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De IA a inovação e empatia: 6 lições aprendidas no SXSW

CIO do Grupo Fleury, Luzia Sarno, revela os destaques do evento e indica caminhos possíveis da TI para os próximos meses

Luzia Sarno *

20/03/2019 às 8h10

Foto: Shutterstock e acervo pessoal de Luzia Sarno

Participo de vários eventos, mas esse realmente achei diferente e gostei da maior parte das palestras. Fiquei imersa em um clima bem informal, em que a criatividade é fomentada e estimulada. Pessoas de diferentes áreas, culturas e experiências aprendem e trocam experiências.

Estou falando do SXSW (se diz South by Southwest) que começou em 1987 com festivais de cinema, música e hoje incorpora tecnologia de maneira geral e várias trilhas para diferentes indústrias (saúde, varejo, automobilística etc), além de painéis técnicos, como blockchain, por exemplo. Sediado em Austin, Texas, USA, o evento ocorreu de 8 a 17 de março de 2019.

A dificuldade é escolher e poder ouvir tantas coisas legais (em média mais de 20 palestras em paralelo). Cito algumas que me chamaram atenção, estando ou não presente. A beleza é que disponibilizaram alguns materiais para quem quisesse ouvir o que perdeu (alguns painéis com filas maiores do que as da Disney, mas também contam com um fast pass ?). Ajudou participar de um grupo no WhatsApp fantástico de brasileiros que compartilharam muitas e muitas coisas, sendo que o Brasil tinha a maior congregação estrangeira. Estamos realmente entrando na era da inovação!

Vale a pena reservar um tempo e investir em ouvir. Aconselho escolherem também assuntos fora do seu negócio ou zona de conforto. Abaixo minha seleção, só como sugestão, mas no link oficial você pode acompanhar os conteúdos.

Além do conteúdo, destaco também várias “casas” de fornecedores e países nos arredores com muita coisa interessante para ver como AR/VR/robôs. Sem esquecer da feira com temas bem diferentes: máquina de fazer sushi que te reconhece e prepara comida em 3D com seu gosto e suas necessidades nutricionais; aparelho para ouvir o batimento do bebê que grava, gera gráficos e diz se está dentro do normal e várias novidades brasileiras.

1. Empatia / Soft Skills / Ser humano / Diversidade

Para nós de tecnologia é bem importante ouvir sobre soft skills, lado humano, empresas empáticas, discussões diversas sobre diversidade etc. Vários painéis e palestras focaram o assunto.

Uma muito boa foi da psicoterapeuta Esther Perel sobre relacionamentos no ambiente de trabalho e, claro, como isso afeta a qualidade do serviço que a empresa oferece.

Parece óbvio, mas porque esquecemos que comunicação, transparência, confiança, feedback, medos, culpa, recompensa, expectativas, enfim, tudo que vivemos no dia a dia, também se aplica diretamente no ambiente de trabalho, inclusive separação e traição. Em sua apresentação, ela citou três pilares que temos de gerenciar: aumento das expectativas, domínio das emoções e liberdade de realização.

2. Inovação – As tendências não óbvias

Uma apresentação diferente foi a do Rohit Bhargava, autor de vários best-sellers e expert em inovação e marketing, que falou sobre as sete principais tendências não óbvias para o ano de 2019. Não concordo com todas, mas aí vão:

- Movimento Retrô – parece que a tecnologia avançou mais do que deveria e, em alguns casos, os usuários querem dar um passo atrás. Ele citou a John Deere, que lançou tratores menos automatizados pois não há mão de obra no campo que dê manutenção ou a tendência da volta de fliperamas e jogos mais antigos.

- -Masculinidade confusa – a provocação era no equilíbrio entre machismo e masculinidade, pois, segundo ele, os homens estão confusos em como se comportar no ambiente de trabalho. Era o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, e a pergunta que ele fez era se deveria nos parabenizar ou se isso seria ofensivo... no comments...

