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Tecnologia

Como decidir por uma implementação Blockchain

Analistas da Forrester Research e o diretor de TI do Federal Reserve Bank de Boston falam sobre a adoção da tecnologia e quem deveria considerá-la

Lucas Mearian, CIO/EUA

Publicada em 26 de julho de 2018 às 13h16

Embora o Blockchain possa ter ultrapassado a fase de prova de conceito este ano e já tenhamos alguns sistemas em produção, isso não significa que as empresas que assistem do lado de fora devam seguir adiante com suas próprias implantações. Mas elas também não podem se dar ao luxo de ficar de braços cruzados.

"Você não pode acompanhar a inovação. Se você esperar até que as coisas se acalmem, pode ser tarde demais", disse a principal analista da Forrester Research, Martha Bennett.

Em debate na New Tech & Innovation Conference, realizada pela Forrester, Bennett disse que as organizações públicas e privadas devem primeiro determinar quais processos de negócios a tecnologia Blockchain pode abordar - e aqueles aos quais ela não pode ser aplicada.

"Nada está sendo revolucionado hoje a partir de uma perspectiva corporativa", disse Bennett. "Francamente, é um faroeste lá fora. Quando você faz comparações com a Internet antiga, o que muitas pessoas fazem, há de fato alguns paralelos em que nós realmente não sabemos para onde isso está indo ainda. Mas isso não significa que não devamos nos envolver hoje".

Classificando casos de uso
Para determinar se há um caso de uso, as empresas devem primeiro entender que, embora muitas tecnologias existentes, como bancos de dados relacionais, já possam atender à maioria das necessidades de negócios transacionais, elas podem não corresponder ao atributo chave do Blockchain: a colaboração.

"Livros contábeis distribuídos são um esporte coletivo. Trata-se de dados nos quais você pode confiar no mais alto grau possível ao compartilhá-los", disse ela.

As empresas devem se perguntar se várias unidades de negócios ou outros participantes do setor têm o mesmo problema ou um problema relacionado, como problemas de reconciliação de transação, e que oportunidade eles podem capturar por meio do Blockchain.

Por exemplo, a we.trade, um consórcio de nove bancos europeus concorrentes, implantou um livro-razão distribuído sobre o qual o financiamento comercial pode ser negociado para pequenas e médias empresas. O DLT permitiu que os bancos continuassem a competir e tratou de uma questão comum: simplificar o financiamento nacional e internacional.

Bennett ofereceu uma "lista de verificação" que as empresas deveriam considerar ao determinar se implantariam Blockchain, incluindo:

- Quando várias partes precisam dos mesmos dados e da capacidade de gravar no mesmo armazenamento de dados;

- Quando todas as partes precisarem de uma garantia de que os dados são válidos e não foram adulterados;

- Quando um sistema atual é propenso a erros, muito complexo, pouco confiável ou cheio de pontos de atrito;

- Quando há boas razões para não ter um único sistema centralizado, como um banco de dados relacional.

O Fed dá uma olhada

Paul Brassill, vice-presidente de TI do Federal Reserve Bank de Boston, disse que sua organização, embora normalmente cautelosa, ficou impressionada com o efeito "hockey stick" da adoção do Blockchain nas últimas duas décadas. O Fed começou a explorar o uso da tecnologia Blockchain com o Ethereum, em 2016, depois mudou para o Hyperledger Fabric. Investiu recursos significativos, determinando como o Blockchain pode afetar, não apenas o setor bancário nacional, mas também os serviços financeiros mundiais.

"Se o setor privado pode fazer melhor do que o Fed, então precisamos fazer melhor", disse Brassill. "Começamos fazendo o upload do Ubuntu Linux e instalamos contratos inteligentes muito simples. Nosso aprendizado ao longo do caminho incluiu o fato de que nossos desenvolvedores não sabiam nada sobre essa tecnologia. Tivemos que aprender muito, fazendo."

