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Cargos em TI que você nunca imaginou

Você sempre pensou que queria ser um CIO ou CTO? Pense novamente. Talvez o que você realmente queira ser é um “chief delivery officer” ou um “chief process officer”

Computerworld

29/02/2008 às 17h12

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Os desenvolvedores de software ansiosos para progredir devem ir atrás da função de arquiteto de produto. Os administradores de rede e segurança poderiam começar a buscar postos de especialista em privacidade eletrônica. Se análise de negócio é a sua área de especialização, sua próxima promoção talvez seja para o cargo de arquiteto da informação.

E tem mais: não espere fazer parte de um departamento de TI. Como profissional de tecnologia do século 21, seu futuro – e muito provavelmente sua mesa – estará profundamente fincado no negócio. E o título do cargo que você ocupa provavelmente não trará qualquer pista de computador, banco de dados, linguagem de desenvolvimento de software ou rede de dados.

“Assistiremos ao surgimento de titulações novas e reformuladas”, prevê David McCue, CIO da Computer Sciences, empresa global de consultoria, integração de sistemas e terceirização. “Já vi novos cartões e novos títulos como guru de X, defensor para Y e ombudsman de Z”, diz McCue.

“Para mim, isso sinaliza o primeiro passo de um ciclo de maturidade. Não é certo dar a mesma denominação a uma função que está mudando, então você cria algo. Parte do título permanece e outra parte você dá uma boa risada dele depois de uns 18 meses”, acrescenta McCue.

A CSC também está mudando onde e como coloca alguns de seus profissionais de TI nas empresas. “O departamento de TI tradicional está começando a se metamorfosear em uma série de indivíduos que se sentem à vontade usando tecnologia e conhecem suas características inerentes”, explica McCue. “Eles estão se incrustando nas empresas como mentores de tecnologia. São as pessoas na equipe de desenvolvimento de negócios que utilizam as ferramentas para criar um web site bonito ou complexo”, descreve.

É uma questão de negócio
Jonathan Thatcher, diretor de integração de negócio na Computing Technology Industry Association (CompTIA), já começou a ver mudanças em títulos de cargos de TI que minimizam tecnologias específicas e se concentram mais em atributos do negócio. “Técnicos em wireless, por exemplo, estão se transformando em pessoal de suporte a mobilidade, assim como suporte técnico agora é chamado de suporte a alta disponibilidade”, observa.

“Se você é só programador, está em terrível desvantagem”
Patti Dodgen, vice-presidente, Mosaica Partners

Os principais fatores que movem a evolução de funções e títulos de cargos de TI incluem a commoditização da tecnologia e uma base crescente de novos trabalhadores que não só possuem experiência tecnológica, como estão muito acostumados a terem a tecnologia subjacente a praticamente tudo que fazem.

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Estes profissionais e as indústrias nas quais atuam têm menos necessidade de programadores de computador e analistas de help desk porque eles mesmos sabem programar ou porque a ajuda de que necessitam está embutida no software que estão usando para realizar seu trabalho.

“A TI deixou de ser uma subespecialidade. TI está integrada a qualquer trabalho que precisa ser executado”, constata Patti Dodgen, vice-presidente da Mosaica Partners, empresa de consultoria em TI especializada em health care. Neste segmento, por exemplo, “existe um empenho enorme em preencher posições com alguém que tenha um pé tanto no mundo médico quanto no mundo tecnológico”, diz Dodgen.

Ninguém sabe exatamente como denominar estas posições, mas, definitivamente, elas abrangem mais do que puras habilidades técnicas. “Se você for só programador, está em terrível desvantagem” para garantir uma destas novas funções, alerta Dodgen. “Porém, se você faz parte de uma equipe de desenvolvimento de aplicativos e trabalhou junto com um parceiro de negócio para ajudá-los a atingir metas, você tem um grande ponto a favor”, diz.

“O departamento de TI está sendo desintermediado, mas de um jeito bom. Está subindo na cadeia alimentar”, afirma Kamud Kalia, CIO da Direct Energy, empresa canadense de serviços integrados de energia de 8 bilhões de dólares. “TI já não precisa fazer grande parte daquilo que costumava fazer. Os problemas foram resolvidos ou a tecnologia foi commoditizada”, argumenta.

“Dez anos atrás, você colocaria pessoas inteligentes no projeto de juntar aplicativos”, continua Kalia. “Hoje, com middleware, isso não é mais necessário. Você ainda deseja ter pessoas inteligentes, mas quer que elas resolvam os problemas de negócio, não os técnicos”, afirma.