- Inveja pela inovação – ele brincou com empresas que querem inovar por meio de um estudo de caso. Ora, se já tem um estudo é porque não é mais inovador, alguém já fez! E que também não dá para dar copy/paste no que alguém já fez, pois depende de cultura, contexto, indústria etc.
Inteligência artificial – só não entendi o porquê do não obvio....

- Empatia empresarial – essa eu gostei. Exemplo de como a empresa realmente se coloca no sapato dos clientes e se humaniza. Citou uma empresa que fez um “slow checkout” para as pessoas mais idosas ou sossegadas não serem apressadas. Outra que abre mais cedo para autistas que não gostam de barulho e muitas pessoas por perto e podem fazer suas compras mais tranquilamente

- Renascimento dos robôs – robôs existem há tempos na indústria, mas agora se tornaram realidade no dia a dia, como hotéis, bancos etc

- Back storytelling – difícil traduzir o título. O conceito aqui é o de que o briefing não tem mais valor nas empresas, mas sim depoimentos de clientes do que foi entregue, com a empresa ajudou etc.

E a frase do Isaac Asimov, muito apropriada – “I am not a speed reader, I am a speed understander”.

3. AI – Inteligência Artificial (na área da saúde)

Muitas palestras falando sobre o assunto, em particular vi várias de saúde. Abaixo, compartilho alguns insights:

- Médicos gostariam de, além das informações dos wearables, ter relatórios com AI para agregar a interpretação.

-  Provocação: a tecnologia falha, mas também o ser humano. Portanto, não se pode confiar cegamente em nenhum. A AI vem para ajudar a diagnosticar e não para substituir, mas o humano não é infalível.

- Tecnologia vem para democratizar e trazer saúde para mais pessoas, ao baratear diagnósticos. Um dos médicos citou o exemplo que anos atrás uma mulher iria ao médico para confirmar a gravidez e hoje um simples exame de farmácia o faz com alta acurácia logo no início da gestação e com preço irrisório. Assim, com AI, diagnóstico de exames sofisticados podem se tornar mais baratos e acessíveis

- Sugestão interessante de como engajar os pacientes no cuidado com sua própria saúde: usando modelo do varejo, como Amazon ou Netflix – como posso conhecer melhor o paciente e sugerir coisas que o motivaria a se cuidar?

- Uma especial com Dr David Feinberg, head de Saúde do Google – perguntou à plateia quem tinha ido ao médico nos últimos 60 dias, algumas pessoas levantaram a mão. Perguntou então quantos tinham consultado o Google sobre doenças, diagnósticos, tratamentos etc – muito mais pessoas levantaram a mão. Segundo ele, há 1 bilhão de pesquisas no Google por dia sobre saúde!

- Ainda com Dr David – reconhecimento de imagens para retina de diabéticos, segundo ele, com uma performance bem melhor que oftalmologistas e que ainda identifica outras possíveis patologias e ainda reconhece se é uma retina de um homem ou mulher (?!?!), que não tem, nesse momento, aparentemente nenhuma relevância... ou será que tem?

- Discussão sobre a entrada dos grandes players – Apple, Google, Amazon na indústria da saúde, o que buscam e como se direcionarão? Healthcare is the new black.

Mas, no final, o que é mais importante: estudos mostram que um profissional de saúde empático produz resultados bem melhores no tratamento dos pacientes, independentemente do seu conhecimento ou habilidades técnicas. Portanto, o lado humano tem de ser mais privilegiado. O médico tem de conversar com o paciente e a tecnologia servir como apoio e produtividade.

4. Tendências futuras

Ponto alto foi a palestra de Amy Webb, autora e professora na Universidade de NY, conhecida sobre o relatório gratuito anual de tendências tecnológicas, já na sua 12ª edição. O material é extremamente rico, 315 tendências em 26 indústrias diferentes e desenha cenários otimistas, neutros e pessimistas sobre o futuro. Insights:

Não se iluda em entender só sua indústria, tudo está interconectado.

