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Afinal, quem realmente deve dirigir a transformação digital?

Empresas que buscam diferenciação e crescimento a longo prazo devem criar equipes de inovação avançadas para incorporar novas tecnologias

Stacy Collett, CIO (EUA)

30/07/2019 às 16h43

Foto: Shutterstock

As reuniões da equipe de liderança digital da Schneider Electric ficam rapidamente lotadas ao somar todas as pessoas responsáveis pela tecnologia na empresa. A unidade Schneider Digital, formada em julho de 2017, inclui um diretor digital que supervisiona todas as áreas de TI, o CIO, um diretor de dados e diretor de experiência, bem como um líder de desenvolvimento de produtos de serviços digitais e IoT, um líder de engenharia digital e um líder de vendas e serviços que fornece à linha de frente as informações necessárias. Além disso, o CSO e o CTO assumem papel ativo em todos os projetos de TI.

Pode parecer um exagero, mas a iniciativa é parte necessária da grande transformação digital da companhia, que reuniu 100 departamentos de TI de todo o mundo para melhorar os processos e recursos, centralizando toda a inovação que já foi realizada em todos os países. "O papel da TI agora se estende além do que era baseado, principalmente, em aplicativos e sistemas centrais internos, e em plataformas que permitem serviços digitais e ofertas para nossos clientes", diz Herve Coureil, Chief Digital Officer. Dessa forma, muitos desses projetos se estendem além do alcance do CIO.

Quando se pensa em transformações digitais, o CIO nem sempre é o líder responsável. Frequentemente, a responsabilidade é compartilhada com os líderes de dados, tecnologia e inovação, para que os planos de digitalização sejam concretizados. "O que estamos vendo é que muitas empresas estão começando a confiar em um diretor digital ou alguém semelhante que normalmente vem da área de negócio e tem esse entendimento e conhecimento de como monetizá-lo", afirma Khalid Kark, líder de pesquisa na Deloitte.

As mudanças da liderança em TI

Como essas relações funcionam? E há realmente necessidade de uma grande equipe de liderança de TI na maioria das empresas que estão passando por transformações? Para a consultoria Forrester, as equipes executivas de tecnologia já são realidade. “No futuro, haverá um conjunto de executivos de tecnologia responsáveis ​​por levar os negócios adiante - não necessariamente o CIO”, declara Brian Hopkins, vice-presidente e analista principal da Forrester.

Apesar disso, os CIOs ainda lideram as transformações na maioria das empresas. De acordo com uma pesquisa com 700 profissionais de TI, no relatório “Digital Business Transformation 2019” do IDG, que entrevistou empresas com 14 mil funcionários em média, o CIO ainda assume grande parte do processo de transformação digital, desde estratégias de proteção de dados até necessidades técnicas e avaliações de habilidades de TI para as estratégias de gestão. Ainda segundo os resultados do estudo, apenas o CEO tem liderança sobre o desenvolvimento de uma estratégia de trabalho (41% CEO vs. 36% CIO) e na determinação das métricas de sucesso (47% CEO vs. 36% CIO).

Ainda assim, a Forrester afirma que as empresas que estão realmente procurando por diferenciação de mercado e crescimento a longo prazo irão criar equipes de inovação avançadas para a incorporação de novas tecnologias, visando a mudança e o domínio do mercado. "As empresas que adotarem essa abordagem avançada, além de suas atuais práticas de inovação, serão as que descobrirão avanços no futuro e definirão essas tendências", diz Hopkins.

Empresas como a Ford, BP, Aetna e United Healthcare contrataram CTOs, executivos de inovação e diretores de dados e os colocaram fora da área de TI, onde estão trabalhando em estratégias de negócios com o restante do C-suite.

Como funciona

Na Schneider Digital, as equipes são organizadas em torno dos principais recursos. A CIO Elizabeth Hackenson lidera 2.000 dos 3.000 funcionários de TI da Schneider Electric em seu papel transversal em relação às operações tradicionais de TI em todo o mundo. Ela gasta cerca de 20% do seu dia interagindo com seus colegas líderes digitais em vários projetos ou reuniões. Para ela, a chave para relacionamentos positivos entre os líderes digitais é a transparência. "É muito importante poder ser aberto, especialmente quando se trata de discutir tópicos difíceis", explica. "Também é importante poder priorizar e focar consistentemente no que é bom para a empresa em geral", acrescenta.

