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5 postulantes ao Planalto, 5 visões da agenda digital do país

Algumas propostas surpreendem, principalmente quando se leva em consideração a pouca fluência dos 5 candidatos à Presidência da República com temas como GovTech, Indústria 4.0 e Sociedade 5.0

Vitor Cavalcanti

09/08/2018 às 8h32

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O momento atual talvez seja o mais propício dos últimos tempos para a inclusão dos temas Tecnologia e Inovação na pauta dos candidatos à Presidência da República.
Se antes o assunto que dominava esse tipo de conversa era apenas o
acesso à internet, com a revolução que acontece mundo afora pela
popularização de tecnologias emergentes como Inteligência Artificial, Computação Cognitiva e conceitos como Indústria 4.0 e Sociedade 5.0, os
candidatos já não podem ignorar o assunto e, se quiserem realmente
posicionar o Brasil como ator de peso nesse novo cenário, precisam
mergulhar e apresentar propostas consistentes com objetivos claros
sendo, alguns, passíveis de atingir durante o mandato de quatro anos.

Os cinco candidatos convidados pelo GovTech Brasil, iniciativa
organizada pelo ITS Rio e Brazil Lab, não apresentaram profundo
conhecimento, mas algumas propostas surpreendem, principalmente quando
se leva em consideração a pouca fluência desses representantes com a
agenda digital.

Marina Silva, da Rede, Geraldo Alckmin, do PSDB, Guilherme Boulos, do
PSOL, Henrique Meirelles, do MDB, e João Amoêdo, do Partido Novo, foram
entrevistados individualmente pelo apresentador Luciano Huck por 20
minutos cada. A eles foi perguntado o que se encontraria em seus
respectivos programas de governo sobre essa agenda digital, além de
questionamentos relacionados ao trabalho que será necessário ser feito
com informações, interação com iniciativa privada, entre outros.

A identidade digital, um único documento e que dê acesso ao cidadão a
quase todos os serviços públicos de forma simples, online e sem
burocracia, apareceu de forma consistente nas falas de Amoedo, Boulos e
Alckmin. Os três disseram estar convictos de que isso se faz necessário
para incluir o País num contexto digital, além de permitir a
democratização do acesso aos serviços. Dos cinco, Meirelles se mostrou o
menos íntimo do assunto e com poucas propostas, embora tenha se
auto-definido como um “geek” nesta fase candidato.

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Avaliando friamente os cinco postulantes, Marina, Alckmin e Boulos
foram mais consistentes em suas respostas e apresentaram coerência em
suas propostas. Meirelles ainda carece de um plano e ideias mais
concisas e, Amoedo, tirando a identidade digital, parece ter se apegado
ao termo Blockchain, amplamente repetido em suas repostas, e reconhecer
nesta tecnologia a possibilidade de cumprir o que parece ser uma de suas
promessas de campanha que é o fim dos cartórios e, consequentemente, a
redução da burocracia. Das entrevistas realizadas por Luciano Huck,
destacamos os seguintes pontos de cada candidato:

João Amoêdo, Partido Novo
“Usar tecnologia é mudar a política e dar mais poder e liberdade às pessoas. É uma transferência de poder.”

“Identidade digital é premissa. Temos de pensar o novo e não digitalizar processos ruins.”

“Queremos usar blockchain para acabar com cartórios, reduzindo a burocracia.”

“Em saúde queremos prontuário eletrônico, agendamento, receituário,
tudo digital, tem possibilidade também em telemedicina, mas hoje a
burocracia prejudica, já que para consultar um especialista em São Paulo
por vídeo, a pessoa que está no Amazonas precisa ter um médico ao
lado.”

Guilherme Boulos, PSOL
“O digital não é uma caixa, tratamento será transversal para
políticas públicas. Queremos promover unificação de dados em segurança
pública para ter mais inteligência, e participação e transparência na
gestão pública. Minhas prioridades serão o login cidadão, ou identidade
digital, e a universalização do acesso, sair um pouco do eixo Rio-SP.”

“É preciso ampliar o investimento público em pesquisa e inovação. O privado não resolve tudo sozinho.”

“Dados são essenciais, o senso, com uso de tecnologia, poderia ser em
tempo real e não a cada 10 anos. Em segurança pública estamos no século
XIX, é impressionante. O Rio de Janeiro, com todos os problemas,
investiu apenas R$ 2.400,00 em inteligência com todos os problemas.”

“Defendo o código aberto e não a propriedade. Temos de pensar em
Democracia 5.0, usando a tecnologia como forma de representação da
sociedade.”

Henrique Meirelles, MDB
“Precisamos digitalizar o governo federal. No Ministério da Fazenda,
conduzi a digitalização de diversas ações na Receita Federal. Existem
iniciativas em andamento, mas agora se pede outra etapa.”