Os desenvolvedores do Fed assistiram vídeos do Youtube sobre como usar Blockchain; um que foi particularmente útil, segundo Brassill, é um vídeo produzido pela IBM sobre o  desenvolvimento de um Blockchain com o Hyperledger Composer .

Os desenvolvedores do Fed usaram o Amazon Web Services para criar uma máquina virtual Linux e baixar o Ethereum Fabric.

Um "momento crucial" veio quando o Fed enviou a equipe de TI à Europa para falar com seus colegas do Bank of England, que estava explorando a transferência da rede interbancária do país para a Hyperledger porque ser uma rede Blockchain "autorizada", não uma DLT aberta.

"Percebemos que uma rede bancária do futuro precisa ter serviços de afiliação; ela precisa ter mais transações [criptografadas], por isso abandonamos nossa abordagem da Ethereum e começamos a adotar a abordagem Hyperledger", disse Brassill.

Três pilotos Blockchain do Fed
O Federal Reserve Bank de Boston construiu três provas de conceito de Blockchain, primeiro para testá-lo como um livro eletrônico geral para os mais de US$ 6 bilhões que gerencia em reservas para os bancos da região.

Uma segunda prova de conceito testou o aspecto de um nó de auditoria ou supervisão em um livro distribuído se fosse parte de uma rede bancária nacional massiva e digital.

"A ideia era fazer a auditoria ou procurar por desafios contra a lavagem de dinheiro, ou procurar por um comportamento incomum de fraude e como você digitalizaria o que é hoje uma atividade muito humana", disse ele.

"Temos que construir uma teia de conectividade entre todos esses bancos, onde estamos observando transações em algum ambiente Blockchain massivo", continuou Brassill. "Nós estaremos requisitando essas transações; podemos ser os árbitros dos serviços de associação decidindo quem estará envolvido nesta rede, quem emitirá certificados para isso. Este é um grande desafio".

Um terceiro PoC Blockchain que o Fed está construindo executará um aplicativo de RH não crítico - uma de suas funções de avaliação de funcionários - mas será executado 24 horas por dia, 7 dias por semana, para determinar quais problemas podem surgir do uso constante, como problemas de dimensionamento.

"Vamos ter problemas de armazenamento ...Então, antes de construirmos essa plataforma de contabilidade geral de missão crítica no futuro, primeiro devemos nos aproximar de algo muito modesto."

O Fed pretende lançar uma versão de produção desse aplicativo de RH baseado em Blockchain no próximo ano.

A agência também está examinando como o DLT poderia promover a disrupção de processos em todo o país e no mundo, como por meio de micropagamentos - pequenos pagamentos online com mais frequência entre consumidores e varejistas. E o Fed está observando como o Blockchain poderia eventualmente afetar grandes plataformas de varejo e atacado, como a rede eletrônica Automated Clearing House e a Fedwire, usadas para grandes pagamentos entre bancos.

"E se essas plataformas estiverem rodando em tecnologia de contabilidade distribuída? Quais são os riscos cibernéticos? Com ​​que rapidez funcioriam? Precisamos entender isso antes de sofrermos alguma disrupção", disse Brassill. "Então há toda essa ideia de criptomoedas fiat... O Fed precisa entender para onde isso está indo. O que significam as ICOs para a economia? O que todas essas 2.500 criptomoedas significam? Por extensão, o que isso significa para a estrutura global?" 

O Federal Reserve Bank de Boston também tem 300 examinadores cujo trabalho é garantir que os bancos da região sejam líquidos e estáveis. "Imagine daqui a uma década se alguns desses bancos estiverem operando seu sistema de crédito a partir de uma rede Blockchain; o que os nossos examinadores precisam entender para avaliar melhor essas empresas?" questiona Brassill.

Usando o Blockchain em redes maiores
O Fed tem tentado determinar onde está, em comparação com outros bancos centrais do mundo, implementando Blockchain, porque no futuro pode haver uma rede Blockchain global através da qual os bancos transfiram tanto títulos tradicionais como criptomoedas. A empresa planeja lançar um white paper até o final do ano detalhando suas experiências com os PoCs Blockchain - não apenas do ponto de vista governamental, mas também comercial, disse Brassill.

