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Como a IA, a robotização e uberização afetarão o emprego?

Infelizmente, nada se ouve sobre o assunto entre legisladores e gestores públicos brasileiros, pouco se fala nas empresas, e em grande parcela da academia o assunto ainda está restrito a poucos pesquisadores de ciência da computação

Cezar Taurion *

02/04/2017 às 9h12

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Foto:

A cada dia ouvimos mais e mais sobre a Inteligência Artificial e seus impactos na
sociedade, nos empregos e nas funções. Entretanto, até recentemente a IA era
similar à fusão nuclear, uma promessa não cumprida.

Muitas expectativas foram
frustradas ao longo de décadas de experimentações. Mas, agora, a IA está
mostrando um potencial ainda não totalmente conhecido para alcançar capacidades
humanas. E, com isso, está rapidamente se tornando tecnologia fundamental em áreas tão
diversas como veículos autônomos e negociações financeiras. Algoritmos de Machine Learning
e Self Learning já são rotineiramente incorporados a muitos serviços. E as
implicações são profundas!

Alguns afirmam que a IA não vai afetar significativamente os
empregos, enquanto outros afirmam o contrário. Embora não tenhamos ainda provas
definitivas, aqui e ali já aparecem estudos e pesquisas que mostram que sim, a IA
vai afetar uma série de profissões, e o que vai variar é o grau deste impacto.

Recentemente li um
artigo que me chamou muita atenção: “JPMorgan
Software Does in Seconds What Took Lawyers 360,000 Hours
”.
Descreve a
iniciativa do banco americano em um projeto de IA chamado COIN (Contract
Intelligence), que realiza automaticamente análises de acordos de
empréstimos
que consomen, em média, 360 mil horas de trabalho por ano de advogados e
agentes
de crédito. Além de revisar os documentos em segundos, o software é
menos
propenso a erros e nunca tira férias! O JP Morgan está em pleno processo
de Transformação Digital e uma frase de seu CIO é emblemática: “Anything where you have
back-office operations and humans kind of moving information from point A to
point B that’s not automated is ripe for that
”.

O impacto da Transformação Digital e da IA nos negócios e na sociedade será a de um
devastador tsunami e não deve, sob nenhuma hipótese, ser negligenciado.

Um estudo recente - “Robots
and Jobs: Evidence from US Labor Markets
” - mostrou alguns dados
preocupantes. De acordo com a pesquisa, direcionada para o mercado americano, um
robô por mil trabalhadores reduz o índice emprego/população em cerca de
0,18-0,34 pontos percentuais e os salários em 0,25-0,5 por cento. Para cada
novo robô adicionado a uma fábrica americana nas últimas décadas, registrou-se
uma redução de 6,2 trabalhadores empregados em torno da função automatizada.

Bem, mas o mercado americano é diferente de países em
desenvolvimento, como o Brasil! Certo, mas, infelizmente talvez esta diferença
não signifique proteção, segundo um estudo chamado “Automation
is set to hit workers in developing countries hard
”. Na verdade isto já
está acontecendo na China, onde as indústrias estão agora se voltando para
máquinas inteligentes como substitutos para o trabalho humano.

robosfabrica

Uma fábrica de
eletrônicos em Xangai já substituiu dois terços de sua força de trabalho humana
e planeja se tornar 90% automatizada nos próximos anos. A Foxconn que fabrica
produtos eletrônicos para empresas como a Apple, recentemente substituiu 60 mil
trabalhadores por robôs em uma única fábrica. Esses exemplos estão longe de
serem isolados. A China já instala muito mais robôs industriais do que qualquer
outro país, e no próximo ano terá superado os dois maiores países industriais,
EUA e Alemanha, em número de número de robôs industriais em operação.

Um relatório do Banco Mundial intitulado “Digital
Dividends
” aponta que dois terços de todos os empregos no mundo em
desenvolvimento enfrentam a real possibilidade de serem automatizados, embora a
velocidade de substituição seja incerta e "dependa do ritmo da disrupção
tecnológica" adotada pelo país.