Com essa transformação em mente, a CompTIA fez alterações em seu Tech Career Compass, que rastreia os títulos de cargos de TI e as habilidades necessárias para preencher diversos postos de trabalho. “Criamos uma seção inteira sobre habilidades de comunicação, gerenciamento de relações com os clientes e segurança”, revela Gretchen Koch, diretora de desenvolvimento de competências.

Adeus, analistas de sistemas
Outras organizações, como a Animas, empresa Johnson & Johnson, estão eliminando funções e títulos de TI tradicionais, como analistas e administradores de sistemas, à medida que terceirizam data centers ou fecham contratos com fornecedores de software como um serviço.

“O outsourcing, a globalização e a redução do custo da tecnologia WAN estão contribuindo para eliminar a necessidade de ter administradores de sistemas, pessoal de help desk ou desenvolvedores”, justifica Bogdan Butoi, CTO da Animas. “Não queremos desenvolvedores na nossa equipe para todas estas tecnologias. Basicamente, mantemos profissionais experientes em negócio, capazes de atuar como parceiros em cada departamento e de propor soluções”, diz.

“Não sei se, em algum momento, seremos um departamento de TI totalmente distribuído, com recursos em cada departamento da empresa, ou se continuaremos sendo um departamento de TI central”, acrescenta. “Por ora, temos gerentes de relações para cada departamento. Ainda estamos em um departamento de TI, mas temos pessoal de TI dedicado para cada departamento.”

´É TI, por exemplo, que conduz grupos de discussão que miram médicos, pacientes e outras pessoas para desenvolver novos produtos e software para bombas de insulina, medidores de glicose e outros produtos relacionados com diabetes que a Animas desenvolve. Outro indicador de que TI está profundamente arraigada no negócio, segundo Butoi: “TI é avaliada em termos de quantos produtos originais vêm de nós sem ninguém pedir. Estamos sendo medidos em termos de como estamos promovendo a inovação”, revela.

  “Você verá títulos como ‘arquiteto de soluções e ‘arquiteto de produto’,
em vez de ‘engenheiro de rede’.”
David McCue, CIO, CSC


Embora os títulos para estes papéis emergentes ainda tenham que ser padronizados, o foco geral na carreira parece bastante claro: é uma questão de negócio. Virtualmente todos os novos títulos e papéis de TI parecem concebidos para refletir uma tendência única: a ligação inextricável dos profissionais de tecnologia com os produtos e/ou serviços que suas empresas fornecem, e não com equipamento ou tecnologias específicas como Java ou WANs.

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“Você verá títulos como ‘arquiteto de soluções e ‘arquiteto de produto’, que transmitem envolvimento em fornecer o produto ou o serviço a um comprador, em vez de títulos como ‘engenheiro de rede’”, diz McCue, da CSC.

Isso acontece porque “a noção de separação entre TI e operações ficou totalmente indistinta”, avalia Enzo Micali, CIO da TNS North America, que em janeiro acumulou o título e as responsabilidades de vice-presidente executivo de operações na empresa global de pesquisa do consumidor, com 14 mil funcionários.

A TNS não tem programadores de computador, por exemplo. “Todo mundo é arquiteto ou engenheiro – alguém que precisa ter profunda capacidade tecnológica para automatizar um processo de negócio que conhece igualmente a fundo”, diz Micali.

Trabalhando para a empresa, não para o departamento de TI

Na Direct Energy, os títulos de cargos – em especial na organização de TI com 350 funcionários – são propositadamente vagos. “Os títulos são genéricos e as pessoas podem aplicar rótulos descritivos ao que fazem”, explica Kalia.

“Quero que as pessoas pensem nelas mesmas como indivíduos que trabalham para esta empresa, não para o departamento de TI desta empresa”, diz. “Temos uma empresa de abastecimento de energia para gerir. Esse é o nosso negócio e queremos executá-lo com a maior eficiência possível. Não importa, realmente, qual é o cargo de TI.”

Da mesma forma, a Xcel Energy, companhia de energia elétrica e gás natural de 10 bilhões de dólares, está experimentando tornar alguns papéis e responsabilidades de TI tradicionais menos estruturados para não inibir a inovação.