Nos próximos 12 a 18 meses, o Fed de Boston começará a associar seus PoCs a outros bancos Federal Reserve com o objetivo de criar um ambiente para testar os aplicativos.

Como as redes Blockchains corporativas ou "autorizadas" são distribuídas, qualquer pessoa autorizada na contabilidade eletrônica por uma autoridade central pode, potencialmente, ver todas as entradas de dados imutáveis; Isso é extremamente útil para processos de negócios, como rastreamento da cadeia de suprimentos ou pagamento e liquidação transfronteira. A tecnologia de contrato inteligente também pode controlar quem, em um livro, consegue ver o quê.

Mas, Bennett advertiu, a tecnologia de contrato inteligente desmente seu nome: não é inteligente nem um contrato legal. Contratos inteligentes são construções de automação de negócios (software codificado para impor regras predeterminadas) com a capacidade de alcançar a desintermediação de processos que geralmente são manuais.

E mesmo quando uma empresa tenha testado redes Blockchain, com sucesso, várias vezes, isso ainda não significa que a tecnologia esteja pronta para produção porque talvez ainda não possa escalar; precisará integrar-se aos sistemas de negócios existentes; e precisará atender aos requisitos regulatórios e de conformidade que, em muitos setores, ainda precisam ser determinados.

"Essa é uma das razões pelas quais não veremos uma adoção em larga escala imediatamente", disse ela. "Qualquer um que fale sobre DLT revolucionando esta indústria, este processo, tudo isto - nada está  olhando o problema hoje a partir de uma perspectiva corporativa. O que as empresas estão fazendo é realmente observar o que precisam fazer hoje para fazer as coisas de maneira diferente no futuro. "

Por exemplo, no ano passado, a Northern Trust Corp. lançou uma rede comercial de Blockchain  baseada no Hyperledger Fabric para administrar um fundo de private equity. A rede DLT permitiu a troca de documentos em tempo real entre todas as partes envolvidas, e a tecnologia de contrato inteligente otimizou o processo de aprovação.

"Eles reduziram o tempo necessário para reunir toda a documentação necessária para uma transação de patrimônio privado de três semanas para três dias", disse Bennett, acrescentando que a Northern Trust também autorizou um auditor na Blockchain para inspecionar as transações quase em tempo real, em oposição à abordagem mais tradicional de realizar auditorias periódicas de transações concluídas há muito tempo.

blockchain

Por que as empresas podem evitar o Blockchain por enquanto
As empresas que consideram a implantação do Blockchain devem se perguntar se há boas razões para não ter um único sistema centralizado, porque o DLT introduz complexidade e, pelo menos nos dias de hoje, ainda apresenta riscos por falta de maturidade.

"Em última análise, só você conhece bem a sua organização e sua indústria para poder dizer onde é que o sapato dói e que problema você precisa resolver, vá em frente ", disse Bennett.

Ela alertou que, embora haja paralelos entre os primórdios da internet e a tecnologia Blockchain, em que ambos têm o potencial de se tornar um veículo de comunicação onipresente, a diferença gritante é que Blockchain não passou por rigorosas pesquisas acadêmicas.

"Temos redes em funcionamento que estão convidando para a participação comercial mesmo não tendo passado por nenhuma forma de pesquisa acadêmica rigorosa."

O que muitas das organizações públicas e privadas que implantaram Blockchain aprenderam é que a tecnologia está longe de estar totalmente pronta e ainda enfrenta obstáculos que podem levar anos, senão uma década, para serem resolvidos.

Por exemplo, ainda há uma infinidade de especificações concorrentes e iterações de Blockchain, portanto, não se sabe se a aceitação será impulsionada por padrões, iniciativas do setor ou adoção de fato.

"Vamos ter que esperar para ver", disse Bennett.



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