China.

Vale
ressaltar ainda que, além de uma grande massa de consumidores
desassistida pelo sistema bancário chinês, as pequenas e médias empresas
(PMEs) também passaram a recorrer cada vez mais a provedores
alternativos de crédito, pagamentos, investimentos, seguros etc.
As grandes plataformas amplamente usadas no país permitiram capturar
dados que agora estão sendo utilizados para oferecer serviços melhores e
experiências mais abrangentes do que os players tradicionais de
serviços financeiros.

Por
mais que existam lições a serem aprendidas com a ascensão das fintechs
chinesas, nem todos os produtos e serviços podem ser simplesmente
replicados no Ocidente, principalmente em função da burocracia e cultura
de cada país. A combinação da rápida urbanização chinesa, com um
sistema regulatório mais brando, amplo mercado de pequenas e médias
empresas, alto crescimento do comércio eletrônico e explosão da
penetração do online e comunicação móvel criou um terreno favorável
para a inovação nos serviços bancários e financeiros de forma mais
ampla. De qualquer maneira, podemos esperar que a próxima fase de
desenvolvimento das fintechs chinesas influencie em como os serviços
financeiros globais serão entregues no futuro. Vale lembrar, ainda, que
os chineses são conhecidos por se movimentarem muito rapidamente e
trabalharem horas e horas ininterruptas para iniciarem novos negócios. E
isso pode fazer toda a diferença no dinamismo que vivemos.

Os
EUA, nesse contexto, pode ser visto, sem dúvida, como um "país amigo"
das fintechs. Lá elas despontam em termos de números totais de fintechs
em operação, em diferentes categorias de atuação. O setor é composto
por milhares de empresas menores, que normalmente começaram com base
zero e não são oriundas de companhias pré-existentes que criaram
produtos financeiros em cima. Aqui está uma das diferenças perante ao
movimento que aconteceu na China, por exemplo.

Percebe-se,
nos EUA, algumas tentativas de disrupção maior. Frequentemente
identificamos iniciativas com alto grau de ineditismo. A startup
Blockstream, por exemplo, criou o Blockstream Satellite, o primeiro
serviço do mundo que transmite transações de Bitcoin em tempo real, por
meio de um grupo de satélites no espaço. A empresa está pensando lá na
frente, preocupada em dar acesso gratuito à rede Bitcoin, incluindo os 4
bilhões de pessoas não conectadas à Internet, devido à falta de
disponibilidade ou acessibilidade. Isso justifica o porquê, em um estudo
recente que elencou as 250 fintechs que irão mudar o mundo financeiro, a
grande maioria das que foram apontadas com potencial estarem abrigadas
nos Estados Unidos, especialmente no Vale do Silício e Nova York.

O
Brasil, por sua vez, figura em um contexto de fintechs que não
movimenta cifras nos mesmos patamares que no mercado chinês e
estadunidense. Porém, tem sido a esperança na popularização e
acessibilidade de diferentes produtos bancários, devido ao aumento
constante dessas iniciativas, especialmente nos últimos três anos. Os
próprios fundos de Venture Capital estrangeiros têm olhado e realizado
investimentos nas fintechs brasileiras por identificar esse potencial.

fintech

A
concentração no mercado bancário no país e o seu impacto sobre as altas
taxas de juros cobradas aos tomadores de crédito abre um enorme espaço
para a concorrência. Atualmente quatro bancos detêm cerca de 80% do
mercado de crédito no Brasil. E as fintechs obviamente estão atentas a
isso, com o intuito de prover melhor produtos e serviços e, aos poucos,
ir quebrando essa supremacia e "conquistar" uma fatia de clientes
insatisfeitos com o que se tem disponível hoje. O apelo de experimentar o
novo também tem motivado, especialmente as novas gerações desapegadas a
marcas tradicionais, a irem para as fintechs. E essas estão apostando
suas estratégias de aquisições de clientes pelo boca em boca, com pouco
gasto em marketing.

Acredito
que são as ações coletivas que determinarão o futuro da indústria e as
consequentes perspectivas. Por este motivo, olhar esse cenário com uma
lente mais aberta, observando potências globais, nos faz ter uma análise
mais concreta. Apesar das dificuldades da replicação e exportação de
modelos de negócios domésticos no exterior, esse movimento pode sim
acontecer pela ambição de muitas empresas serem globais e exponenciais.
Para tanto, é preciso se adaptar às normas e expectativas culturais
locais, legislação e se concentrar em quesitos de segurança. Há ainda a
necessidade das fintechs estarem abertas a parcerias e negócios com
compradores e investidores estrangeiros.

Além
dessa potencial abertura das fronteiras, vejo com bons olhos uma maior
inovação nos produtos e serviços financeiros, com clientes tendo mais
opções de escolha e suas necessidades atendidas, além de incluir aqueles
que ainda estão às margens.

 

(*) Caroline Capitani é vice-presidente de Business Innovation na ilegra

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