“Para iniciar, estamos usando nosso grupo de análise de negócio”, conta o CIO Mike Carlson. “Estamos à procura de pessoas que sejam insaciavelmente curiosas em relação a obter uma resposta para um problema. É quase uma mentalidade de hacker. São pessoas que ficam analisando dados e procurando relações e dados que suportem hipóteses”, diz.

A empresa dá um papel indefinido a estes funcionários e designa um tema no qual trabalhar. “O CFO diz que deveria haver mais dinheiro na conta e pergunta por que não há”, exemplifica Carlson. “Então eles viram os dados do avesso e depois os recompõem para oferecer uma resposta”, afirma.

Não é obrigatório ter um diploma de faculdade para ocupar estes postos, segundo Carlson. O que conta é a curiosidade. A Xcel recorreu a um psicólogo industrial para ajudar a identificar potenciais funcionários com a curiosidade e o empenho necessários para vasculhar dados e descobrir informações que possam ser usadas para cortar custos, aumentar a eficiência e gerar receita.

O fator principal por trás desta estratégia é um volume de dados esmagador. “Temos toneladas e toneladas de dados e precisamos transformá-los em um produto útil”, revela Carlson. “É absolutamente fundamental colocar os dados em um contexto de negócio”, diz.

Agora em seu terceiro ano, esta estratégia organizacional e de contratação de TI tem uma taxa de sucesso de 60%. Não é para todos. “Algumas pessoas ficaram extremamente infelizes” no ambiente menos estruturado, reconhece Carlson.

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De acordo com Anthony Hill, CIO da Golden Gate University, que terceirizou praticamente todas as suas operações de tecnologia, “a TI está sendo expulsa da atividade de gerenciar tecnologia. TI tradicional girava em torno de data centers, servidores, desenvolvimento de software, implementação de software e manutenção e gerenciamento de tudo isso”, observa Hill. Não é mais assim.

“TI vai focar mais em análise e se envolver mais em tarefas iniciais do ciclo de vida de desenvolvimento de produtos e serviços e menos em entrega de tecnologia. TI vai focar mais em simulação, arquitetura de conteúdo e informação”, diz Hill. Moral da história: “Afastar-se do gerenciamento de tecnologia não tira TI do cenário. Muda o que TI faz.”

Ainda há espaço para os geeks

Sem dúvida, ainda existem muitos títulos e cargos de TI tradicionais para serem exercidos em todos os setores. Praticamente todos os CIOs, analistas, especialistas em empregos de TI e orientadores de carreira entrevistados para este artigo admitem que TI está apenas no início desta tendência.

“O que estamos descrevendo ainda é muito uma aspiração”, classifica Vinnie Mirchandani, fundador da Deal Architect e anteriormente analista da indústria de tecnologia e executivo de terceirização. “Ainda existe um percurso profissional viável e claro para os técnicos”, diz.

“Mesmo para os juniores, quero que tenham um profundo conhecimento técnico
e, depois, os exponho a outras coisas na empresa.”

Kamud Kalia, CIO, Direct Energy

Contanto que a facilidade de uso continue ocupando um lugar alto na lista de prioridades de TI, haverá espaço para o mais técnico dos técnicos, argumentam os CIOs. O motivo: até mesmo a tecnologia mais simples de usar ainda envolve muita complexidade.

“TI está seguindo em duas direções ao mesmo tempo”, aponta Lynn Vogel, CIO do M.D. Anderson Cancer Center. “Estamos prestando mais atenção à experiência do usuário, incluindo design gráfico e facilidade de navegação, mas tudo isso acaba complicando as coisas no back end.”

Como resultado, o M.D. Anderson “continuará a investir em competências técnicas cada vez mais fortes. A tecnologia está ficando mais fácil de usar, mas, para que isso aconteça, precisamos ser muito mais inteligentes em termos de TI”, comenta.

Na Direct Energy, Kalia ainda tem “preferência por profissionais de TI que possuem formação clássica, mas agilidade mental para assumir outras tarefas”.

Sempre haverá trabalho técnico a ser feito, mesmo se você optar por terceirizar a maior parte de suas operações de TI. “Se você não tiver alguém técnico comandando e gerenciando isso, não terá bons seguidores porque pessoal técnico não respeita pessoal não técnico”, observa Kalia.

“Além disso, você não tem um bom detector de besteiras”, acrescenta. “Por isso, sempre busco não um leve background técnico, mas um profundo background técnico. Mesmo para os juniores, quero que tenham um profundo background técnico e, depois, os exponho a outras coisas na empresa”, conclui.

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