Privacidade morreu, o que não necessariamente é ruim, segundo ela. O lado negativo já é bem explorado, mas um positivo é quando há valor agregado em troca das nossas informações. Ela exemplifica sobre a nossa identificação em várias situações (carteira de identidade, motorista, cartão de crédito, passaporte, uso de e-mail, celular, banco, enfim, tudo que está atrelado à nossa pessoa). Imaginem se, seja por reconhecimento facial ou qualquer outra coisa semelhante, pudéssemos fazer todas as transações sem nenhum documento adicional?

Ela fala sobre a(o)s assistentes pessoais da Amazon (Alexa), Google (Google Home) e Apple (Siri) e como vão e estão colhendo continuamente dados das pessoas. Chamou atenção sobre uma nova função da Alexa (Amazon) que fala com o micro-ondas e o que está por trás: o rastreamento do que ocorre com nossa comida fora de casa está razoavelmente coberto, mas dentro de casa, não. Com isso a Amazon fecha o ciclo, prevê e entende o consumo mais rapidamente, e com reconhecimento do humor (pela voz) percebe e colhe mais e mais dados. O que farão com isso, quem viver verá .... Admirável Mundo Novo mesmo!

Para ter acesso ao relatório completo, clique aqui e a dica dos autores é: Begin with the Executive Summary and Keywords, then review the top tech trends listed for your industry... Mas o legal é ver o todo, pois não vamos nos iludir, o que está afetando a indústria do vizinho vai nos afetar também.

E, por fim, lembram do livro The Four (FAGA - Face, Amazon, Google e Apple)? Amy lançou The Nine - além dos FAGA, entram Microsoft, IBM e três chinesas: Alibaba, Baidu e Tencent, briga realmente de gente muito grande. Vamos assistir aos próximos capítulos e ver como nós, meros mortais, seremos ou não afetados por isso.

Em tempo, houve uma palestra do Roger McNamee (primeiro mentor de Mark Zuckerberg), que criticou duramente as grandes empresas (Face incluso) e o que estão fazendo com os dados coletados.

5. Tecnologia – AR/VR/IA/Blockchain e todas demais sopas de letras que conhecemos

Várias palestras e apresentações, nas casas e na feira. Escolhi citar aqui uma de Blockchain com Joseph Lubin, co-fundador da suíça EthSuisse, que contribuiu fortemente para a Ethereum, uma das plataformas de criptomoedas descentralizada.

6. Brasil!

Muita coisa legal, esse é o Brasil que dá certo. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) levou uma delegação de 40 empresas, que participaram da feira e de rodadas de negócios pré-agendadas.

Além disso, montou a CasaBrasil, que serviu como espaço de networking e coworking, além de palco para apresentações sobre tendências e inovações desenvolvidas no País. Os participantes da delegação brasileira foram: A+ Productions, AIS Digital, BeerOrCoffee, Cafundo Creative Studio, Duo2.tv, Enlizt, Flex Interativa, Asteroide TV, Gravidade Zero & Monster Capture, In Loco, Mass Labs, o2 play, PenGuin Animation, Plurall.Netwoek, Preta Portê Filmes, Sétima Cinema, Super8Prod, Take, TRiO, Unocode, Biosolvit, Bluezup, ClassApp, DealerNet, Dentro da História, Fotop, Holobox, InEvent, Instanteaser, Joco, Looqbox, Mauro Castro Motion Design, Nodo Digital, OBr.global, Peer2BeeR, Shawee, SlicingDice, Trakto, VATI, wesense art & tech.

Além disso, espiei a EmbraerX, com soluções que têm o potencial de reinventar não apenas os negócios atuais da Embraer, mas também o setor de transportes. Montaram uma sala com Lego Play com o mote de “The future is yours to build”, assisti palestra da empresa MESA com as incríveis Barbara Soalheiro e Ligia Giatti ([mesa.do]mesa.do) apresentando uma metodologia bem interessante, efetiva e rápida para resolver problemas complexos. Ouvi muita coisa boa da palestra do Paulo Rogerio, fundador da Vale do Dendê, holding social destinada a fomentar ecossistemas de inovação e criatividade com foco em diversidade.

 

(*) Luzia Sarno é diretora corporativa de TI do Grupo Fleury

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