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Como é ser uma startup brasileira na capital da Inteligência Artificial?

Em poucos lugares o empreendedor, o potencial de um indivíduo e a clareza de sua visão, são tão valorizados, com sua aposta no futuro e não no fluxo de caixa

Evandro Barros *

28/11/2018 às 20h05

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“Think Global !”

A famosa frase deveria ser senso comum nas startups brasileiras. Porém, diferente do que vemos em Israel, Inglaterra e até mesmo na Argentina, atuar globalmente costuma estar no fim da fila dos objetivos primários das startups aqui no Brasil e é quase sempre visto como consequência de um grande crescimento no mercado interno.

É perfeitamente compreensível por que startups brasileiras pensam tão pouco nos mercados globais. O  tamanho do mercado nacional, a extensão territorial, o idioma e a quantidade de desafios internos faz com que startups vejam o país como o suficiente para se tornarem unicórnios.

No nosso caso, a DataH, por atuarmos com Inteligência Artificial (IA), nunca tivemos escolha.

A IA possui desafios globais conduzidos por comunidades que não possuem barreiras territoriais. São comuns as competições, os artigos científicos, a troca de idéias e técnicas com diferentes países. É uma comunidade global por natureza.

Internacionalizar portanto, sempre esteve em nossos planos, só não imaginávamos que seria tão rápido.

De repente lá estávamos nós, desembarcando em Toronto, capital mundial da Inteligência Artificial, sendo recebidos em um dos
mais renomados centros de inovação do Canadá, o Spark Centre.

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A primeira semana foi principalmente um processo de aculturação.  Para quem está acostumado a empreender no Brasil, compreender o mindset canadense e as peculiaridades de seu ecossistema é um processo mais complexo do que parece. O ambiente de negócios e inovação muitas vezes parecem surreais.

Me lembro claramente da manhã na qual todos os CEOs brasileiros presentes no programa tiveram seus paradigmas destruídos pelas diferenças de visão de negócios, e o abismo  entre as duas culturas se mostrou muito maior do que originalmente pensávamos.

No Brasil, pagar suas contas vem em segundo lugar, já que pagar o governo vem em primeiro. Isso faz com que empreendedores sejam hábeis em mudar de direção (ou mesmo não ter nenhuma) e em criar diversificações que permitam a sobrevivência a qualquer custo, ainda que isto drene toda a energia do negócio. É uma luta infindável pela sobrevivência no dia a dia. E, convenhamos, na maioria das vezes quem não fez isso fechou as portas.

No Canadá, a vida de uma startup é muito diferente, e foco é sempre a palavra chave nas reuniões de mentoria. É incompreensível à eles o quanto as vezes perdemos o foco para manter a operação de pé. Nosso ambiente de negócios é tão inóspito que quando explicávamos o nosso contexto, as reações  de espanto eram inevitáveis.

O modo como o governo canadense contribui com o setor privado também espanta qualquer brasileiro. No Canadá, startups e principalmente a IA é uma estratégia nacional de longo prazo. Um bom exemplo é o próprio processo de startup visa que levou 4 anos para ser formatado, sendo 2018 o primeiro ano oficial do modelo federal.

E o processo é simples, sem as burocracias às quais estamos acostumados. O governo dá incentivos a formação de alto nível, e isso atrai empresas de tecnologia que montam escritórios locais para facilitar a contratação de talentos. Estes escritórios geram em torno de si riqueza e ambiente adequados para a inovação. A inovação gera ainda mais riqueza que atrai novos empreendedores. Estes geram mais mão de obra que atraem mais empresas de tecnologia, formando um ecossistema de inovação, e o governo que iniciou o ciclo arrecada centenas de vezes mais.

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Parece obvio não é?

O governo canadense tem estimulado a pós graduação voltada para inteligência artificial como o objetivo de nos próximos cinco anos chegar ter a mais de mil novos mestres na área. O número de desenvolvedores na cidade de Toronto cresceu 40% no últimos cinco anos, e além disso há incentivos para todo tipo de pesquisa e desenvolvimento feito em parcerias com empresas. Só a Universidade de Toronto investe cerca de um milhão de dólares por dia, sim, por dia, em P&D.

“Sem problemas reais trazidos pelas empresas não há por que fazer pesquisa”. Quem nos dera ouvir isso por aqui…

O que esclarece as razões do sucesso. Uma grande diferença em relação ao Brasil está no fato de que no Canadá, para as grandes empresas acessarem recursos de fomento a pesquisa, precisam envolver uma startup para conduzir o processo, é por esta razão que centros como Waterloo conseguem fomentar negócios entre startups de veículos autônomos e grandes montadoras Toyota e Honda.

Este foco na formação faz com que o Canadá seja a principal fonte de fornecimento de talentos para grandes empresas como Nvidia, Facebook, Google, Microsoft, Amazon, IBM e outras. todas elas com escritórios próximos (para não dizer colados) à aceleradoras e universidades. “É comum as grandes empresas contratarem os alunos logo no primeiro ano, e alguns nem chegam a se formar, pois acabam desenvolvendo suas carreiras de outra forma, dentro destas empresas”, comentou um dos coordenadores do curso cursos de Ciência da Computação da universidade de Durham.

Mas a contribuição das grandes empresas de tecnologia vai além da contratação. Por exemplo, tanto a sede da Communitech quanto a da DMZ, hoje aceleradoras de renome mundial, ficam em edificações doadas pelo Google, a mesma que iniciou em parceria com a prefeitura da cidade o projeto Sidewalk Toronto, um projeto de smart city onde startups poderão se beneficiar dos sensores distribuídos pela cidade para criarem suas próprias soluções.

O acesso ao capital é outro ponto impactante no ecossistema canadense, não é raro encontrar representantes ou escritórios de empresas de venture capital dentro das dependências das aceleradoras e hubs de inovação. Além disso, os encontros com investidores anjos são extremamente organizados, a ponto de você ter que provar condições para investir, se quiser participar de alguma rodada com startups.

Mas se tivesse que destacar qual o motivo nos levou em 30 dias a decidir por iniciar uma operação canadense em 2019, eu diria que foi o mindset.  Em poucos lugares o empreendedor, o potencial de um indivíduo e  a clareza de sua visão, são tão valorizados, com sua aposta no futuro e não no fluxo de caixa como se faz costumeiramente aqui no Brasil.

“Nossa aposta é no empreendedor e não na idéia que ele criou, é a pessoa e não o produto”, disse uma pessoa ligada ao programa de inovação federal.

Bastava olhar paro lado para ver o quanto isso era real. Toronto com seus 150 idiomas mapeados e com 50% da população feita por imigrantes de todo o mundo concentra o maior número de startups do país. A junção Estado, iniciativa privada e academia trabalham em uma harmonia invejável gerando um ecossistema cada vez mais rico e inovador, uma relação de ganha-ganha difícil de acreditar, principalmente  para quem nasce em um local onde o amanhã é tão incerto e o futuro não é mais do que trinta dias à frente. Temos muito que evoluir para não perdermos mais uma oportunidade.

 

(*) Evandro Barros é CEO DataH

 

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