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4 vetores impulsionam a disrupção bancária

Fique atento à entrada forte das BigTechs e às mudanças de postura dos agentes reguladores

Cezar Taurion *

21/05/2018 às 6h41

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O debate sobre o futuro dos bancos vem se aquecendo.  Falamos muito em Fintechs, mas será que a
ameaça aos bancos vem apenas destas novas empresas de tecnologia?

Indiscutivelmente que as Fintechs oferecem hoje uma experiência muito mais
agradável aos clientes que os grandes bancos. Estes, apesar dos pesados
investimentos em suas plataformas digitais, ainda estão perdendo a disputa pela
experiência proporcionada aos clientes, como este teste efetuado pelo JP Morgan
aqui no Brasil mostrou: “Fintechs
se saem melhor que bancos em conta digital, diz J.P. Morgan
”. Afinal, os
bancões, como tem agências físicas, acabam deixando para elas o que não
conseguem resolver no mundo digital.

Mas, apesar de proporcionarem esta
experiência superior, será que as Fintechs atuais terão capacidade de
substituir os grandes bancos? Vemos que as Fintechs da primeira geração não têm
conseguido criar escala suficiente e acabam se concentrado em nichos específicos.
Os grandes bancos, apesar de serem baseados em sistemas legados que os inibem de
ter a agilidade e velocidade que as Fintechs oferecem, podem, com seus imensos investimentos,
se atualizarem e inovarem, inclusive com parcerias ou aquisições destas
empresas menores.  As Fintechs,
indiscutivelmente que mudaram a base da competição dos serviços financeiros,
mas não mudaram de forma concreta o cenário competitivo. Os grandes bancos
continuam dominando o mercado. Na prática, as Fintechs da primeira geração provocaram
mudanças incrementais no setor bancário. Um banco digital, apesar de ser muito
mais ágil que os bancões, adota o mesmo modelo de negócios.

Mas, no horizonte começamos a visualizar outro cenário. A
disrupção no setor bancário se dará pela convergência quase simultânea de
quatro vetores, que são tecnologias como IA e Blockchain, base tecnológica da
segunda geração de Fintechs, a entrada forte das BigTechs e as mudanças de
postura dos agentes reguladores, como estamos vendo na Europa com adoção do
Open Banking e aqui no Brasil com o Banco Central tendo uma postura mais voltada
a incentivar a competição no setor.

Blockchain tem o potencial de diminuir a relevância dos
bancos. O papel dos bancos em ser intermediário aumenta o custo das transações,
pois eles cobram um preço considerável pelos serviços oferecidos, como nas transferências
internacionais. Muitas vezes essa transferência, para chegar as pessoas em
outros países com redes bancárias deficientes, leva muito tempo. Além disso,
pelos altos custos dos serviços bancários, parcela significativa da população
no planeta está fora da rede, descancarizada. Estima-se que 2,5 bilhões de pessoas não têm
acesso a bancos. No Brasil cerca de 40% da população não tem conta bancária. A
desintermediação reduz estes custos e permite acesso a transferências de
dinheiro sem passar pelos bancos. Vale a pena ler o estudo “How
Blockchain Could Disrupt Banking
”.

A IA tem o poder de reduzir em muito a importância de vários
serviços que são oferecidos pelos bancos. Vamos usar o exemplo dos bancos
suecos. Lá os bancos estão tentando se defender dos robôs que atuam na
consultoria de investimentos e gestão de patrimônio. Muitas startups, as
FinTechs de segunda geração, começam a oferecer serviços
de consultoria independentes sobre poupança geridos por seus robôs de IA , fundos e carteiras de
investimentos personalizados. Na Suécia e em diversos países como no Brasil, os
serviços de consultoria de investimentos e os private banks se tornaram fonte
de receita de maior importância e perdê-las afetará o resultado dos bancos.

As FinTechs
de segunda geração sairão do conceito de Mobile First, que já está
comoditizado, e que foi típico das primeiras FinTechs, que se voltaram para
facilitar a experiência do cliente, para serem AI First, onde a Inteligência Artificial será o cerne
do negócio.

As BigTechs já vêm com escala e relacionamento com
clientes, às vezes muito maiores que os dos próprios bancos. As grandes empresas de tecnologia,
como Amazon, Alibaba, Facebook ou Tencent, têm conquistado uma parcela cada
vez maior do tempo e da atenção dos consumidores. Essas BigTechs veem os
pagamentos e serviços financeiros não como um fim em si, mas como um meio para
aumentar ainda mais o relacionamento com seus clientes, aumentando sua
monetização com seus serviços fins como publicidade, comércio eletrônico ou outras
ofertas (como a AWS e AlibabaCloud, este atualmente concentrado na Ásia). Por
isso, podem, por exemplo, nem cobrar tarifas de serviços, que hoje são forte
fonte de receita dos bancos tradicionais.

