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Conselho para os CIOs: saia já da zona de conforto

Como inovar se não se busca novas capacitações, necessárias para uma nova TI?

Cezar Taurion *

06/09/2018 às 13h03

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“Se andarmos apenas por caminhos já traçados, chegaremos
apenas aonde os outros chegaram”. A frase, atribuída a Alexandre Bell, tem
muito a ver com o momento atual de Transformação Digital e o papel do CIO.

A Transformação Digital está mudando profundamente o
contexto estratégico, alterando a estrutura da competição, a condução dos
negócios e eliminando a fronteira entre os setores de indústria. Baixa as
barreiras de entrada e permite novos entrantes aparecerem muito rapidamente,
ameaçando a ordem natural das coisas.

A natureza “plug and play” (como blocos Lego) dos ativos
digitais cria novas cadeias de valor que desagregam as cadeias estabelecidas,
forjando novos competidores. Um exemplo desse “plug and play” é o conceito de
plataforma. Como a da Amazon,  que oferece serviços de logística, lojas virtuais e
recursos computacionais (cloud). Para usar, basta plugar estes serviços em sua
própria cadeia de valor.

Diante deste cenário, é inevitável que a área de TI esteja
caminhando em direção a um novo mundo, onde, com algumas exceções, não haverá
mais data centers, suporte a desktops, plataformas de e-mail e outras coisas
que são costumeiramente mantidas hoje dentro das empresas. Quando? Difícil
dizer, mas o certo é que ritmo da caminhada está se acelerando.

O que as empresas e as áreas de TI devem fazer? A opção de
esperar para ver talvez seja lenta demais e a empresa e o setor de TI correrão
o risco de perder seu espaço e relevância. O contexto das mudanças em TI não se
limita à questão de colocar sua infraestrutura em cloud, mas envolve muito mais
que isso. Também o desenvolvimento de sistemas, tão protegido por processos e
métodos que se consolidaram por mais de vinte anos de best practices também
está sob pressão. O mesmo acontece com o próprio modelo de organizar e pensar
TI.

O principal desafio é mudar a maneira de pensar, o paradigma
ou modelo mental, que construímos para montar o que constitui a TI hoje. Se não
aceitarmos que as regras que moldaram o atual modelo de TI está sofrendo
mudanças drásticas, vamos perder o tempo do processo. A nova maneira de pensar vai contra o que aprendemos e que há décadas colocamos em prática.

Vamos analisar o contexto. Muitas empresas estão focadas em
modernizar o seu portfólio, consolidando aplicações e construindo apps. Mas,
questiono, será que não estão modernizando suas carruagens quando um novo
veículo, o automóvel já começou a rodar pelas ruas? Que adianta modernizar os
processos de fabricação de filmes químicos quando a fotografia se torna
digital? Que adianta um app modernoso se os processos de back office continuam
obsoletos e lentos?

Claro que é necessário que o CIO mantenha o dia a dia, mas
esperar arrumar a casa para então olhar a Transformação Digital significa,
muito provavelmente, que vai chegar na estação depois da saída do trem...e que hoje
é trem bala!

É interessante observar que quando abordamos o tema de Transformação Digital muitos gestores de TI colocam barreiras. Não é surpresa,
uma vez que, ironicamente, TI é uma das funções mais resistentes às mudanças
dentro das organizações. A explicação talvez seja a de que muitas funções em TI
são dependentes do sucesso de determinadas tecnologias, para os quais os
profissionais se tornaram experts. Sair desta zona de conforto e entrar em um
conjunto de novas tecnologias, novas práticas e novos modelos organizacionais
causa, naturalmente, reações contrárias. Como são profissionais talentosos,
suas argumentações são sólidas e geralmente suportadas por seus pares.

Querem alguns exemplos? Porque ainda se ouve que a empresa
não adota cloud computing porque cloud é insegura? Muitas vezes estes
comentários partem de CIOs que mantém seus data centers muito mais inseguros
que os oferecidos por provedores de cloud de primeira linha. O pressuposto que
um data center interno é inerentemente mais seguro é muito mais um imaginário
coletivo que realidade. É uma reação natural à disrupção na ordem natural das
coisas. 

Na minha opinião, aceitar e liderar estas mudanças na TI das
empresas é que vai fazer a diferença entre os CIOs. A TI foi doutrinada a
evitar riscos e manter a operação totalmente invisível aos usuários, reduzindo
custos e atendo-se à práticas estabelecidas há muitos anos. Romper com este
modelo mental não é simples. Ser inovador e “early adopter” não faz parte de
sua cultura e mindset.

Os desafios são vários. O primeiro, de capacitação. Será que
os profissionais das áreas de TI estão capacitados, por exemplo, a trabalhar em
cloud computing, desenvolvendo apps móveis e contextuais, utilizando práticas
de entrega contínua? 

