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A Inteligência Artificial está perto do seu ponto de inflexão

Aparentemente não existem limites tecnológicos para a IA. A tecnologia vai acelerar de forma exponencial daqui para frente

Cezar Taurion *

05/07/2018 às 11h53

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Foto:

Nos últimos dias estive dissecando dois relatórios muito
instigantes. Ambos massivos, mas de conteúdos muito valiosos. O Internet
Trends Report
, de Mary Meeker, é um relatório de 294 páginas que
analisa tecnologias digitais que impactam toda a sociedade. Outro foi o Tech
Trends Report
, do Future Today Institute. Os números mostram claramente que
o planeta está cada vez mais conectado. Pela primeira vez mais da metade da
população global está conectada à Internet. São 3.6 bilhões de pessoas
acessando esta pele eletrônica que cobre praticamente toda a Terra. E a maior
parte deste acesso acontece via equipamentos móveis. 

Mas, mesmo dispondo de
informações interessantes, fazer previsões é sempre arriscado. Voltemos por
exemplo a 2005, quando renomados analistas de indústria apontavam uma forte
tendência de crescimento na fabricação de desktops e laptops. Em 2007 apareceu
o iPhone, criando uma disrupção, não apenas na indústria de celulares,
destruindo valor de empresas sólidas como Nokia, Motorola e Blackberry, mas
provocando também uma onda de choque que reduziu drasticamente a produção de
PCs. Facebook era apenas uma brincadeira que conectava estudantes
universitários e hoje tem mais de 2 bilhões de pessoas conectadas. Não se
previa isso em 2005...Portanto prever o mundo daqui a quinze anos é como
acertar com precisão se estará chovendo em um determinado sábado à tarde daqui
a seis meses. São tantas variáveis que nenhum modelo matemático consegue ser
preciso.

Mas, podemos pensar em algumas direções. Por exemplo, IA.
Quando vemos os avanços exponenciais da IA impulsionados pela evolução
exponencial da geração de dados (2,5 quintilhões de dados são gerados
diariamente no planeta e este número dobra a cada dois anos ou menos) e
capacidade computacional (um iPhone tem mesma capacidade de um supercomputador
de 30 anos atrás), acrescidos da conscientização de diversos países de sua
importância estratégica, como estudos “An
Overview of National AI Strategies
” mostram, fica claro que existe uma tendência
irreversível na sua crescente adoção. Este estudo mostra que nos últimos quinze
meses, Canadá, Japão, Cingapura, China, Emirados Árabes Unidos, Finlândia,
Dinamarca, França, Reino Unido, Comissão da UE, Coréia do Sul e Índia
divulgaram estratégias para promover o uso e o desenvolvimento da IA. IA
afetará (e já está afetando) todos os setores de negócio e portanto, qualquer
empresa deve ter uma estratégia de adoção de IA em seu futuro imediato.

A maioria dos executivos com quem converso ainda não captou
plenamente o impacto da IA. Ela é vista ao mesmo tempo com receio e otimismo
(comumente misturando-se os dois sentimentos), onde de um lado promete ser a
solução de inúmeros problemas, abrindo oportunidades ímpares, e por outro lado
ameaçando negócios e empregos. Ainda estamos tentando entender o que é sair da
era de computação de sistemas programáveis e entrar na era da Computação Cognitiva, onde máquinas capazes de aprender, decidir e criar estarão
coexistindo conosco. 

Um bom exemplo desta mudança é o instigante artigo “Soon We Won´t Program
Computers. We´ll Train Them Like dogs
”. Com IA e Machine Learning, um
engenheiro de software nunca sabe precisamente como o computador realiza suas
tarefas. As operações de uma rede neural são em grande parte opacas e
inescrutáveis. Em outras palavras, é uma caixa preta. E como essas
caixas-pretas assumem a responsabilidade por mais e mais tarefas digitais no
nosso dia a dia, elas não apenas mudarão nosso relacionamento com a tecnologia,
mas elas também vão mudar a maneira como pensamos sobre nós mesmos, nosso mundo
e nosso lugar dentro dele. 

Se, antes, na era da Computação Programática, os
programadores eram os deuses que governavam os sistemas de computadores, agora
são como treinadores de cães. E como qualquer dono de cachorro sabe (eu tenho
uma cachorrinha e sei bem disso), esse é um relacionamento que não entendemos
muito. Andy Rubin, criador do Android tem uma frase bem emblemática sobre isto
:” “After a neural network learns how to do speech recognition, a programmer
can't go in and look at it and see how that happened. It's just like your
brain. You can't cut your head off and see what you're thinking
.”. Vai acabar o
desenvolvimento de código? Claro que não, mas o perfil do profissional
envolvido com computação muda drasticamente.

Talentos com experiência em IA são raros hoje. A necessidade
de educação é urgente e uma das iniciativas, das quais me orgulho, foi ter
assumido a presidência do i2a2,
Instituto de Inteligência Artificial Aplicada. Ao longo dos próximos anos,
provavelmente veremos maiores facilidades para desenvolver soluções de IA.
Empresas como Amazon disponibilizam plataformas de IA em cloud, como Sagemaker, e já começam a
aparecer marketplaces de algoritmos, como Algorithmia
e Quantiacs.

A disseminação da IA nos leva naturalmente a questionar qual
será o seu papel na sociedade. Os robôs substituirão pessoas? É altamente
provável que as pessoas que executam tarefas repetitivas terão estas tarefas sendo
substituídas por robôs. Alguns estudos estimam que cerca de metade dos empregos
atuais, nos EUA, estão em risco. Entre estas funções estão motoristas de
veículos como caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas,
desenvolvedores de software e administradores de sistemas de computação. Esta é
uma diferença significativa que a IA está provocando. 