Um artigo publicado no New York Times, por um economista de
Harvard (“The
Mirage of a Return to Manufacturing Greatness
”), analisa que a
desindustrialização prematura nos países em desenvolvimento faz com que a
renda desses trabalhadores se posicione em um patamar muito mais baixo do que
nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, antes do início da transição para uma
economia de serviços.

Em outras palavras, os salários se situam em patamares
muito baixos para que os cidadãos dos países em desenvolvimento possam
transformá-los na força consumidora necessária para sustentar uma produção automatizada,
possibilitada pela Quarta Revolução Industrial. E na economia de serviços o
fenômeno da uberização muda significativamente o conceito de empregos, com os
pagamentos sendo realizados apenas pelo tempo que você realmente trabalha, com
tendência a baixar renda e deixar em aberto questões como aposentadoria, seguro
saúde e assim por diante.  

A Quarta Revolução Industrial está apenas em seu início e
seus impactos no longo prazo ainda são bastante incertos, simplesmente porque
ainda não temos dados disponíveis suficientes para termos uma visão clara de
como a IA, a robotização e uberização afetarão o emprego e as funções.

A
Quarta Revolução Industrial não irá replicar
o passado, simplesmente porque a rápida adoção em massa da robótica e da IA
ameaça destruir muitas indústrias quase simultaneamente, sem dar tempo de
recuperação à economia e a sociedade em geral. Os avanços da robótica podem ser
tais que, de repente, a maioria, senão todas as funções humanas básicas
envolvidas no trabalho manual, poderão ser realizadas de forma mais eficaz e
mais barata por máquinas, com a vantagem destas serem capazes de trabalhar
continuamente com um custo marginal mínimo.

A Inteligência Artificial promoverá uma nova relação
entre humanos e máquinas, e transformará a natureza do trabalho como conhecemos
hoje. Claro que a Quarta Revolução Industrial também irá criar novos empregos. São
necessárias pessoas para construir os sistemas de IA. O Uber, por exemplo, contratou
centenas de especialistas automotivos, dos quais cerca de 50 são do Instituto
de Robótica da Universidade Carnegie Mellon.  Os especialistas em IA são os profissionais
mais procurados hoje em Wall Street. Em segundo lugar, os seres humanos podem
fornecer o senso comum, habilidades sociais e intuição que as máquinas não têm.
Infelizmente, estima-se que estes novos postos de trabalho, de alta
qualificação, não serão suficientes para compensar o número de postos de
trabalho pouco qualificados perdidos para a automatização.  O relatório do Banco Mundial alerta que
"os países em desenvolvimento devem abraçar a revolução digital" e
"redesenhar os sistemas de educação para criar as habilidades gerenciais e
trabalhistas necessárias para operar novas tecnologias".

A Quarta Revolução Industrial não é opção, mas uma
necessidade para os países se manterem competitivos. Há uma percepção que a
maioria das economias dos países desenvolvidas estão mal preparadas para a
quarta revolução industrial.  Em economias mais atrasadas como a brasileira,
essa percepção é realidade! Isso pode significar o deslocamento de milhões de
empregos, a destruição de muitas empresas hoje sólidas e tradicionais que serão
lentas em se adaptar e um grande aumento na desigualdade de renda na sociedade.

Infelizmente, percebo que, aqui no Brasil as discussões sobre o efeito da IA e
seus impactos continuam muito distantes. Nada se ouve sobre o assunto pelos
legisladores e gestores públicos, pouco se fala nas empresas, e em grande
parcela da academia o assunto está restrito a poucos pesquisadores de ciência
da computação.

Sim, no Brasil estamos bem atrasados. Mas é um grande equívoco
subestimar os riscos decorrentes da disseminação destas novas tecnologias.

Recomendo a leitura de um instigante artigo
publicado na Economist ( “Will
robots displace humans as motorised vehicles ousted horses
?
”)
que faz uma
analogia do uso massivo de IA e robótica no emprego com a chegada dos
automóveis e a substituição dos cavalos. O artigo deixa claro que a
resposta é que  provavelmente a IA não provocará tal efeito, "mas os
seres humanos têm muito a aprender com a experiência
equina ".

 

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