Quando essas empresas entraram no
setor pagamentos e finanças, principalmente nos mercados emergentes asiáticos, com
a China sendo o maior exemplo, provocaram ondas de choque bem grandes. Estas
empresas, além de serem nativas no mundo Internet, e, portanto, ágeis, sem os
arrastos causados pelos sistemas legados, são naturalmente “AI First”, ou seja,
IA é o core dos seus processos e sistemas. Um exemplo é o Google. O Google não
usa IA para melhorar seu sistema de busca, mas usa seu sistema de busca para
melhorar sua IA. No futuro será uma empresa de IA que atuará em diversos
setores, sendo que a busca será apenas um deles. Vale a pena ler este interessante
estudo “AI
First: Learning from the machine
.

A China é um planeta à parte. Aplicativos como o WeChat com
seu um bilhão de usuários implementa uma carteira virtual que permite comprar
passagens de avião, pagar aluguel, luz, gás e tudo o mais. Você usa o WeChat
sem precisar acessar o aplicativo de bancos. Os chineses hoje tomam
empréstimos, contratam seguros e investem em ações sem necessariamente usar o
sistema financeiro ou o cartão de crédito. Este novo sistema financeiro
digital, que cresce fora dos canais tradicionais tem sido um dos
impulsionadores do crescimento econômico chinês. Para ter uma ideia do mercado,
basta ver que dos 27 unicórnios de fntechs, nove estão na China. No Brasil, o
governo aprovou nova regulação, com objetivo de incentivar o crescimento deste
setor e aumentar a concorrência no setor bancário, para reduzir os juos ao consumidor.

O resultado chinês tem provocado alguns efeitos bastante positivos em
democratizar o acesso ao crédito e incluir uma população antes desbancarizada
em um sistema financeiro. As pequenas e médias empresas, que contribuem com
cerca de 60% do PIB chinês e não costuma ter acesso fácil ao crédito,
passaram a ser usuárias destas novas modalidades. Além disso obriga os bancos tradicionais
a se reimaginarem. Na China existem cerca de 4 mil FinTechs, que estão tirando
os bancos da sua zona de conforto. A entrada das gigantes de tecnologia chinesas
tem impulsionado o mercado. Baidu, Alibaba e Tencent também investiram em novos
bancos digitais que não precisam de agências físicas (como o WeBank da Tencent)
e têm menos custos operacionais. A vantagem tecnológica destas empresas em
relação aos bancos, como no intenso uso de computação em nuvem e IA, lhes
proporciona condições de serem muito mais ágeis e em consequência oferecem
experiências muito mais positivas que os bancos tradicionais.

A Índia é outro
mercado em ascensão, diferente do chinês e usado como laboratório pelas
BigTechs. Lá o Google criou o Tez, sua
carteira virtual. Lançado em agosto de 2017, em dezembro do mesmo ano já tinha
12 milhões de clientes, o que mostra o poder de fogo das Bigtechs. As
experiências chinesa e indiana poderão, no tempo, se alastrar para os demais
países emergentes e chegar aqui nas nossas praias.

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O papel cada vez mais atuante dos agentes regulares em
incentivar a competição, como o Open Banking europeu, que deve influenciar
outros países e mais cedo ou mais tarde chegará também aqui no Brasil,
amplifica o poder das plataformas BigTechs. As plataformas que oferecem a
capacidade de interagir com diferentes instituições bancárias através de um
canal único, poderão se tornar o modelo dominante para a prestação de serviços
financeiros, relegando os bancos que ficarem inertes a meros prestadores de
serviços. Estes bancos serão como empresas que apenas provem infraestrutura de
Internet, mas o valor agregado e as informações sobre os clientes (lembrem-se
que dados são o novo petróleo) ficarão concentradas nas plataformas que operam
em cima desta infraestrutura. Recomendo ler “Open
Banking Will Change The Financial Services Industry Forever
para uma
melhor ideia do potencial disruptivo desta diretiva.

Com certeza vale a pena um maior aprofundamento sobre o
futuro dos bancos. Interessa a todos nós, sejamos profissionais do setor ou
não, pois os serviços bancários afetam toda a sociedade. Recomendo, portanto, a
leitura de um excelente estudo do World Economic Forum, “Beyond
Fintech: A Pragmatic Assessment Of Disruptive Potential In Financial Services
”,

que em suas quase 200 páginas mostra um possível cenário
do futuro dos serviços financeiros. Fica claro que os bancos que não perceberem
a mudança que está chegando rápido e ficarem esperando ver no que vai dar,
terão sérios riscos de sobrevivência.

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