Os “colarinhos azuis” ou
operários já estão diminuindo sensivelmente, mas os “colarinhos brancos”,
empregos nas tarefas administrativas é que agora estão correndo o risco. A
substituição do trabalho é inevitável e agir de forma reativa não vai ajudar em
nada. Precisamos, sim, de compreender a imensa mudança que está se abrindo e
aprender a navegar nesse novo território. Mas, será também muito provável que a
IA venha a aumentar o desempenho humano, automatizando certas partes de uma
tarefa, permitindo que os indivíduos se concentrem em aspectos mais
"humanos" que exigem habilidades empáticas, sociais e inteligência
emocional. No futuro próximo, trabalhadores e máquinas trabalharão em conjunto,
cada um complementando os esforços do outro.

Estaremos cada vez mais envolvidos com bots no nosso dia a
dia. Cada vez mais interagiremos diretamente com IA para resolver questões
diárias, como relacionamentos e dúvidas com as empresas com as quais fazemos nossos
negócios, de passagem aérea a reclamação de entrega do supermercado. E usar
assistentes pessoais provavelmente se tornará algo tão comum quanto usar um
smartphone. Esses dispositivos poderão ouvir e assistir: eles saberão os
lugares que vamos, as pessoas com as quais interagimos, nossos hábitos, nossos
gostos e preferências e muito mais. Então, eles usarão esses dados para
antecipar nossas necessidades. A  interface atual, que usamos no smartphone, de
chamar diretamente um app e teclar nele será substituído por ações automáticas,
que nos ajudarão nas centenas de pequenas decisões que tomamos ao longo do dia.
Com os assistentes, os apps falarão uns com os outros, sem necessidade de serem
acionados diretamente. O assistente vai reconhecer que você  desembarcou no aeroporto e automaticamente
chamará o Uber. Este cenário vai nos levar à inevitável discussão de
privacidade versus praticidade.

Os desafios e oportunidades que a IA nos abre que são
imensos. Um relatório de extrema importância, “The Malicious Use
of Artificial  Intelligence: Forecasting,
Prevention, and Mitigation
”, aborda em suas 100 páginas os potenciais
riscos de se utilizar de forma inadequada as tecnologias de IA. Sabemos, por
experiência que o treinamento de algoritmos influencia o processo de decisão
das redes neurais. Um estudo do MIT, “Facial
recognition software is biased towards white men, researcher finds
” mostrou
que baseado no aprendizado fornecido pelas imagens que foram apresentadas,
alguns algoritmos de reconhecimento facial reconheciam com mais precisão rostos
de homens brancos. O algoritmo não era machista ou racista, mas simplesmente
aprendeu a reconhecer com mais precisão este rostos pois mais imagens de homens
brancos lhes foi fornecido. Uma outra experiência do MIT, Norman, criou o
primeiro algoritmo de IA com viés psicopata. A proposta é mostrar que um
treinamento inadequado pode gerar respostas completamente absurdas e
provavelmente o culpado não é o algoritmo, mas a base de dados com que ele foi
treinado.

O crescente uso da IA nos obriga a prestar atenção aos
resultados que os algoritmos nos darão, pois mais e mais eles estarão afetando
nossas vidas. Aparentemente não existem limites tecnológicos para a IA. O
artigo “Teaching
machines to predict the future
”, do MIT’s Computer Science and Artificial
Intelligence Laboratory (CSAIL) mostra que algoritmos aprendendo com vídeos do
YouTube e séries de TV podem prever as reações humanas. Analisando uma
determinada cena em um vídeo ele pode identificar o que as pessoas nele farão a
seguir.

Além disso, mecanismos extremamente seguros de segurança
devem ser colocados em prática para que sistemas de IA não sejam afetados por
ataques cibernéticos. Todas novas tecnologias nos ajudam a resolver problemas
existentes, mas também gera novos desafios. A IA cria espaço para riscos de
segurança que não eram possíveis antes. Os sistemas de IA podem imitar as vozes
das pessoas de forma realista, criando arquivos de áudio que se assemelham a
gravações de discursos humanos. Assim, ficaria bem difícil para um humano
conseguir identificar se o que ele está ouvindo veio de alguma pessoa ou foi
gerado artificialmente por sistemas de IA. As consequências podem ser bastante
dramáticas.

IA

Por outro lado, as oportunidades que IA nos abre são fantásticas.
O artigo “How
artificial intelligence and data add value to businesses
contém
entrevistas com Andrew Ng, pesquisador e de IA e fundador do Coursera. Mostra
de forma clara que podemos e devemos usar IA nos negócios e se uma empresa
ainda não tem uma estratégia de IA, deveria tê-la o mais rápido possível.

O impacto da IA na transformação da sociedade começa aos
poucos a ser compreendido. Uma dose mínima de inteligência aplicada a um
processo ou a objetos vai elevar a eficácia de qualquer sistema a outro
patamar.  IA será a força primordial de
competividade no futuro. E aliás, já estamos no ponto de inflexão, onde a IA
vai acelerar de forma exponencial. IA será a nova eletricidade. Vai dar vida
a objetos inertes, como a eletricidade fez mais de um século atrás. Nas
próximas décadas vamos cognificar aquilo que eletrificamos no passado.

 

(*) Cezar Taurion é partner da Kick Ventures e presidente do i2a2, Instituto de Inteligência Artificial Aplicada

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