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Como a Inteligência Artificial pode ajudar o Governo a ser mais eficiente?

Processar exabytes de informações e transformá-las em indicadores que aprimorem e acelerem a engrenagem da máquina pública está entre os maiores desafios dos governantes

Salomão Filho *

31/03/2018 às 8h50

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Que
o brasileiro não está (e talvez nunca tenha estado) feliz com os serviços
públicos que recebe em troca dos impostos que paga não chega a ser nenhuma novidade. Uma
pesquisa da Ipsos apontou que somos o segundo povo mais insatisfeito com
o atendimento prestado pelo Executivo, com um índice de 70%, apenas 1%
atrás dos mexicanos, que lideram o ranking de reclamações.

Com
notas de 0 a 10 em uma outra pesquisa do Instituto Brasileiro de
Economia da Fundação Getúlio Vargas, realizada em São Paulo e no Rio de
Janeiro, os piores serviços públicos avaliados foram saúde, com nota
3,2, e segurança, com 3,6. Transporte recebeu 4,7 e universidades ficou
com 4,6, mesma nota de escolas e creches.

Caso a média fosse 5 estavam todos reprovados.

Os
números mostram que a equação altos impostos + má gestão dos recursos
públicos + serviços de baixa qualidade é igual a insatisfação + desperdício +
corrupção.

Essencialmente, um dos maiores desafios na gestão pública está na
captura e análise de dados para estruturar planejamentos mais eficazes
que resultem em um melhor atendimento ao cidadão. Processar
exabytes de informações e transformá-las em indicadores que aprimorem e
acelerem a engrenagem da máquina pública .

Justiça seja feita, o e-gov (governo eletrônico) já vem
fazendo avanços importantes no Brasil com a estruturação de serviços em
canais digitais. Mas
o cidadão brasileiro ainda passa muitas horas na fila e muitas vezes
volta para casa com as mãos abanando. Paga tributos altos e não consegue
atendimento nos hospitais, sofre com o transporte público e lamenta não
encontrar uma escola que garanta uma educação de qualidade aos filhos. 

Se
quiser dar um salto e sair da lanterna nos rankings da qualidade dos
serviços públicos, nossos próximos governantes precisarão definir
políticas públicas claras para investimentos em tecnologia,
especialmente em setores que ajudem a desburocratizar e melhorar a
produtividade, trazendo, em outras palavras, inteligência aos processos
administrativos e uma melhor governança.

Até
aqui a Internet nos permitiu construir uma enorme base de dados. Nestas
duas décadas em que nos tornamos uma sociedade conectada, colocamos nos
servidores e depois na nuvem um acervo de conhecimento que nos levará
agora, com o avanço da Inteligência Artificial, para uma nova Era.

As
máquinas (mais e mais) inteligentes estão avançando em inúmeros setores
da iniciativa privada – no mercado financeiro, no agronegócio, na
saúde, na educação, na indústria automotiva. Desnecessário dizer que os
próximos anos ( ou décadas?) serão decisivos na germinação de uma nova
economia resultante da Revolução Digital – a Economia dos Algoritmos. E nos Governos, em todas as esferas, não poderá ser diferente.

IA

A
tendência mundial, para a qual o Brasil não pode fechar os olhos, é implementar
serviços públicos alicerçados pela Inteligência Artificial para atender
os contribuintes. Um estudo do Ash
Center for Democratic Governance and Innovation,
da Harvard Kennedy
School, indica que os benefícios mais óbvios no uso da IA pela gestão
pública são aqueles que possam “reduzir encargos administrativos, ajudar
a resolver os problemas de alocação de recursos e assumir tarefas
significativamente complexas” e indica que, hoje, os serviços estão
concentrados em cinco categorias – responder questões, preencher e
pesquisar documentos, gerenciamento de pedidos, tradução e elaboração de
documentos.

Mundo
afora, governos estão adotando IA e colocando em operação chatbots que
funcionam como servidores públicos para atender a população. Os bots
estão ajudando a responder a maioria das dúvidas mais frequentes,
liberando os funcionários para atender as mais complexas. Com o tempo,
provavelmente estes robôs conseguirão interpretar os sentimentos dos
cidadãos e entender melhor o que desejam.

Mas o que mais a IA pode fazer na área governamental?

As
possibilidades são muitas: colocar nas ruas veículos autônomos para o
transporte público; evitar fraudes na requisição de benefícios e em
obras públicas (será o desejado fim da corrupção?); evitar quebras no
mercado financeiro; identificar riscos de segurança e problemas no
trânsito;  prevenir ciberataques... 

Quem está na frente?
Entre os países que vêm realizando os maiores investimentos em Inteligência Artificial
estão o Canadá, que lançou a Pan-Canadian Artificial Intelligence
Strategy
, liderada pelo Canadian Institute for Advanced Research, com
US$ 98,7 milhões em caixa aportados pelo governo canadense para colocar o
País entre os líderes no desenvolvimento de IA; a ambiciosa China, que
planeja avançar para assumir a primeira posição até 2030 como centro de
inovação, criando uma indústria de IA avaliada em US$ 147,8 bilhões; o
Japão, que criou o Artificial Intelligence Technology Strategy Council
para estimular pesquisa e desenvolvimento através da integração de
indústria, governo e universidades; o Reino Unido, que reservou US$ 22,3
milhões em fundos para universidades desenvolverem tecnologias de IA; e
os Estados Unidos, que também vêm investindo pesado em pesquisas para
fazer a transição para a economia algoritmizada.

A
Inteligência Artificial será a oportunidade, que não pode ser perdida,
da administração pública melhorar a qualidade de atendimento e os
índices de satisfação dos cidadãos. Porém, todo cuidado é pouco. O
estudo da Harvard também sinaliza seis estratégias que devem ser
adotadas na implantação de projetos de IA pelos gestores públicos:
estruturar um programa baseado em metas e centrado no cidadão; receber
sugestões do cidadão; desenvolver em cima de recursos já existentes;
cuidar da privacidade dos dados; eliminar riscos éticos e evitar a total
autonomia da IA para tomada de decisões; e aumentar o número de
funcionários ao invés de reduzi-los.

Se
o Brasil quiser melhorar seus índices é bom seguir estes passos e não
ignorar os avanços da Inteligência Artificial. Ou continuará entre os
piores alunos da classe.

 

(*) Salomão Filho é investidor em startups de tecnologia e sócio da Stradigi AI

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