Setenta por cento do tempo de Hackenson é usado em projetos transformacionais, incluindo a otimização da rede da cadeia de suprimentos da empresa e a transformação das funções para aquisição de talentos, para citar algumas.

Os CIOs ainda lideram a maioria das transformações

Embora empresas maiores possam se inclinar para criar equipes de liderança de tecnologia, a maioria das companhias usa os CIOs para gerenciar suas transformações digitais.

Na American Academy of Family Physicians, uma das maiores organizações médicas dos EUA, o CIO Michael Smith sentiu que a associação de apenas 400 funcionários poderia passar por uma grande transformação reforçando as responsabilidades de sua equipe de TI atual, em vez de acumular mais líderes. “Acho que sou o diretor de inovação agora, e o diretor digital e diretor de dados”, diz Smith, “porque estou liderando essas funções e impulsionando a inovação”.

O plano de três anos “reformulará tudo”, declara Smith, desde a mudança de seu data center para a nuvem até a adoção de uma nova mentalidade e melhor interação entre os membros.

Smith começou substituindo dois terços da sua equipe de 40 colaboradores de TI e contratando duas novas pessoas. “Algumas pessoas simplesmente não tinham os conjuntos de habilidades e tivemos que deixá-las. Algumas pessoas não queriam viajar conosco. Também tivemos atritos”, informa Smith.

Em seguida, o executivo criou novos cargos, incluindo um arquiteto corporativo e de dados e um arquiteto de aplicativos, ambos preenchidos com a equipe já existente. Além disso, Smith promoveu o gerente que lidera os desenvolvedores de aplicativos a diretor de TI. "Ele se concentra nas operações diárias de TI, para que eu possa concentrar mais do meu tempo na execução estratégica e também trabalhar com a liderança sênior para impulsionar as iniciativas", acrescenta.

Agora, os líderes da AAFP começarão a planejar a próxima fase de transformação que se concentrará na inovação, mas ainda não há planos para contratar um diretor de inovação. “Inovação é responsabilidade de cada pessoa. Não importa se você está em TI ou não”, afirma Smith. “Eu acho que o desafio que existia anteriormente era que o ambiente não apoiava [a inovação], e muitas pessoas estavam frustradas. Agora esse ambiente está pronto."

As ofertas de produtos e serviços relacionados a dados da AAFP também podem indicar que um diretor de dados será necessário no futuro, mas Smith não acredita que um CDO poderia agregar muito mais valor à empresa - um sentimento comum em muitas empresas que terminaram com as fases iniciais de sua transformação digital.

“Muitas empresas estão começando a perceber que, sim, ter um CDO será uma boa solução de curto prazo, mas, no longo prazo, ele precisa ser integrado à organização de tecnologia mais ampla”, diz Kark.

Até mesmo Smith fará a transição de seu papel de CIO nos próximos três anos, à medida que a AAFP avança para a fase dois do seu plano de transformação digital. "Eu gosto desse cenário em torno da transformação", declara Smith. “A fundação foi construída e agora estão em um estado estável de apoio e impulsionam a inovação.”

Coureil acredita que, para empresas maiores e mais impulsionadas pela tecnologia, o CDO chegou para ficar. “Eu não tenho certeza se há uma resposta única, mas acho que dentro da Schneider vamos ter uma organização trabalhando em como escalar as tecnologias por um longo tempo. Mas se você precisa ter uma equipe trabalhando em tecnologia de nível de plataforma, certificando-se de não reinventar coisas em todos os setores e injetar inteligência artificial e analítica em seus serviços onde quer que isso faça sentido, resolvendo problemas de negócios e não apenas adicionando tecnologia - então eu acho que há um lugar para CDOs”, afirma Coureil. “Todas as coisas mudam, mas não vejo essa missão desaparecer a curto e médio prazo.”

 

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