Muitas vezes, as próprias empresas não consideram TI como
diferenciadora, apenas a enxergam como operacional. Assim, ainda é comum vermos
recrutamento dos profissionais restringindo-se a capacitações já estabelecidas.
Dificilmente vemos empresas buscando user designers para interfaces de apps ou cientistas
de dados para a construção de algoritmos de IA, mas vemos buscas por
profissionais em Java e SQL. Vemos empresas buscando profissionais certificados
em ITIL, mas não procurando pessoas com experiência em processos de entrega
contínua ou em algoritmos preditivos. Como inovar se não se busca novas
capacitações, necessárias para uma nova TI?

O modelo operacional de TI é um outro aspecto importante. De
maneira geral encontramos em muitas empresas uma TI orientada a custos, com
papel operacional, de suporte ao negócio, e tendo este custo avaliado em
relação a percentual do faturamento. Quando a receita da empresa cresce, a TI
pode aumentar seu budget. Quando a empresa reduz sua receita, o budget de TI
também é cortado.

Penso que este modelo de “fazer mais com menos” sufoca a
capacidade dos CIOs inovar. Eles ficam sob constante pressão para manter o
dia a dia com menos custos e com poucas chances de conseguir budgets para
inovar. Pior quando subordinados ao CFO, geralmente mais preocupados com
lucratividade e redução de custos à curto prazo e menos com inovação. Não é
vocação da maioria dos CFOs serem empreendedores e inovadores. TI poderia ser
visto de outra forma, como uma função direcionada a alavancar novas receitas. Porque TI
não pode gerar oportunidades de criação de novas fontes de receitas para a
empresa? Mas, para isso será necessário uma significativa mudança no seu modelo
mental, pois deve passar a atuar como uma empresa por si, com a agilidade de uma
startup.

TI também precisa estar entranhada no negócio. Uma prova de
como muitas empresas mantém sua TI afastada do negócio é que é muito raro
vermos CIOs apresentando palestras em eventos específicos de indústria. De
maneira geral eles apenas participam de eventos de tecnologia.

Uma outra variável é a velocidade de resposta. Uma TI
voltada a negócio, gerando receita tem que ser oportunista, o que bate de
frente com os seus processos atuais, que demandam longa maturação, desde a
solicitação pelo usuário à implementação operacional. As práticas e processos
de TI são rígidos e ancorados em modelos voltados a um contexto onde velocidade
não é a variável mais importante. A realidade é que tornou-se comum piadas que
envolvem TI com a palavra “não” inserida nelaa: “não tenho recursos”, “não tenho
tempo”, “não tenho capacidade computacional”. 
A TI deve medir seu tempo de resposta em dias e não mais em semanas ou
meses.

Para atuar de forma oportunista, criando novos engajamentos
com clientes, é preciso atuar no tempo correto. Um atraso de semanas (meses,
nem pensar) e lá se vai a janela de oportunidade. TI deve ser por natureza ágil
e veloz, em todos os aspectos.

Tecnologia é outra variável. A tecnologia vem evoluindo
muito rápido e a tendência é de aceleração. Com novas tecnologias, surgem novas
oportunidades de exploração para TI. Assim, dispositivos móveis e vestíveis,
Internet das Coisas, modelos preditivos, impressoras 3D, drones, RA/RV, não
devem ser vistos como ciência futurista, mas como parte natural do portfólio. 

Mobilidade
é um exemplo. Já está tão entranhada na sociedade e seus hábitos que falar em
estratégia de mobilidade para daqui a um ou dois anos será tão obsoleto como
falar hoje em estratégia de eletricidade, que era novidade nos idos do início
do século XX.. Aliás, a velocidade das mudanças é tão acelerada,  que já nem devemos falar em “Mobile First”,
mas em “AI First”!

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TI tem que se reinventar constantemente. Infelizmente vemos
ainda muitas empresas com uma TI que parece a mesma, em sua tecnologia,
processos e “best practices” com uma TI de dez anos atrás. Há dez anos não
existia iPhone (na verdade fez 11 anos, pois foi lançado em 2007, mas a
AppStore surgiu em 2008), AWS, DropBox, WhatsApp e outras coisas comuns hoje também não existiam. O
mundo de negócios hoje não é o mesmo de dez anos atrás e a TI não pode,
portanto, ser a mesma de dez anos atrás.

O CIO pode e deve ser o ponto focal das transformações
digitais. Para isso deve compreender as mudanças que já estão ocorrendo e
reinventar sua área e a própria função CIO. Criar nova maneira de pensar TI na
empresa e prover novos serviços e produtos. Ser veloz, ágil e inovador. Mas, infelizmente,
muitas vezes, o maior obstáculo da TI é a própria TI.


(*) Cezar Taurion é partner da Kick Ventures e presidente do i2a2, Instituto de Inteligência Artificial Aplicada

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