“Defenderia a implantação do cartão nacional, que não seja só um RG, mas que traga tudo, inclusive histórico médico.”

Geraldo Alckmin, PSDB
“Precisamos desburocratizar, destravar e simplificar a economia. E
isso não se faz sem uma agenda digital. Teremos mais transparência,
serviços públicos de melhor qualidade e buscaremos ideias e experiências
bem sucedidas para isso.”

“A tecnologia não será um ministério, mas terei alguém perto para
trabalhar essa agenda digital de forma permanente. O Presidente da
República tem de liderar esse processo tendo alguém ao lado e permeando
as ações em todos os ministérios.”

“Em São Paulo fizemos o PitchGov e dessa iniciativa surgiu o
Poupinha, uma aplicação de inteligência artificial para atendimento
online do Poupa Tempo, que já prestou 80 milhões de atendimentos.”

“Temos que universalizar o acesso à web, um terço da população não
tem acesso e um terço das escolas não tem conexão. A partir disso,
partiremos para melhorar serviços públicos, usar experiência
internacional de identidade digital e ampliar acesso aos serviços,
porque ainda temos a cultura de cartório.”

“Não existe reforma do Estado sem governo digital para ter mais
transparência, menos custo e mais eficiência. O papel do Estado tem de
ser planejador, regulador e fiscalizador e isso não o diminui, até o
fortalece.”

Marina Silva, Rede
“A tecnologia não é o fim, se assim for, não se transforma em cultura
e ela precisa andar com desejo e virar hábito das pessoas.”

“Queremos tecnologia para um estados aberto e transparente, usa-la
para que as pessoas tenham mais acesso e fazer uso intensivo de dados
também para combater desvios.”

“Uso de parcerias com empresas ou startups é bom, mas não se abre mão
do que está pronto e se ressignifica algumas tecnologias. Não se pode
partir do princípio que faremos tudo dentro de casa e perder os avanços.
Quando ministra, usei cooperação para combater desmatamento com
tecnologia pois não havia solução 100% nacional.”

“Na questão dos dados, temos de trabalhar um sistema para proteger o
cidadão. Base integrada sobre vida das pessoas, mas com proteção para
não ficar vulnerável, seja do ponto de vista de privacidade ou de
interesses gerais no uso dessa informação.”

“Tecnologia é bom para avanço da pesquisa, da qualidade de vida, mas
tem a ciência do saber, do escutar, do perceber. O saber narrativo não
deve ser negado ou perdido.”

O que ficou de fora
O impacto da tecnologia no trabalho e como resolver essa equação foi
muito pouco explorado. Geraldo Alckmin lembrou que será preciso educar
para as profissões do futuro, mas não teceu comentários sobre o que
fazer com a massa de desempregados que pode surgir a partir de
automações diversas. João Amoêdo, por sua vez, pareceu mais preocupado
em defender a robotização de tudo, sem pensar muito nas consequências,
enquanto Guilherme Boulos, frisou a necessidade de a tecnologia servir o
cidadão e não o contrário.

Ele se disse a favor de automatizar ou mesmo substituir alguns
trabalhos por robôs desde que isso traga benefícios ao cidadão ou, no
caso, à empresa, e que, no processo, seja prestado um tratamento aos
funcionários que perderão seus empregos, com treinamentos e outras ações
para que essa pessoa possa ser recolocada.

Em dois dias de discussões, o GovTech passou por temas como educação,
segurança pública, empreendedorismo e trouxe experiências
internacionais como da Estônia, Uruguai, Índia e Israel, com o intuito
de, a partir do material gerado, criar um documento com propostas para
uma agenda pública digital. Diversas iniciativas estão em curso no País
com o objetivo macro de inserir o Brasil nesse novo contexto mundial, a
exemplo do próprio Movimento Brasil Digital, que traz como objetivo
transforma o Brasil num País inovador e inclusivo. O Movimento, que já
conta com 27 empresas associadas, entre elas a IT Mídia trata essa
agenda de forma mais ampla, observamos quatro pilares estratégicos
(infraestrutura, educação, empreendedorismo e governo) além de um
transversal que é a inclusão.

Informação e subsídio não faltarão aos candidatos interessados em
investir nessa agenda e deixar um legado para um País que, embora tenha
talento, escala e amplas possibilidades, sempre sofre pela falta de uma
agenda de nação. E, no caso do digital, o tempo é o maior inimigo pela
velocidade da transformação. Fala-se em 800 milhões de postos de
trabalho que fecharão em todo o mundo por conta da automação, outros
milhões surgirão para os países bem preparados. Resta saber de qual lado
estará o Brasil: do de ator relevante e atuante ou do mero espectador e
consumidor.

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